18 Fevereiro, 2012

352 - Arco da Velha

Foto: Shark

Arco de vella


Arco de vella, arco de vella,
ponnos o ceo limpo e azul.
Arco de vella, riso das nubes,
as sete cores fillas da luz.

A vermella está no viño,
nos beizos e nas cereixas,
nas fazulas dos rapaces
e nas feridas das guerras.

Vive a laranxa no lume,
parte o nome coas laranxas,
tingue o cabelo do sol
cando o sol toca as montañas.

A amarela anda no mel,
no millo e mais no centeo,
no sol e nas bolboretas,
nas follas que tira o vento.

Corre a verde polos prados,
repousa nas matogueiras,
está na pel das mazás,
vive no limo das pedras.

Azul e anil van no mar,
as dúas son mariñeiras.
Azul gusta de voar
e case toca as estrelas.

Violeta anda nas flores
e recende coma elas.
É unha cor moi delgadiña,
case se perde na néboa.

Marica Campo, Lourdes Maceiras, Helena Villar Janeiro

31 Janeiro, 2012

351 - Poeminha do contra ou.... Talvez não!


Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Mário Quintana

350 - Felicidade


Onde estás Felicidade

Que nunca te encontrei

A tantos já ouvi

Falar tão bem de ti

Mas se és boa não sei

Onde estás Felicidade

Que não te chego a ver

Cruzaste já por mim

Mas nem sequer assim

Te deste a conhecer

À minha porta um dia

Bateste que alegria

Por saber que me procuravas

Feliz só por te ouvir

Correndo fui abrir

Mas tu já lá não estavas

Quantas vezes perguntei

Como és Felicidade

Sentir-te quem me dera

Eu estou à tua espera

Felicidade onde estás?

12 Janeiro, 2012

349 - FUMO


Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…


Florbela Espanca

13 Dezembro, 2011

348 - O Poeta e a Rosa



Ao ver uma rosa branca
O poeta disse: Que linda!
Cantarei sua beleza
Como ninguém nunca ainda!

Qual não é sua surpresa
Ao ver, à sua oração
A rosa branca ir ficando
Rubra de indignação.

É que a rosa, além de branca(
Diga-se isso a bem da rosa...)
Era da espécie mais franca
E da seiva mais raivosa.

- Que foi? - balbucia o poeta
E a rosa; - Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!

E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.

- São milhões! - a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...

E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.

O poeta baixa a cabeça.
- É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira

Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.

Vinicius de Morais

10 Outubro, 2011

347 - Lisboa velha cidade



Pelas velhas ruas de Lisboa
Perdi-me
Velhos casarios
Velhas Histórias
Velhas Poesias
Aglomeram-se

Na taberna
Encontro Pessoa
O'Neill, Cinatti,
Nobre, Florbela,
Camões....

O Tejo é azul...
Colore meus tristes olhos
e inunda de amor
a minha vida vazia,
e tudo o mais,
não é vã filosofia,
é poesia
e alegra-me o dia

O rio que passa em minha cidade
leva o meu destino,
leva o meu fado
a mares nunca dantes navegados.


Nelson Tangerini

04 Maio, 2011

346 - Homenagem

Um Cão de cá...

Cão não é Gato
De facto cão é quase gente
mas não mente.
Também não é Leão
Não
Mas no essencial
a coragem é igual
Cão é de homem
Já viu homem puxando gatinho pela trela?
Gato é de mulher!
Já viu mulher segurando mastim?
Tem assaltante em casa?
Cão enfrenta!
Gato?
Nem tenta.
Gato é companhia...
Que mia.
Cão é muleta de invisual!
Mas que animal
Cão te adora
Não explora,
Como gato egoista e maltês
Que já fugiu outra vez!
Meu cão meu amigo.

Jorge Santiago

20 Abril, 2011

345 - Identidade

























Foto: Shark



Identidade



Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.



Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

344 - Viagem



















Foto: Shark

VIAGEM

É o vento que me leva
O vento luzitano
É este sopro humano
Universal
Que enfuma a inquietação de Portugal
É esta furia de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar
Que vai de céu em céu
De mar em mar
Até nunca chegar
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas de ventura
De me procurar.


Miguel Torga

19 Abril, 2011

343 - Rosa

















Foto: Shark


“Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé a dor
Em sândalos olente cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendo da santa natureza”




Pixinguinha e João de Barro

10 Março, 2011

342 - Pôr do sol Alentejano
























A Terra à Beira da Noite

Com o vagar da sombra da lonjura
que a tarde entorna sobre o descampado,
a distância prolonga-se e perdura
para além deste tempo limitado.

Vem de longe o aroma a terra pura
repetir as lavoiras do passado
e eu sou a mais estranha criatura
sobre a terra que sonha o céu estrelado.

O poente põe luzes na cidade,
mas a cidade nem sequer supõe
a luz dolente que o poente encerra.

Nada me sei, todo me sinto e há-de
ser sempre assim que o sol quando se põe
me põe a mim a prolongar a terra.

Martinho Marques
Foto: Shark

12 Dezembro, 2010

341 - Metamorfose

Foto: Shark

Metamorfose

Odeio SIM!
Odeio o amor!
O amor é peçonha, é reles
O amor é amargo como o fel
O amor mente, é ilusório
É ridículo e cruel.
O amor fere, o amor mata!
O amor não existe!
VIVA O ÓDIO
Elejo-te bastião da minha vida
Odeio tanto quanto já amei
Odeio as pessoas e tudo quanto existe
Odeio a vida e tudo o que ela encerra
O-D-E-I-O – M-E
E sinto que renasço e me renovo
Em cada dia em cada ÓDIO.
(G)

13 Outubro, 2010

340 - Garça Real

Foto: Shark

Garça Real

Ó garça que agora moras
Na mesma casa que eu
onde estou eu também tu
consideras tudo teu

Ó garça que voas alto
e entre as nuvens perpassas
lá em cima é só passeio
ou alguma coisa caças?

Ó garça que me acompanhas
em horas de solidão
és tão meiga como um gato
e tão fial como um cão

Só tens um grande defeito
ás muito desconfiada
quando vem alguém a casa
ficas logo desconfiada

Ó garça não tenhas medo
que ninguém te fará mal
desejam é fazer festas
à minha garça real

por agora aqui termino
este meu canto corrido
E mais não digo p´ra que ele
não seja muito comprido.

Elviro Rocha Gomes
Poeta popular

339 - Ovelha tosquiada

Foto: Shark

Ovelha tosquiada

Tosquiaram a ovelha.
Parece uma velha.
Tão lisa e tão fria
parece uma rã.
Umas mãos hábeis
roubaram-lhe o garbo
tirando-lhe a lã.
Assim ficou nua
no meio do prado.
Anda vaidade
passeando na rua
com lã que era sua.
E ela anda nua.

Elviro Rocha Gomes
(poeta popular - Faro)

07 Outubro, 2010

338 - Espelho de Outono

Foto - Shark

Voz de Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —
Antero de Quental, in "Sonetos"

04 Agosto, 2010

337 - Marco do Correio

Foto: Shark

Marco do Correio

Minha rua sossegada
Tem á beira do passeio
A coisa mais engraçada
Que é o marco do correio

Marco do correio
De portinha ao centro
Não sabes, eu creio
No que tens lá dentro

Quantas raivas e desejos
Mil respostas e perguntas
Quantas saudades e beijos
E quantas lágrimas juntas

Marco do correio
Deixa-me espreitar
Deixa que eu não leio
Nem vou divulgar

Vá lá, não fiques zangado
Deixa-me ver, por favor
A carta que tens ao lado
A carta do meu amor

Frederico de Brito / Alberto Ribeiro

31 Maio, 2010

336 - A apanha do feno

Foto: Shark
Lembranças da minha infância
Está a chegar o fim de Julho Embora o tempo seja ameno É altura de ceifar o feno E o centeio para debulho
O camponês pega na gadanha,
Ceifa o feno com desembaraço Enquanto outro, no seu encalço, Junta a braçada que amanha
E o feno assim exposto ao ar Bem estendido e acamado Fica mais uns dias no prado Para amarelecer e secar
Revolve-se uns dias depois
Para voltar a ser espalhado Quando já seco é enfeixado E levado no carro de bois Trazem-se os “nagalhos” do lar Feitos de palha de centeio Põe-se o feno no entremeio E é só torcer e apertar
Os carros trazem os varais
Para segurar bem a carrada Que depois de bem apertada Ainda consegue levar mais
E a pujança do camponês
Alçando mais feno nas forquilhas Carrega ainda algumas pilhas E aperta as cordas de vez
Depois é um ver se te avias
Corro para trepar E lá no cimo bem aninhada Gravo na memória belos dias!...
Gina Ferro

09 Maio, 2010

335 - Natureza Feiticeira

Foto: Shark

Natureza Feiticeira

A Natureza, contém feitiços!
É um turbilhão que nos acalma
É sombra, penumbra, luzes, viço
Pleno deslumbre para a Alma

Deleita o olhar a planura
Numa vastidão que o alonga
E como o alaga de ternura
A montanha que o ensombra

O mar bravo e tempestuoso
Embala o sono da criança
Assim, o recife escabroso
Produz ânimo e esperança

Oh! Sortilégios da Natureza
Que com tal ímpeto aquieta
E com sua calma e singeleza,
Que intensos vendavais desperta!

Georgina Ferro

28 Fevereiro, 2010

334 - Teorias

Foto: Charquinho

Relatividade


Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa.
"E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
(autor desconhecido)

16 Fevereiro, 2010

333 - Carnaval

Foto: Charquinho; Poema daqui

Carnaval
La stagion del Carnovale
tutto il Mondo fa cambiar.
Chi sta bene e chi sta male
Carnevale fa rallegrar.

Chi ha denari se li spende;
chi non ne ha ne vuol trovar;
e s'impegna, e poi si vende,
per andarsi a sollazzar.

Qua la moglie e là il marito,
ognuno va dove gli par;
ognun corre a qualche invito,
chi a giocare e chi a ballar.

13 Fevereiro, 2010

332 - Formigas

Foto: Shark
Minuciosa formiga

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

Alexandre O'Neill

19 Dezembro, 2009

331 - Batentes

Foto: Shark
UM LEÃO LADEIA

Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro
Séculos e séculos esbatem
o relevo das garras
nas esferas de pedra
Quem o olha imobiliza-se
vendo-o com uma esfíngica
expressão de antiguidade
Nos globos oculares que a areia corroeu
há mesmo um gladiador espelhado
E nem a juba se acama, dócil
à ideia de que a tua mão acaricia
Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro.
Sebastião Alba

07 Dezembro, 2009

330 - Noite em Lisboa

Foto: Shark

Nas ruas da noite

No crepitar de estilhaços
de estrelas sobre os espaços
da Lisboa rua em rua —
crucificámos abraços
encruzilhados nos passos
que à noite a lua insinua

Em nossas bocas unidas
sangrámos todas as feridas
dos beijos amordaçados —
salvámos vidas vencidas
que andam na treva perdidas
como num mar afogados

Cegos de sombras e lama
Quando a sede que se inflama
numa inquisição divina —
bebemos o vinho em chama
que sanguíneo se derrama
no candeeiro da esquina

Embriagados de lume
sem dissipar o negrume
do fumo que nos oprime —
rezamos em seu queixume
no cio do meu ciúme
fados do amor feito crime

Crucificamos abraços
encruzilhados nos passos
que a noite nua desnua —
crepitantes de estilhaços
de estrelas quando em pedaços
vêm morrer sobre a rua
Fernando Pinto Ribeiro

12 Novembro, 2009

329 - Gato Preto

Foto: Shark

Vira

O gato preto cruzou a estrada,
Passou por debaixo da escada
E lá do fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou, a dança, a roda a festa

Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem

Bailam corujas e pirilampos
Entre os jardins e as fadas
E la no fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou a dança, a roda, a festa.

Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem.

João Ricardo

328 - A Cadeira do barbeiro

Foto: Shark

A Cadeira do barbeiro

É na cadeira de barbeiro que a gente sabe o que sabe,
quando se corta a "guedelha", quando o cabelo se abate,
se faz o corte das unhas dos governantes, pois, pois...
E se ensaboa a má língua, depois.
É na cadeira de barbeiro que a gente vai fofocar,
enquanto lustra o sapato e toca, toca a engraxar.
se dá o aparo ao bigode e à vida doutros, também...
Mas nunca se diz mal de ninguém!

É dar e dar à tesoura,e as navalhadas são mil.
É no barbeiro que a conversa é baril.
Ali se sabe sempre e em primeira mão,
o que vem nos jornais, Rádio e Televisão.

É na cadeira do barbeiro que a gente sabe, pois é.
Que a D. Berta e o vizinho, são só amigos... não é?

E que o fulano da esquina, a quem se chama Doutor,
não tem canudo, não tem, não senhor.
É na cadeira do barbeiro que a gente sabe o que sabe,
quando se corta a "guedelha", quando o cabelo se abate.
Se faz o corte das unhas, dos governantes, pois, pois...
E se ensaboa a má língua, depois.
António Sala

09 Novembro, 2009

327 - A Pilita

Foto: Charquinho

A PILITA ALENTEJANA

Rija, enquanto durou.
Agora q'amolengou
e antes q'a morda a cobra,
Vou atá-la c'uma corda
Pra ela nã me fugiri.
Preciso da sacudiri,
Leva tempo pá'cordari
Já nem se sabe esticari.

Más lenta q'um caracoli,
Enrola-se-me no lençoli.
Ninguém a tira dali,
Já só dá em preguiçari.
Nada a faz alevantari
E já nã dá com o monti,
Nem água bebe na fonti.

Que bich'é que lhe mordeu?

Parece defunta, morreu.
Deu-lhe p'ra enjoari,
Nem lh'apetece cheirari.
Jovem, metia inveja.
Com más gás q'uma cerveja,
Sempre pronta p'ra brincari.

Cu diga a minha Maria,
Era de nôte e de dia.
Até as mulheres da vila,
Marcavam lugar na fila,
P'ra eu lha poder mostrari !
Uma moura a trabalhari,
Motivo do mê orgulho.
Fazia cá um barulho !
Entrava pelos quintais,
Inté espantava os animais.
Eram duas, três e quatro,
Da cozinha até ao quarto
E até debaixo da cama.
Esta bicha tinha fama.

Punha tudo em alvoroço,
Desde o mê tempo de moço.
A idade nã perdoa,
Acabô-se a vida boa !

Depois de tanto caçari,
Já merece descansari.
Contava já mê avô:
"Niuma rata lhe escapou !
"É o sangui das gerações.
Mas nada de confusões,

Pois esta estória aqui escrita,
É da minha gata, A Pilita !

(autor desconhecido)

31 Outubro, 2009

326 - Meu País

Foto: Shark

O Meu País

Um país que crianças elimina;
E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita,
por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!
João de Almeida Neto

26 Outubro, 2009

325 - Senhora da Saúde

Foto: Shark
Há festa na Mouraria
Há festa na Mouraria
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.
Até a Rosa Maria,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.

Naquele bairro fadista,
Calaram-se as guitarradas.
Não se canta nesse dia;
Velha tradição bairrista:
Vibram no ar badaladas
Há festa na Mouraria

Colchas ricas nas janelas,
Pétalas soltas no chão,
Almas crentes, povo rude.
Anda a fé pelas vielas,
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.

Após um curto rumor,
Profundo silêncio pesa,
Por sobre o Largo da Guia.
Passa a Virgem no andor,
Tudo se ajoelha e reza,
Até a Rosa Maria.

Como que petrificada,
Em fervorosa oração,
É tal a sua atitude,
Que a rosa já desfolhada,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.
Gabriel de Oliveira

25 Outubro, 2009

324 - Viagem

Foto: Shark

Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga, in 'Diário XII'

323 - No combóio descendente

Foto: Shark


No Combóio Descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão
Fernando Pessoa

21 Outubro, 2009

322 - Poema repetido...

Foto: Shark

Toada de Portalegre
(Extracto do poema )

Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus ...
E, louvado seja Deus !
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a ceta cansada
Que dava cravos sem vida.
(extrato do poema de José Régio,
publicado com nº. 71 neste blogue)

15 Outubro, 2009

321 - Gente do Povo

Foto: Charquinho

Esta gente

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
e outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
De um tempo justo
sophia de mello breyner andersen

22 Setembro, 2009

320 - Minha Terra tem Palmeiras

Foto: Shark
Canção do exilio

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias
Coimbra, Julho 1843

319 - Reciclar é preciso

Foto: Shark
Rap Ecológico

Devemos cuidar
Do meio ambiente
Afinal de contas
É a casa da gente.
O nosso projeto
É uma beleza
Ensina a gente
A cuidar da natureza
Como é que vamos
Cuidar do meio ambiente?
Do jeito que está
Vai ficar permanente
Olha só meu amigo
Quanta poluição
Vamos já procurar
Uma boa solução
Já conheço uma
Que é bem legal
Reciclar papel
É fundamental
Separar o lixo
Não é nada difícil
Se você pensar
Logo vai notar
Esse é o rap
Do projeto ecologia
Venha conosco
Mergulhar nessa magia
Colaboração de Artur Gehlen Adams quando tinha 9 anos. NH

318 - A minha cidade

Foto: Shark

A minha cidade

A minha cidade não se chama Lisboa,
não tem cheiro a sul
e nem por ela passa o Tejo,
mas como ela, tem Nascentes
leitosos e marmóreos...
Na minha cidade os Poentes são de ouro
sobre o Douro e o mar
e só ela tem a luz do entardecer
a enfeitar o granito...
Na minha cidade, tal como em Lisboa
há gaivotas e maresia
mas não há cacilheiros no rio
há rabelos
transportando nectar e almas...
Da minha cidade nasce o Norte
alcantilado, insubmisso
e o sol, quando chega, penetra-a
delicadamente, carinhosamente,
depois de vencido o nevoeiro...
Na minha cidade também há pregões,
gatos, pombas, castanhas assadas e iscas
e fado pelas vielas, pendurado com molas,
como roupa a secar nos arames...
A minha cidade tem também tardes languescentes,
coretos nas praças
velhos jogando cartas em mesas de jardim
e o revivalismo de viuvas e solteironas
passeando de eléctrico...
É bem verdade que na minha cidade
a luz, não é como a de Lisboa
mas a luz da minha cidade
é um frémito de amor do astro-rei
a beijá-la na fronte, cada manhã!...


Maria Mamede

15 Setembro, 2009

317 - Nuclear

Foto: Shark

Psicologia de Um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Santos)

316 - Rubra, incandescente

Foto: Shark

Vaso Chinês

Estranho mimo, aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura —
Quem o sabe? — de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A genta acaso vendo-a
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
(Alberto Oliveira)

315 - POEMA DA BICICLETA

Foto: Shark

POEMA DA BICICLETA

Era uma vez
Uma bicicleta
Que eu tinha
Que era minha...
Que não tinha rodas
Mas que rodava comigo
Mundo a fora
Afora o horário

E eu nem amava o sonho
Pois não sabia
Aquilo o que era
Só sei que viajava
E achava bonito
Pedalar, sem cessar
Sem cansar

Sem sair do lugar
Ir a todo lugar
Até chegar no fim
(do sonho);
Uma bicicleta nova
Que nunca me levou...
A lugar nenhum
S. Paulo, 24/02/2003
CORDEIRO

314 - Apontamentos

Foto: Shark

Ao correr da pena

Uma prateleira branca
Com palavras cujas lombadas,
ficam tão bem arrumadas…

cada palavra tem uma história
por detrás,
ou mais do que uma,
tanto faz…

Num acto solitário,
que a solidão é um receio primário,
instintivo, na arrumação
temo a cada passo a constatação
de mais um fracasso …

Logo abaixo da primeira
preenchi outra com palavras destinadas
a serem devoradas…

Olhares famintos de coisas interessantes
que me inibo de acreditar ser capaz de arrumar
com os meus dedos hesitantes.
Letras estampadas que me compete juntar
em palavras arrumadas

A estante quase a abarrotar
com o que consigo dar
a viajantes virtuais que procuram os sinais
que vou deixando aqui e além,
pequenos marcadores
com relatos dos meus amores
ou de outra coisa qualquer,
tudo aquilo que puder encaixar
nos espaços vazios
que tento forrar de ideias e emoções,
de pensamentos e sensações
que me definem
aos olhos de quem se serve agora
desta obra sempre inacabada
que anseio ter forças para prolongar.

Esta tentativa vã,
frustrada,
de me conseguir comunicar.
(Shark)

18 Agosto, 2009

313 - A Montanha

Foto:Charquinho

A Montanha

Subi a montanha
Para ver a beleza
Queria falar sozinho
Com a natureza

Olhei para o céu
Mas não vi ninguém
Só vi umas nuvens
Em forma de véu

Ao chegar ao alto
Era muito cedo
Havia uma voz
-Tu não tenhas medo

Chegando ao cimo
Logo me deitei
Tudo era sonho
Logo que acordei

Desconhecia tudo
Não sabia nada…
Queria subir mais alto
Mas não tinha estrada

Olhei para o lado
E vi um caminho
Uma voz me disse
Não subas sozinho

Pensei duas vezes
Não quis arriscar
Do alto do monte
Já só via o mar

Como era tarde
Pensei em descer
O medo era tanto
Que me fez tremer

Assim a tremer
Vi uma escadaria
Desci por ela
Vi o que queria

José Augusto Simões

17 Agosto, 2009

312 - Ruinas

Foto: Shark

O velho palácio

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinhais pregar
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas.

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...
Gomes Leal.

13 Agosto, 2009

311 - Eu

Foto: Shark

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

12 Agosto, 2009

310 - Canção do Mar

Foto: Shark

Canção do Mar

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo
Vem saber se o mar terá razão

Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel

Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo
Vem saber se o mar terá razão

Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel

Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo
Frederico de Brito / Ferrer Trindade

309 - Dia 12 de Agosto - 2 anos de Imagens e poemas

Foto: Shark

Prosseguir

Um a um,
apagaram-se os candeeiros
que iluminam a minha estrada...
um a um...
não ficou nada...
tudo escuro como breu...
tudo da cor apagada
daquilo que nunca foi...
E eu?...
Como vou continuar?...
Tacteando como um cego
ainda a aprender a andar,
como jovem marinheiro
que nunca esteve no mar?...
Onde está minha bengala,
minha ajuda, meu bordão?...
ah!... se alguém me desse a mão!...
Mas não!...
A maior parte da gente
que vai aqui a meu lado,
não consegue, se bem tente,
ajudar um só bocado...
E, um a um,
apagaram-se os candeeiros
que iluminam a minha estrada.....
só resta continuar...
É mais ou menos tropeço...
Para quem tropeçou tanto,
não faz mal mais uma queda...
Já nem dá para ter pranto
que adoce uma vida azeda...
só resta continuar...
Fazendo desta fraqueza
em que mergulho, por vezes,
a penumbra duma noite
que jamais terá aurora...
E, mesmo que não se afoite
a coragem que já tive,
prosseguindo a caminhada,
mesmo com lingua de fora......
sozinho, sim!......
cego, também!......
levando-me a mim
para além do além...
E, se um dia, por azar,
uma luz, um raio só,
por mim vier a chamar,
mesmo que seja por dó,
erguerei minhas espaldas,
limpar-me-ei da poeira,
ajeitarei os remendos
e, de mãos na algibeira,
gritarei, sereno, altivo:
“Prefiro a escuridão!...
Com ela vivo!...
Contigo, luz, não!”....
(magpinto)

10 Agosto, 2009

308 - E de negro se vestiram

Foto: Shark

Litoral

Neste mesmo local,
de olhos postos no mar,
- quantas mulheres de Portugal
se vieram sentar?

Quantas e quantas gerações aqui vieram
até à presente geração,
que lutaram, pescaram e comeram
sardinha com pão

Neste mesmo local,
de olhos cansados do mar,
ai quantas mulheres do litoral
se vieram sentar...

Manhãs de tempestades despertaram,
homens e homens partiram,
mulheres enviuvaram
e de negro se vestiram.

E como prémio tiveram,
tiveram como pensão,
algumas frazes piedosas que lhes deram
e nem sardinha com pão, nem sardinha com pão.
Sidónio Muralha

08 Agosto, 2009

307 - Outra vez o MAR

Foto: Shark

Poema

Na espuma verde do mar
Desenharei o teu nome,
Em cada areia da praia
Em cada pólen da flor
Em cada gota do orvalho
O teu nome deixarei gravado

No protesto calado
De cada homem ultrajado
Em cada insulto
Em cada folha caída
Em cada boca faminta
Hei-de escrever o teu nome

Nos seios férteis das virgens
Nos sorrisos perenes das mães
Nos dedos dos namorados
No embrião da semente
Na luz irreal das estrelas
Nos limites do tempo
Hei-de uma esperança semear
.
António Mendes Cardoso

25 Junho, 2009

306 - Evadir-me

Foto: Charquinho

Evadir-me, esquecer-me

Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

305 - Poema do Pescador

Foto: Charquinho

Quinto poema do pescador

Eu não sei de oração se não perguntas
ou silêncios ou gestos de ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.
Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.
Manuel Alegre

23 Junho, 2009

304 - Como um pássaro sozinho

Foto: Charquinho

Desencanto

É triste o meu canto
E, no entanto, vou cantando
Que o canto me exuga o pranto
Que meus olhos vão chorando

Há quem chore por um Bem
Que a vida lhe recusou,
Mas eu choro pelo Alguém
Que quiz ser e que não sou,

Canto pois, e cantarei,
Que o canto me enxuga o pranto;
- Choro de um desencanto
Que toda a vida chorei

Coimbra Resende