18 agosto, 2008

202 - Na estrada

Foto: Sharkinho


Sou Camionista


Tenho muitos galhardetes, bonecos e bandeirinhas
Tenho muitos calendários com vaidades de maminhas
Tenho muitos amoletos p'ra que a estrada me ilumine
Tenho sonho, tenho cama, a minha casa é a cabine.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…


Tenho vinte e quatro rodas e cavalos p'ra puxar
Tenho um rolo de papel p'ra quando me quero assuar
Tenho duas tatuagens, muitas curvas por fazer
Uma diz amor de mãe, a outra diz talvez.


Tenho sono, tenho fome, mas nunca quero parar
Só não sei por que encosto quando vejo um polegar
Tenho braços bué da fortes que é p'ra agarrar no volante
Mas sinto logo uma fraqueza quando ligas o cantante.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…

Música ligeira portuguesa – Autor desconhecido

201 - Poema de Agostinho Neto

Foto: Sharkinho

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo
Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)


(Agostinho Neto)

200 - Pinba pumba, laranja, limão....

Foto: Shark inho
SALTO À CORDA

O cordão que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma
que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.
Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de pinhas
toque de campainhas?)
(Pedro Tamem, "Poemas a Isto")

16 agosto, 2008

199 - A Flor do Aloendro

Foto: Charquinho

Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa,
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
Para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

Joaquim Pessoa

26 julho, 2008

198 - Pastor do Alentejo

Foto: Shark

Pastor

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado

De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor
(Do folclore Alentejano)

24 julho, 2008

197 - Rosas macias como malvas

Foto: Shark

Rosas

Rosas cujo perfume, em noites enluaradas,
é um sortilégio etéreo a transpor as rechãs;

rosas que á noite sois risonhas, flóreas fadas,
de cútis de veludo e tenras carnes sãs.

Sejais da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmãs,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretização dos risos das Manhãs!

Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
há nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêssego em sazão.

Daí que eu possa gozar, ao vosso colo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emoliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!
Gilka da Costa de Melo Machado
(Rio de Janeiro 1893 - 1980).

10 julho, 2008

196 - Degraus

Foto: Shark

DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo


(Mário Quintana)

29 junho, 2008

195 - Irresponsabilidades ecológicas

Foto: Shark
Meio Ambiente

Desde o início, tudo mudou
O meio ambiente, já se transformou,
Tapamos nossos olhos, para não ver
Tudo que está acontecendo

Não queremos perceber
Animais famintos, outros extintos
As florestas mudaram
Muitas árvores derrubaram.

O povo consumista, não quer saber
A natureza pede ajuda,
Sem ninguém pra socorrer

A mata está sufocada
As pessoas ficam caladas
Fábricas, fumaças...
Dinheiro sujo, só desgraça.

Temos que agir,
O mundo vai cair
Talvez caia em cima de nós
E ninguém escutará nossa voz.
Caroline M. Costa

28 junho, 2008

194 - A todas as MULHERES

Foto: Shark

São as Mulheres como tu
Que pela consciência,
encontram respostas para todas as perguntas
Que pela fraternidade, possuem
não só uma vida mas todas as vidas
Que pela dedicação,
transformam o cansaço numa esperança infinita
Que pelo pensamento,
ajudam a realizar o azul que há no dorso das manhãs Que pela emancipação,
fazem de nós mulheres e homens com a estaturada vida,
Capazes da beleza, da igualdade, da justiça e do amor
São as mulheres como tu
Que podem transformar o mundo

(Joaquim Pessoa)

27 junho, 2008

193 - Até os manjericos já são de papel

Foto: Shark

O vaso de manjerico

O vaso do manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.

(Fernando Pessoa)

192 - Rubras papoilas

Foto: Shark

De tarde

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma cousa simples bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoilas.

Pouco depois, em cima dos penhascos,
nós acampávamos, inda o sol se via;
e houve talhadas de melão, damascos,
e pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
dos teus dois seios como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoilas.
( Cesário Verde )

24 junho, 2008

191 - Professoras da minha infância

Foto: Shark

Os meus professores

Os meus professores
A quem muito amei,
Ensinaram-me tanto
Do que hoje eu sei!

Os meus professores
Eu muito respeitava,
Transmitiram-me valores
Fizeram muito do nada!

A os meus professores
Muito bem eu dediquei,
Ensinaram-me tanto
Jamis os esquecerei!

Os meus professores
De há longa data,
Em toda a minha vida
Lhes estou muito grata!

Aos meus professores
Deixo este poema,
Todo o meu carinho,
Todo o meu afecto ,
Toda a minha gratidão
E um muito obrigada
Do fundo do coração

Dos meus Professores
Assim e despeço,
Recordando a todos...
Nas rimas deste verso!

23 junho, 2008

190 - Cobra

Foto: Shark

A Cobra (extracto)

Passaste por mim na rua. Passaste, toda dengosa.
E eu fui olhando e pensando: que cobra mais sinuosa.
Dás nas vistas, acredita, talvez pelo teu vestir
mas, queria ver-te sem roupa, queria poder-te despir!
Laura B. Martins
(in Divagando)

19 junho, 2008

189 - Repasto

Foto:Charquinho

REPASTO

Comi de tudo, da vida fiz repasto.
Até daquilo que provei, mesmo nefasto,
fui recolhendo e amarrei num bouquet.
Viagens, fiz algumas; reparei,
do mar, ter um receio que só eu sei!...
Dos aviões nunca tiraria brevet (...)

Assim, me limitei aos pés na terra
porque é difícil viajar, (está tudo em guerra...
por todo o lado são países desavindos).
Reduzi o meu espaço ao meu país;
e hoje, faço aquilo que não fiz,
contando no bouquet ramos infindos.

De moça nova que era, namorei;
e alguns corações despedacei
mas, no correr dos anos, são fatais
as trocas. Que prefere o ser humano?
Quando a idade avança, o que é mundano
passa. A mim... ficaram-me os animais!
Laura B. Martins
Soc. Port. Autores n.º 20958

188 - Vulcões

Foto: Charquinho
Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

(Florbela Espanca)

15 junho, 2008

187 - Meu Alentejo imenso

Foto: Shark

Alentejo

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha

Sem chegar!...

(Miguel Torga)

14 junho, 2008

186 - As Cegonhas

Foto: Shark

Cegonhas

Olá cegonha gosto de ti!
Há quanto tempo, te não via por ai!
Nem teus ninhos nos telhados,
Nem as asas pelo céu!
Olá cegonha! Que aconteceu?
Ainda me lembro de ouvir-te dizer,
Que tu de longe os bebes vinhas trazer!
Mas os homens vão crescendo,
E as cegonhas a morrer!
Ainda me lembro... não pode ser!
Adeus cegonha, tu vais voar!
E a gente sonha...é bom sonhar!
No teu destino, por nos traçado!
Leva o menino, que é pequenino, toma cuidado!
Adeus cegonha, adeus lembranças...
A gente sonha, como crianças!
Faz outro ninho, no som dos céus!
Vai de mansinho, mas pelo caminho, diz-nos adeus!
Adeus cegonha, tu vais voar!
E a gente sonha... é bom sonhar!
No teu destino, por nós traçado...
Leva o menino que é pequenino, toma cuidado!
Leva o menino... mas tem cuidado!
(Carlos Paião)

13 junho, 2008

185 - Meu Alentejo ao pé do mar

Foto: Shark

Fui à Beira do Mar

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre

Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar

No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater

No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

(Zeca Afonso)

184 - MARAVILHA DE PAÍS O NOSSO

Foto: Shark

Minha Terra

Minha Terra embalada pelas ondas,
Lindo país de mouras encantadas,
Onde o amor tece lendas e onde as fadas
Em castelos de lua dançam rondas…

Oh meu Algarve, quero que me escondas…
Que na treva da morte haja alvoradas!
Hei-de sonhar com moiras encantadas,
Se eu dormir embalado pelas ondas…

Quando o sol emergir detrás da Serra,
Sempre será… da minha terra
A fecundar-me o chão da sepultura...

Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,
A morte será quase uma ventura,
A morte será quase como a vida…
Cândido Guerreiro

10 junho, 2008

183 - Pátria

Foto: Shark

Os Lusíadas
Canto III
21

Esta é a ditosa Pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
..................................................................
(Luiz Vaz de Camões)

09 junho, 2008

182 - Voar como os pássaros

Foto: Shark

Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste
Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.
E se o procurarmos?

Que não se desespere,
pois nunca o iremos encontrar.
Algum sentimento o terá deixado pousar,
partido com ele.
Estará o verso connosco?
Provavelmente apenas a parte que nos coube.
Aquietemo-nos.
Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.
(Eduardo White)

06 junho, 2008

181 - Nas asas da poesia

Foto: Shark

OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
(Mário Quintana)

05 junho, 2008

180 - Barco no mar

Foto: Shark

NAU SEM RUMO

Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.

Caminhar sobre a superfície do oceano,
pisando em pássaros submarinos,
tropeçando em ruínas de outras civilizações,
beijando cadáveres de náufragos,
até a definitiva conversão em água, sal e vento.

Sei que não tenho destino.
É o destino que me possui.
As correntezas traçam a rota
e as tempestades preparam o naufrágio.

O mar não precisa de caminhos,
tece na solidão as formas da morte,
enquanto o vento entoa cantos fúnebres
sobre os campos azuis do país marítimo.

O mar não precisa de navios,
precisa apenas de corpos.
(José António Cavalcanti)

01 junho, 2008

179 - Quem se vende?

Foto: Shark

Compra-se

Compram-se seres humanos
Calados, domesticados
Que não pensem, nem opinem
Ao serem questionados.
Que não vejam, nem escutem
Nem se sintam incomodados.

Compram-se seres humanos
Que sejam modernizados.
Que andem sempre na moda
Felizes, etiquetados
Que propaguem e que convençam
Até os conscientizados.

Compram-se seres humanos
Totalmente desligados
Que não gostem de política
E estejam sempre ocupados
Que não sejam de esquerda
E nem sindicalizados.


Compram-se seres humanos
Famintos, desempregados,
Indecisos, inseguros,
Descalços, descamisados,
Menores, analfabetos,
E até informatizados.

Compram-se seres humanos
Idosos, aposentados,
Jovens e adolescentes
De preferência, os drogados
Que se sumam, consumindo,
Em tempos globalizados!!!
de Prof. Zé Maria
Eldorado dos Carajás

31 maio, 2008

178 - Lavadeiras

Foto: Shark
Poema da Lavadeira

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perdeira talvez
Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
Fernando Pessoa, 15-9-1933

25 maio, 2008

177 - Teia de aranha

Foto: Shark

O AMOR

O amor, fio d'aranha quebradiço,
Um sopro o quebra e ninguém mais o reata.
Mas ai de nós! Rompeu-se e nem por isso
A dor que ele nos deixa se desata...

Num braço de corpos naufragados
Que os nossos prantos num só pranto unia,
Quedámos sucumbidos e prostrados
Até que já no céu luzia o dia

...Um dia pálido e deliquiscente

E a chuva caía,
Mais triste, mais fria,
Monotonamente ...

(Augusto Gil)

176 - Nascer do sol

Foto: Shark

Sol D'Agosto

Mesmo que um véu espesso de neblina
Toldasse o ar e o céu e tarde fosse,
Se a tua bôca fina
E purpurina
E doce
Para mim sorria,
Já não havia para mim sol posto:
Era... como se fôsse meio dia
- Um meio dia de abrasado agosto.
E trocávamos beijos sem ruído,
Desfalecidamente,
Num amor incendido,
Altissimo, purissimo, silente...
E nossos lábios, para se beijarem
Naquele enlêvo mudo e mudo encanto,
Eram dois rouxinóis que para voarem
E se encontrarem,
Interrompessem o mavioso canto...
Pois não diziam tudo,
Com esse beijo mudo,
Os meus lábios e os teus?
E nós nem saberíamos falar!
Quando o calor d'Agosto se abre aos céus
E inflama o ar
E morde a terra e a reduz a pó,
- Os rouxinóis não cantam
Voam só ...
(Augusto Gil)

16 maio, 2008

175 - Simbiose - Velho e novo

Foto: Shark
Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto... tão perto... tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

174 - Flores do campo

Foto: Shark inho

É Primavera agora, meu Amor!

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao saber

Da vida... não há bem que não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal !
Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


(Florbela Espanca)

13 maio, 2008

173 - Aonde andam as ondas?

Foto:Shark inho

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

(Manuel Bandeira)

11 maio, 2008

172 - Gosto de Gatos, pretos

Foto: Shark inho

O Gato

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné
..........................................
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga
(Vinicius de Morais)

09 maio, 2008

171 - Aquela cativa que o tem cativo

Foto: Shark inho

Endechas a Barbara Escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uã graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Luís de Camões

08 maio, 2008

170 - Uma janela florida

Foto: Shark inho

NÃO PEÇAS DEMAIS À VIDA
Não peças demais à vida,
Aceita o ela te deu
Uma JANELA FLORIDA
Mostra a cor de todo o céu.

Afinal a felicidade
Cabe num rosto a sorrir
Ai de quem sente a ansiedade
De viver sempre a pedir.

Não peças demais à vida,
Aceita o que ela te dá,
Porque a ambição desmedida
Faz-nos crer o que não há.

E não há sinceramente
Maneira de ser feliz
Para quem quer constantemente
Ser mais feliz do que quis.

Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der,
Às vezes, basta a guarida
Dum abraço de mulher.

Num sorriso de criança
Ou no sol quente a brilhar
Existe um tesouro de esperança
Que ninguém pode comprar.

Se afinal basta a guarida
Dum abraço de mulher,
Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der.
(Amália Rodrigues)

06 maio, 2008

169 - Jardim

Foto: Shark inho
Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
(Sphia de Mello Breyner Andresen)

168 - Sonhos

Foto: Shark inho

Sonhos

S'crevo meu livro à beira-mágua.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a dispertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras portuguez,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anceio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
(Fernando Pessoa)

05 maio, 2008

167 - Tomate também é fruto

Foto: Skark inho
Vamos falar sobre fruta - (extracto)

Vamos falar sobre fruta
que todos devem comer
chupar a sua carninha
ou o seu sumo beber.

A fruta é colorida,
cada fruta sua cor,
arredondada ou comprida
cada fruta, seu sabor.
...........................................

tomate, também é fruto
é vermelho e não é doce,
corta-se às rodelinhas
e come-se com a alface.
(Autor desconhecido)

04 maio, 2008

166 - Toda a rosa tem espinhos

Foto: Shark inho


PRIMAVERA

Entre rosas, bem lestinhos,
Vigiam duros espinhos;
E entre espinhos, bem vistosas,
Campeiam essas rainhas
Que têm o nome de rosas
De comum, de parecido,

Uns e outros nada têm;
Mas como se entendem bem!
Sendo frágeis e garbosas,

Por todos apetecidas,
Não serão esses espinhos
Os seguranças das rosas?
Só receio que os mortais,

Que mudam tantos destinos,
Um dia também consigam
Mudar rosas em espinhos.
Ao contrário, a natureza,

Quem tem leis maravilhosas,
Talvez um dia consiga
Dos espinhos fazer rosas.
(Abel Grilo)

165 - Marginal (um qualquer dia da semana)

Foto:Shark inho 1/12/2007

POEMINHA DO CONTRA

“E todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão...
Eu, passarinho!”

(Mário Quintana)

02 maio, 2008

164 - Olha uma nêspera e zás picou-a...

Foto: Shark inho


RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

(Mário Henrique Leiria)

28 abril, 2008

163 - Barcos no Tejo

Foto: Shark inho
Tenho uma janela

Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrela
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.

(Mário Castrim)

162 - Sardinheiras

Foto: Shark inho
AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folha
se margens lisas ou recortadas
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

(Jorge Sousa Braga)

161 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

Aurora Boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto,
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,

todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

(António Gedeão)

27 abril, 2008

160 - Barcos no Tejo

Foto: Shark inho

Barcos no Tejo

Cá no alto do castelo
Está S. Jorge a dominar
Olha o Tejo com desvelo
A vê-lo correr pró mar
Vejo as velas tão branquinhas
Barquinhos a deslizar
Os barcos são alfacinhas, e não vão
Não vão pró mar
Barcos do Tejo
P’lo rio afora
Eu bem os vejo
Namorar Lisboa
Iguais as velas
Que deram fama
Às caravelas
De Vasco da Gama
Barcos do Tejo
A navegar
Que eu bem os vejo
Olhando pró mar
Barcos do Tejo
Velas à vela
São filigrana de Lisboa
Nobre e tão bela
Destas muralhas com glória
Cá no alto do castelo
Deito os olhos pró Restelo
E oiço falar a história
Velas ao vento
Tal qual as que vês lá em Belém
Mostraram ao mundo quem
E o valor de Portugal

23 abril, 2008

159 - Um rio

Foto: Shark inho

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

20 abril, 2008

158 - O Meu rio chama-se Tejo

Foto: Shark inho

Não ser eu

Eis aqui o Mundo em arcos.
Sob as pontes, sobre os barcos.
Viagem, curva no espaço
Que em abismos se desata.
Pelo rio canta a prata
Da branca deusa ofegante…

Sem convés e sem mirante,
De que aproveita o instante?

Eis aqui o Mundo em arcos.
Curva e nuvem, recta e espelho.
Eis aqui, humanos arcos.
Comigo o esboço é desfeito.
Não ser outra, nem ser eu
Me solicita e constrói.
Voo em silêncios abertos.
Não ser, dentro da corola.
Ser só na sombra que rola,
No som que não se detém.

Só desejo não ser eu
Na vida que em mim se ateia.
Ser outra, noutra prisão?
Ser, numa outra cadeia?

Nem que os deuses me oferecessem
Mil rostos de água e areia
Para um destino gelado
De mar, pérola ou sereia,
Nem assim diria: - Ámem!

Não ser eu é que está bem
Não ser eu, nem ser ninguém.


(Natércia Freire)

157 - Lis(boa) todos os dias

Foto: shark inho

MUSICA

Loira Lisboa, amolecida e calma,
Com vitrines de sol pelos passeios
E as avenidas com passeios de almas.

As tardes castas. E nas sombras mansas
Nem há crianças
A brincar na rua.

Céu rosado, menino, Céu de bruços,
A escutar os soluços
Da terra morna e nua.

Nas matas presas pelas sombras finas
Ninguém achou as sinas
Traçadas no chão brusco…

Nem os olhos das casas, aos domingos,
Espreitando ao lusco-fusco…

Erguida a noite sobre o chão brilhante
- As estações morreram com a nortada –
Não há pomba, nem luz , nem viajante,
Que pare na pousada.

Nas praças largas a abraçar fantasmas
Ficaram os pedintes de amargor.
Pés brancos, enterrados pela água,
E as mãos pendentes, pelo Céu sem cor.

Entre a música eterna da saudade
Os rios vão de corações abertos.
Ao longe,
Búzios a chorar jardins.
Ao perto,
Estátuas a sonhar desertos.

(Natércia Freire)

156 - O meu rio chama-se Tejo

Foto: Shark inho

Tempos de Mocidade (extracto)

Fui à fonte para te ver
Ao rio para te falar,
Nem na Fonte nem no rio
Te fui capaz de encontrar.

(José Henriques Félix)


14 abril, 2008

155 - Candeeiro

Foto: Shark inho
Candeeiro
(extracto)

Candeeiro da esquina
Não te apagues, por favor!
Pelo menos à noitinha
Quero ver o meu amor.

Não me deixes às escuras
Te peço por caridade!
Eu venho de muito longe
Não conheço a cidade
……………………….

(Maria de Lurdes Pereira)

03 abril, 2008

154 - Eternidade

Foto: Shark inho

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.
Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...
— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.
Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
(Rimbaud)

01 abril, 2008

153 - Menina estás à janela

Foto: Shark inho

Menina estás à Janela

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela
(Do cancioneiro Popular)