12 Novembro, 2009

329 - Gato Preto

Foto: Shark

Vira

O gato preto cruzou a estrada,
Passou por debaixo da escada
E lá do fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou, a dança, a roda a festa

Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem

Bailam corujas e pirilampos
Entre os jardins e as fadas
E la no fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou a dança, a roda, a festa.

Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem.

João Ricardo

328 - A Cadeira do barbeiro

Foto: Shark

A Cadeira do barbeiro

É na cadeira de barbeiro que a gente sabe o que sabe,
quando se corta a "guedelha", quando o cabelo se abate,
se faz o corte das unhas dos governantes, pois, pois...
E se ensaboa a má língua, depois.
É na cadeira de barbeiro que a gente vai fofocar,
enquanto lustra o sapato e toca, toca a engraxar.
se dá o aparo ao bigode e à vida doutros, também...
Mas nunca se diz mal de ninguém!

É dar e dar à tesoura,e as navalhadas são mil.
É no barbeiro que a conversa é baril.
Ali se sabe sempre e em primeira mão,
o que vem nos jornais, Rádio e Televisão.

É na cadeira do barbeiro que a gente sabe, pois é.
Que a D. Berta e o vizinho, são só amigos... não é?

E que o fulano da esquina, a quem se chama Doutor,
não tem canudo, não tem, não senhor.
É na cadeira do barbeiro que a gente sabe o que sabe,
quando se corta a "guedelha", quando o cabelo se abate.
Se faz o corte das unhas, dos governantes, pois, pois...
E se ensaboa a má língua, depois.
António Sala

09 Novembro, 2009

327 - A Pilita

Foto: Charquinho

A PILITA ALENTEJANA

Rija, enquanto durou.
Agora q'amolengou
e antes q'a morda a cobra,
Vou atá-la c'uma corda
Pra ela nã me fugiri.
Preciso da sacudiri,
Leva tempo pá'cordari
Já nem se sabe esticari.

Más lenta q'um caracoli,
Enrola-se-me no lençoli.
Ninguém a tira dali,
Já só dá em preguiçari.
Nada a faz alevantari
E já nã dá com o monti,
Nem água bebe na fonti.

Que bich'é que lhe mordeu?

Parece defunta, morreu.
Deu-lhe p'ra enjoari,
Nem lh'apetece cheirari.
Jovem, metia inveja.
Com más gás q'uma cerveja,
Sempre pronta p'ra brincari.

Cu diga a minha Maria,
Era de nôte e de dia.
Até as mulheres da vila,
Marcavam lugar na fila,
P'ra eu lha poder mostrari !
Uma moura a trabalhari,
Motivo do mê orgulho.
Fazia cá um barulho !
Entrava pelos quintais,
Inté espantava os animais.
Eram duas, três e quatro,
Da cozinha até ao quarto
E até debaixo da cama.
Esta bicha tinha fama.

Punha tudo em alvoroço,
Desde o mê tempo de moço.
A idade nã perdoa,
Acabô-se a vida boa !

Depois de tanto caçari,
Já merece descansari.
Contava já mê avô:
"Niuma rata lhe escapou !
"É o sangui das gerações.
Mas nada de confusões,

Pois esta estória aqui escrita,
É da minha gata, A Pilita !

(autor desconhecido)

31 Outubro, 2009

326 - Meu País

Foto: Shark

O Meu País

Um país que crianças elimina;
E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita,
por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!
João de Almeida Neto

26 Outubro, 2009

325 - Senhora da Saúde

Foto: Shark
Há festa na Mouraria
Há festa na Mouraria
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.
Até a Rosa Maria,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.

Naquele bairro fadista,
Calaram-se as guitarradas.
Não se canta nesse dia;
Velha tradição bairrista:
Vibram no ar badaladas
Há festa na Mouraria

Colchas ricas nas janelas,
Pétalas soltas no chão,
Almas crentes, povo rude.
Anda a fé pelas vielas,
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde.

Após um curto rumor,
Profundo silêncio pesa,
Por sobre o Largo da Guia.
Passa a Virgem no andor,
Tudo se ajoelha e reza,
Até a Rosa Maria.

Como que petrificada,
Em fervorosa oração,
É tal a sua atitude,
Que a rosa já desfolhada,
Da Rua do Capelão,
Parece que tem virtude.
Gabriel de Oliveira

25 Outubro, 2009

324 - Viagem

Foto: Shark

Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga, in 'Diário XII'

323 - No combóio descendente

Foto: Shark


No Combóio Descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão
Fernando Pessoa

21 Outubro, 2009

322 - Poema repetido...

Foto: Shark

Toada de Portalegre
(Extracto do poema )

Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus ...
E, louvado seja Deus !
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a ceta cansada
Que dava cravos sem vida.
(extrato do poema de José Régio,
publicado com nº. 71 neste blogue)

15 Outubro, 2009

321 - Gente do Povo

Foto: Charquinho

Esta gente

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
e outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
De um tempo justo
sophia de mello breyner andersen

22 Setembro, 2009

320 - Minha Terra tem Palmeiras

Foto: Shark
Canção do exilio

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias
Coimbra, Julho 1843

319 - Reciclar é preciso

Foto: Shark
Rap Ecológico

Devemos cuidar
Do meio ambiente
Afinal de contas
É a casa da gente.
O nosso projeto
É uma beleza
Ensina a gente
A cuidar da natureza
Como é que vamos
Cuidar do meio ambiente?
Do jeito que está
Vai ficar permanente
Olha só meu amigo
Quanta poluição
Vamos já procurar
Uma boa solução
Já conheço uma
Que é bem legal
Reciclar papel
É fundamental
Separar o lixo
Não é nada difícil
Se você pensar
Logo vai notar
Esse é o rap
Do projeto ecologia
Venha conosco
Mergulhar nessa magia
Colaboração de Artur Gehlen Adams quando tinha 9 anos. NH

318 - A minha cidade

Foto: Shark

A minha cidade

A minha cidade não se chama Lisboa,
não tem cheiro a sul
e nem por ela passa o Tejo,
mas como ela, tem Nascentes
leitosos e marmóreos...
Na minha cidade os Poentes são de ouro
sobre o Douro e o mar
e só ela tem a luz do entardecer
a enfeitar o granito...
Na minha cidade, tal como em Lisboa
há gaivotas e maresia
mas não há cacilheiros no rio
há rabelos
transportando nectar e almas...
Da minha cidade nasce o Norte
alcantilado, insubmisso
e o sol, quando chega, penetra-a
delicadamente, carinhosamente,
depois de vencido o nevoeiro...
Na minha cidade também há pregões,
gatos, pombas, castanhas assadas e iscas
e fado pelas vielas, pendurado com molas,
como roupa a secar nos arames...
A minha cidade tem também tardes languescentes,
coretos nas praças
velhos jogando cartas em mesas de jardim
e o revivalismo de viuvas e solteironas
passeando de eléctrico...
É bem verdade que na minha cidade
a luz, não é como a de Lisboa
mas a luz da minha cidade
é um frémito de amor do astro-rei
a beijá-la na fronte, cada manhã!...


Maria Mamede

15 Setembro, 2009

317 - Nuclear

Foto: Shark

Psicologia de Um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Santos)

316 - Rubra, incandescente

Foto: Shark

Vaso Chinês

Estranho mimo, aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura —
Quem o sabe? — de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A genta acaso vendo-a
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
(Alberto Oliveira)

315 - POEMA DA BICICLETA

Foto: Shark

POEMA DA BICICLETA

Era uma vez
Uma bicicleta
Que eu tinha
Que era minha...
Que não tinha rodas
Mas que rodava comigo
Mundo a fora
Afora o horário

E eu nem amava o sonho
Pois não sabia
Aquilo o que era
Só sei que viajava
E achava bonito
Pedalar, sem cessar
Sem cansar

Sem sair do lugar
Ir a todo lugar
Até chegar no fim
(do sonho);
Uma bicicleta nova
Que nunca me levou...
A lugar nenhum
S. Paulo, 24/02/2003
CORDEIRO

314 - Apontamentos

Foto: Shark

Ao correr da pena

Uma prateleira branca
Com palavras cujas lombadas,
ficam tão bem arrumadas…

cada palavra tem uma história
por detrás,
ou mais do que uma,
tanto faz…

Num acto solitário,
que a solidão é um receio primário,
instintivo, na arrumação
temo a cada passo a constatação
de mais um fracasso …

Logo abaixo da primeira
preenchi outra com palavras destinadas
a serem devoradas…

Olhares famintos de coisas interessantes
que me inibo de acreditar ser capaz de arrumar
com os meus dedos hesitantes.
Letras estampadas que me compete juntar
em palavras arrumadas

A estante quase a abarrotar
com o que consigo dar
a viajantes virtuais que procuram os sinais
que vou deixando aqui e além,
pequenos marcadores
com relatos dos meus amores
ou de outra coisa qualquer,
tudo aquilo que puder encaixar
nos espaços vazios
que tento forrar de ideias e emoções,
de pensamentos e sensações
que me definem
aos olhos de quem se serve agora
desta obra sempre inacabada
que anseio ter forças para prolongar.

Esta tentativa vã,
frustrada,
de me conseguir comunicar.
(Shark)

18 Agosto, 2009

313 - A Montanha

Foto:Charquinho

A Montanha

Subi a montanha
Para ver a beleza
Queria falar sozinho
Com a natureza

Olhei para o céu
Mas não vi ninguém
Só vi umas nuvens
Em forma de véu

Ao chegar ao alto
Era muito cedo
Havia uma voz
-Tu não tenhas medo

Chegando ao cimo
Logo me deitei
Tudo era sonho
Logo que acordei

Desconhecia tudo
Não sabia nada…
Queria subir mais alto
Mas não tinha estrada

Olhei para o lado
E vi um caminho
Uma voz me disse
Não subas sozinho

Pensei duas vezes
Não quis arriscar
Do alto do monte
Já só via o mar

Como era tarde
Pensei em descer
O medo era tanto
Que me fez tremer

Assim a tremer
Vi uma escadaria
Desci por ela
Vi o que queria

José Augusto Simões

17 Agosto, 2009

312 - Ruinas

Foto: Shark

O velho palácio

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinhais pregar
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas.

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...
Gomes Leal.

13 Agosto, 2009

311 - Eu

Foto: Shark

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

12 Agosto, 2009

310 - Canção do Mar

Foto: Shark

Canção do Mar

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo
Vem saber se o mar terá razão

Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel

Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo
Vem saber se o mar terá razão

Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel

Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo
Frederico de Brito / Ferrer Trindade

309 - Dia 12 de Agosto - 2 anos de Imagens e poemas

Foto: Shark

Prosseguir

Um a um,
apagaram-se os candeeiros
que iluminam a minha estrada...
um a um...
não ficou nada...
tudo escuro como breu...
tudo da cor apagada
daquilo que nunca foi...
E eu?...
Como vou continuar?...
Tacteando como um cego
ainda a aprender a andar,
como jovem marinheiro
que nunca esteve no mar?...
Onde está minha bengala,
minha ajuda, meu bordão?...
ah!... se alguém me desse a mão!...
Mas não!...
A maior parte da gente
que vai aqui a meu lado,
não consegue, se bem tente,
ajudar um só bocado...
E, um a um,
apagaram-se os candeeiros
que iluminam a minha estrada.....
só resta continuar...
É mais ou menos tropeço...
Para quem tropeçou tanto,
não faz mal mais uma queda...
Já nem dá para ter pranto
que adoce uma vida azeda...
só resta continuar...
Fazendo desta fraqueza
em que mergulho, por vezes,
a penumbra duma noite
que jamais terá aurora...
E, mesmo que não se afoite
a coragem que já tive,
prosseguindo a caminhada,
mesmo com lingua de fora......
sozinho, sim!......
cego, também!......
levando-me a mim
para além do além...
E, se um dia, por azar,
uma luz, um raio só,
por mim vier a chamar,
mesmo que seja por dó,
erguerei minhas espaldas,
limpar-me-ei da poeira,
ajeitarei os remendos
e, de mãos na algibeira,
gritarei, sereno, altivo:
“Prefiro a escuridão!...
Com ela vivo!...
Contigo, luz, não!”....
(magpinto)

10 Agosto, 2009

308 - E de negro se vestiram

Foto: Shark

Litoral

Neste mesmo local,
de olhos postos no mar,
- quantas mulheres de Portugal
se vieram sentar?

Quantas e quantas gerações aqui vieram
até à presente geração,
que lutaram, pescaram e comeram
sardinha com pão

Neste mesmo local,
de olhos cansados do mar,
ai quantas mulheres do litoral
se vieram sentar...

Manhãs de tempestades despertaram,
homens e homens partiram,
mulheres enviuvaram
e de negro se vestiram.

E como prémio tiveram,
tiveram como pensão,
algumas frazes piedosas que lhes deram
e nem sardinha com pão, nem sardinha com pão.
Sidónio Muralha

08 Agosto, 2009

307 - Outra vez o MAR

Foto: Shark

Poema

Na espuma verde do mar
Desenharei o teu nome,
Em cada areia da praia
Em cada pólen da flor
Em cada gota do orvalho
O teu nome deixarei gravado

No protesto calado
De cada homem ultrajado
Em cada insulto
Em cada folha caída
Em cada boca faminta
Hei-de escrever o teu nome

Nos seios férteis das virgens
Nos sorrisos perenes das mães
Nos dedos dos namorados
No embrião da semente
Na luz irreal das estrelas
Nos limites do tempo
Hei-de uma esperança semear
.
António Mendes Cardoso

25 Junho, 2009

306 - Evadir-me

Foto: Charquinho

Evadir-me, esquecer-me

Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

305 - Poema do Pescador

Foto: Charquinho

Quinto poema do pescador

Eu não sei de oração se não perguntas
ou silêncios ou gestos de ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.
Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.
Manuel Alegre

23 Junho, 2009

304 - Como um pássaro sozinho

Foto: Charquinho

Desencanto

É triste o meu canto
E, no entanto, vou cantando
Que o canto me exuga o pranto
Que meus olhos vão chorando

Há quem chore por um Bem
Que a vida lhe recusou,
Mas eu choro pelo Alguém
Que quiz ser e que não sou,

Canto pois, e cantarei,
Que o canto me enxuga o pranto;
- Choro de um desencanto
Que toda a vida chorei

Coimbra Resende

303 - Sr. Lagarto

Foto: Shark

O Lagarto está chorando

O lagarto está chorando
A lagarta está chorando
O lagarto e a lagarta
Com aventaizinhos brancos
Hão perdido sem querer
Seu anel de casamento
Ai! Seu anelzinho de chumbo,
Ai, seu anelzinho chumbado
Um céu grande e sem gente
Monta em seu globo aos pássaros
O sol, capitão redondo
Leva um colete de raso
Olhem que velhos são!
Que velhos são os lagartos!
Ai como choram e choram,
Ai! Ai! Como estão chorando!
Garcia Lorca

22 Junho, 2009

302 - Ainda e outra vez as pessoas

Foto: Shark

PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
É também água, terra, vento, fogo...

E sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão Ferreira

301 - Pessoas

Foto: Shark

LÚBRICA

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;

Como, da Ásia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.

Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;

Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,

Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predileto
No ambiente espalhava pouco antes...

Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

Que há de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;

Quero admirá-la, então, tranqüilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;

Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sózinha na alameda
Camilo Pessanha

300 - Pessoas

Foto: Shark

Poema kitsch

Tu és o meu veneno e o meu vício
uma forma de estar fora de mim
sem ti o que era espera faz-se ofício
a vontade de te ter noite sem fim
esse tu não estares, um breve indício
de flores morrendo no jardim.

Há um sítio em mim por habitar
casa para sempre em construção
há traves altos andaimes pelo ar
estaleiro abandonado junto ao chão
onde antes se julgava que era o mar
não há vagas nem marés nem barcos vão.

Se a hora de chegares fica esquecida
não mais posso esperar tua presença
o que antes era corpo tornou ferida
tudo o mais reduto de indiferença
pois onde agora a sombra estava a vida
onde antes a luz a noite imensa.

Bernardo Pinto de Almeida

20 Junho, 2009

299 - Mar

Foto: Charquinho

MAR

Alto, como perdido,
o sol navega e deixa-se boiar...
A luz não cega
E o mar é só mar.

É água presa que não tem domínio
Ou gigante que morre em convulsões ...
É praia num beijo,
História antiga das embarcações.

É um destino ou gesto de partida,
sem haver esperança de chegar
É talvez uma vida...
- É apenas o Mar.
César Teixeira

298 - O Corvo

Foto: Charquinho

O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
"Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.
" Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais
,O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!
" Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!
" Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Edgar Poen

19 Junho, 2009

297 - Lisboa ... poemas sem fim

Foto: Shark - 30/10/2007

LISBOA

Ó Lisboa de saia arregaçada
A sorrir e a palrar à beira Tejo,
E que o sol, mal desponta a madrugada,
Vem aloirar no cântico de um beijo!

Ó Lisboa! Ó girândola de cores
A estoirarem nas fúlgidas colinas!
Lisboa das fragatas e vapores,
Das nervosas e lépidas varinas!

Minha velha Lisboa das conquistas
- Clarão de fé nas hostes infiéis –
Lisboa maravilha dos artistas,
Berço e sonho de infantes e de reis!

Ó Lisboa a cheirar a maresia
Na gente sã e rija das vielas
- Almas do mar, herdeiras da energia
Que levou mundo além, as caravelas!

Ó Lisboa das marchas e cantares
- Aleluia de coros e balões.
Ó Lisboa dos Santos Populares,
Dos presépios que embalam corações!

Lisboa linda moça sem vaidade
Irmã do Sol, alegre e descuidosa!
Ai! Quem me dera a tua mocidade,
A tua vida simples, cor-de-rosa!...
Coimbra de Resende

05 Junho, 2009

296 - D.José I

Foto: Charquinho

SONETO

América sujeita, Ásia vencida;
África escrava. Europa respeitosa;
Restaurada mais rica, e mais formosa
A fundação de Ulisses destruída

São a base, em que vemos ereguida
A Colossal estatua magestosa
Que D´ELREI á memória glorifica
Consagrou Lusitânia agradecida

Mas como a gloriado Monarca justo
É bem que àquele Herói se comunique,
Que a fama canta, que eterniza o Busto;

Pombal, junto a JOSÉ eterno fique,
Qual o famoso Agripa junto a Augusto,
Como Sully ao pé do grande Henrique.
Ignacio José de Alvarenga

295 - Passeio ao campo

Foto: Charquinho

Maio

Andam caprichos
Da madrugada
Na terra exausta
De mais não ser.

Amores lentos
De caravelas,
Precocidades,
Lúcidos ais.

Redemoinho
Que a noite vence,
Escadaria
De uma ascenção

Foi um dia longo
De corpos e flores.

César Teixeira

04 Junho, 2009

294 - Flamingos no Tejo

Foto: Charquinho
Flamingo

O pescoço dobrou-se sobreo
corpo róseo

uma pata encolhida descansa noutra
transformada em estaca

o flamingo adormece em si o horizonte
como flor espetada no pântano
Júlio Carrilho

293 - Amanhã

Foto: Charqinho

Manhã

Venho das nuvens
E trouxe no meu peito a madrugada

Fonte de sonho na manhã deserta,
Com estrelas pairando sobre o mar.

Acordo neste dia transparente,
Que se dilui nas praias do além,
Onde a brisa dormiu o onde nasce
O crepúsculo vivo entre as marés …

César Teixeira

03 Junho, 2009

292 - Farol

Foto: Charquinho

O Farol

Na amplidão do mar alto entre as vagas se apruma
O vulto do farol como uma sentinela;

Estardalhaça o vento, e a rugir se encapela
A água negra do mar em turbilhões de espuma.

Enche a trágica noite, atroa e se avoluma
Um insano clamor nas asas da procela:
É a morte! E ao temporal que as vagas atropela
Rodopiam as naus na escuridão da bruma.

Mas, súbito um clarão a espessa treva inflama,
Acende o mar bravio, ilumina os escolhos,
E guia o rumo às naus contra os parcéis da morte...

É a vida! É o farol que escancarando os olhos,
Vira e revira em torno as órbitas de chama,
Ora ao Norte, ora ao Sul, ora ao Sul, ora ao Norte...




Victor Silva

02 Junho, 2009

291 - Gaivota

Foto: Shark

Perspectiva

Uma gaivota deslizando ao longo
De um grito de ternura macerada

Surgem magias, rápidos encantos,
Quando a noite se perde na raiz.

Sem que um sorriso volte do passado,
Enegressem as rosas da manhã

No horizonte as nuvens são de prata,
Vislumbres de fantásticos navios.
César Teixeira

290 - Saudade

Foto: Shark
SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

António Patrício

01 Junho, 2009

289 - Entardecer

Foto: Charquinho

Sombras

Nas horas de silêncio, quando a noite
Guardou um sonho que não teve
E nem o mudo som de um leve açoite
Vem da folhagem, onde a brisa esteve.

Eu falo às sombras, embrião do nada,
Através do passado e do futuro,
Até surgir a luz da madrugada
No limite distante em que as procuro.

Falo convosco, Sombras… Pensamento
Que vai perder-se, vago, na distância…
Temos agora o mesmo comprimento
De onda, e sonhamos nesta concordância…

Dizeis segredos que nenhuma voz
Humana deste mundo jamais disse
E ficamos tão lúcido e sós,
Como se a nossa vida se extinguisse.

Nesta paisagem onde existe o sonho
Que vai morrer assim que nasce o dia
Da luz do sol, que vejo mais risonho
Sobre o mar furioso em agonia.


César Teixeira

288 - Bailarinas

Foto: Charquinho

Dança

Rifão da morte, deltas e baladas
Palavras que modelam a cintura.

Para onde vamos se não há moradas ?

Onde nasce o momento que perdura?
Bailarinas de formas compassadas

Viajam sem perderem a ternura
César Teixeira

287 - Outra vez o Mar

Foto: Charquinho
E o Homens não compreendem

Encostei aos meus ouvidos
Dois búzios e, em seu cantar,
Ouvi as notas da mesma
Canção longínqua do mar.

Canção distante que vem
Desde quando o mundo era
Só agua, fogo, atmosfera
E a voz do homem ninguém.

Ora foi essa canção
Que os búzios quando nasceram
Escutaram em silêncio
E nunca mais esqueceram

E, assim, ficaram irmãos,
Irmãos pelo mesmo canto,
Que na areia dão as mãos
E humanamente se entendem…

Entretanto os búzios cantam
E os homens não compreendem
.

Coimbra de Resende

31 Maio, 2009

286 - Luzes da ribalta

Foto: Shark

Aplausos para o Actor

O actor acende a boca.
Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeçade búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila,
o que arde destacadamente na noite, é o actor,
com uma voz pura monotonamente
batida pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira o adjectivo da coisa,
a subtileza da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã
com sua divagação de maçã.
Fabrica peixes
mergulhados na própria labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor
contra a face de Deus.
Ornamenta Deus
com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave
que atravessa a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro.
Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio
que ramificou de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente do Nome.
Nome que se murmura em si,e agita, e enlouquece.
O actor é o grande Nomecheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção da transformação.
Solidifica-se.
Gaseifica-se.
Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas, as ruas - o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça.
Em compacto estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.

Herberto Helder

18 Maio, 2009

285 - Pinguins

Foto: Charquinho

PINGUIM

Bom dia, pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca
Quando você caminha
Parece o Chacrinha
Lelé da caixola
E um velho senhor
Que foi meu professor
No meu tempo de escola
Pingüim, meu amigo
Não zangue comigo
Nem perca a estribeira
Não pergunte por quê
Mas todos põem você
Em cima da geladeira
Vinicius de Morais

16 Maio, 2009

284 - Parabéns

Foto: Charquinho

Dia de anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!
João de Deus

283 - Alentejo ... sempre

Foto: Charquinho

A Alma do Ganhão
Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma do ganhão
Cheia de horizonte, cãntico de fonte
Catedral de trigo, azeite e pão

Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma da cegonha
Que sobe no vento e ouve o lamento
Do homem que ao sul, trabalha e sonha

Alentejo das casas de cal
Alentejo do sobo e do sal
Alentejo poejo, alecrim
Alentejo das terras sem fim

Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma do sobreiro
Estática, selvagem, dona da paisagem
Afrontadando o tempo a corpo inteiro
Rosa Lobato Faria

282 - Sonhos

Foto: Charquinho

Sonho Tropical

Num paraíso onde a sonhar vivi

Não tinha trono, mas eu era rei
Feliz ditoso por viver p'ra ti
Se era na terra, se no céu, não sei

Era uma ilha tropical, daquelas
Onde o amor tem um sabor diferente
Á beira mar, sob um lençol de estrelas
Numa cubata, tu e eu somente

Os dois ao luar num pedacito de tela
E as águas do mar calmas como a noite bela
Perto, os rouxinóis cantavam em serenata
E os teus olhos negros
Eram dois faróis riscando as águas de prata

Mas quando á noite a brisa é calma e quente
Leva o barquito, rumo de aventura
As nossas bocas num delírio ardente
Quase se esmagam, loucas de ternura

Ao acordar, como fiquei tristonho
E acredita, que senti saudade
Daquela ilha tropical de sonho
Que ás vezes sonho na realidade

António Vilar da Costa /
Casimiro Ramos

12 Maio, 2009

281 - Cores da Natureza

Foto: Charquinho

Todas as Cores

Todas cores
que tenho na mente
lembram o verde
vermelho-corante
azul-cintilante
branco que se vê longe
perto de um oxidante
laranja-vibrante.
Preto que te leva dentro
de um vazio
perto do mais longe
que se vê distante
quase no horizonte
de um arco-íris
solto flutuante
que se busca ver
tudo que se esconde.

Paulo Tarso Aquarone

280 - O Gato II

Foto: Charquinho

O Gato

De seu pêlo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite, ao mimá-lo, fui
Por seu aroma embalsamado.

É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?

Se nesse gato que me é caro,
Como por ímãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E ali comigo me deparo,

Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde.
Charles Baudelaire

11 Maio, 2009

279 - O Gato

Foto: Charquinho

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Tu tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
FERNANDO PESSOA

10 Maio, 2009

278 - Mar

Foto: Charquinho

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

30 Abril, 2009

277 - Ao longe

Foto: Charquinho

Visão

Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n'um nimbo pardacento...
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços...

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes...
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Antero de Quental

23 Abril, 2009

276 - Malmequer diz-me a verdade

Foto: Shark

Eu levo a vida cantando

Eu levo a vida cantando
Eu levo a vida a cantar
Quem leva a vida cantando
Não lhe custa trabalhar

Malmequer criado no campo
Delírio da mocidade
Pelas tuas brancas folhas
Malmequer diz-me a verdade

Malmequer diz-me a verdade
E guarda-me o meu segredo
Pelas tuas brancas folhas
Malmequer não tenhas medo

Desfolhando o malmequer
Lembrei-me de ti um dia
Malmequer, bem me quer
Era o que a flor dizia
Do cante Alentejano
autor desconhecido

22 Abril, 2009

275 - Poema de Outono

Foto: Shark

Poema de Outono

O vento soprou
Tão doce e sereno
Tocou-me ao de leve
Girou sentimentos
Dormentes, silentes
Que em voo rasante
Tocaram o chão
O fundo da alma
Fez-se de cor de ouro
Castanho ou laranja
Deu frutos já secos
De um doce amargo
Surgiu o Outono
No meu coração.

18 Abril, 2009

274 - Morangos

Foto: Charquinho

MORANGOS

Nunca houve morangos
como os que tivemos
naquela tarde tórrida
sentados nos degraus
da porta-janela aberta
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em açúcar
olhando um para o outro
sem apressar a festa
para chegar ao fim
os pratos vazios
deitados sobre a pedra juntos
com os dois garfos cruzados
e me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta
deixe-me amá-lo
deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relâmpago de verão
nas colinas de Kilpatrick
deixe a tempestade lavar os pratos.

08 Abril, 2009

273 - Giestas

Foto: Charquinho

Canção com lágrimas

Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

Adriano Correia de Oliveira
A minha Homenagem a Adriano que amanhã 9 de Abril faria 67 anos

07 Abril, 2009

272 - Lodo

Foto: Charquinho

Lamaçal

As minhas botas estão negras
Negras e pesadas desta lama,
Absurda tentação
De chafurdar neste imenso lodo
Onde crianças nuas de barrigas gordas
Me agarram as calças.

Quero apressar o passo
Atrasar-me o espanto,
Espanto de ver nomes
Que o deviam ser
Caminhar curvados,
Braços estendidos
À procura do caminho,
Outros já cansados
Imitam a sombra no chão.

Mais alem
Onde a luz do Sol se reflecte
No sangue negro de um soldado,
Um cão vadio
Leva ao mendigo
O pão seco que ele não vê.

Quero apressar o passo
Mas a lama engrossa mais,
Tanto como o meu espanto,
Porque ao lado
No passeio mais acima
Longe dos ratos que tudo aproveitam
Caminha uma dama de vestes brancas
A que peço ajuda
Mas não vê.

Quero apressar o passo
Mas o frio tolhe-me os músculos,
O frio desta terra
Onde o calor da vida
Há muito se extinguiu.

06 Abril, 2009

271 - Contrastes

Foto: Charquinho

Contrários

Em lágrimas e rios se define
a dialéctica da esperança
nas lágrimas que são o espanto e o frio
nos rios, a torrente que não cansa

De contrários se faz toda a harmonia
e nascem as crisálidas, nas casas,
entre o sonho e o preço da alegria
no desenho do voo antes das asas

Assim meus versos noutros explicados,
contradições, crisálidas, bolor,
me levassem à fonte donde corre ,
a harmonia do canto libertado.
Carlos de Oliveira

270 - Namoro


Foto: Charquinho

Desejo a você…

Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Crônica de Rubem Braga
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Uma tarde amena
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu
Carlos Drumond de Andrade

05 Abril, 2009

269 - A Ponte

Foto: Shark

A PONTE


Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
de pedra e de aço
onde não permaneço
— p a s s o.

Zila Mamede

268 - A POSTA COM SENTIDO

Foto: Charquinho 22/Dez/2005

NADA FICA DE NADA

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

14/02/1933(Odes de Ricardo Reis)

04 Abril, 2009

267 - Os Descobrimentos

Foto: Charquinho
Mensagem

"Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."
Fernando Pessoa

266 - Colóquios dos Simples e Drogas da India

Seguro livro meu, da qui te parte,
Que com huma causa justa me consolo,
De verte oferecer ho inculto colo,
Ao cutello mordás, em toda a parte.
E esta he, que da qui mando examinarte,
Por hum Senhór, que de hum ao outro polo,
Sò nelle tem mostrado ho douto Apollo
Ter competencia igual có duro Marte.
Ali acharás defensa verdadeira
Com força de razoens, ou de Osadia,
Que huma virtude a outra não derrogua.
Mas na sua fronte há Palma, e há Oliveira,
Te dirão que elle só, de igual valia
Fez co sanguineo arnez, ha branca Togua.

Garcia de Orta
O autor falando do seu livro
(português arcaico)

25 Março, 2009

265 - Um outro olhar sobre a cidade - Lisboa

Foto:Charquinho

Tempo dividido
........................................................
Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens
Face erguida
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem
...................................................
…………………………………………………
Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdões os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros
No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

16 Março, 2009

264 - Bailia do Rio Douro

Foto: Shark

BAILIA DO RIO DOURO

Ó rio corre contente
de Castela a Portugal
vem reinar na lusa gente
rumo ao porto em arraial.
Traz à dança da rabela
o rabelo e vai feliz
arrais ao vento e à vela
buscar a arcaica matriz

Baila rio d’ouro
com essa riqueza
que eu guardo o tesouro
de tanta beleza!
Baila assim dourado
num bago de vinho
que eu brindo a teu lado
a um fado marinho!

Aperta no longo abraço
o Portugal maila Espanha
e concerta-os a compasso
no laço que mais convenha.
Vai afogar os desejos
além-ribas sobre o vale
nesse mar enche-o de beijos
de ouro de sol e de sal...

Fernando Pinto Ribeiro In: Colectânea Poética “Correntes… – Louvor aos rios”, lavra…Editorial, 2003

263 - Novo Dia

Foto: Charquinho

AO NOVO DIA

Rebenta dos abismos às montanhas
o sangue que incendeia a madrugada
E um novo dia irrompe das entranhas
da terra finalmente fecundada

Foices malhos enxadas e gadanhas
e punhos semeando-se em rajada
contra lobos ocultos entre as brenhas
alevantam pendões de tudo-ou-nada

Acorda o novo dia. E desta vez
o sol nasce nas mãos do camponês
e põe-se na tigela do operário

Multiplicado o pão por quem o fez
não mais há-de ser hóstia que o burguês
consagre dando a fome por salário

Fernando Pinto Ribeiro

15 Março, 2009

262 - Pedra

Foto: Charquinho

Pedra

Hoje sou pedra
nada me move
me incomoda
ou me comove.
Duro granito
parado algures
ténue limite
entre o horizonte
e o infinito.
Digo: sou pedra
e espero o ventos
obre as arestas
sopro de gelo
um corte lento.
Direi: sou pedra
e sei que minto
um toque leve
mesmo de acaso
tudo desfaz.
Restam partículas
um ser difuso
a visão breve
da dor que sinto.

07 Janeiro, 2009

O Imagens e Poemas recebeu um prémio. Agradeço mas que vai inteirinho para o autor das imagens e para todos os poetas que nele figuram

Utopie calabresi, http://utopiecalabresi.blogspot.com/de Domenico Condito, um blogue que fala de arte, cultura e humanismo, e do qual tive conhecimento há ainda pouco tempo mas que considero do maior interesse e que por tal motivo “quase me obriga” a desenvolver os meus “modestos” conhecimentos da língua dos grandes mestres da cultura da Europa Renascentista, desde os grandes mestres da pintura, Literatura e desse tão incompreendido "Niccolò Machiavelli", homem de grande cultura e cujo livro “O Principe” é um dos meus livros de cabeceira, fez o favor de me presentear com o prémio Dardos.
O “Prémio Dardos” (sic) reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.
”Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:
a) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;
b) Linkar o blog pelo qual recebeu;
c) Exibir a distinta imagem
.
Aqui ficam os meus premiados:
1 – Charquinho -
http://charquinho.weblog.com.pt
2 – Cantigueiro - http://samuel-cantigueiro.blogspot.com
3 – Catrina -
http://bicatrina.blogspot.com
4 - Cantares Alentejanos - http://cantaresalentejanos.com.sapo.pt
5 - O Cheiro da Ilha -
http://ocheirodailha.blogspot.com
6 – Queridas Bibliotecas - http://queridasbibliotecas.blogspot.com
7 - Cântico da Beira -
http://canticosdabeira.blogs.sapo.pt
8 – O Parente do Refóias -
http://refoista.blogspot.com
9 – A Arca Velha - http://arcaz.blogspot.com
10 – Cila - http://escritadacila.blogspot.com
11 – Arvores Monumentais do Algarve e do Baixo Alentejo -
http://arvores-do-sul.blogspot.com
12 – Mar sem sal - http://marsemsal.blogspot.com
13 – O tempo das cerejas - http://tempodascerejas.blogspot.com
14 – Poesia de Vieira Calado -
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
15 – Luar da meia noite -
http://luardameianoite.blogspot.com
Um muito obigado a este amigo novo que é Domenico Condito, a quem envio um grande abraço

18 Dezembro, 2008

261 - Feira de vaidades

Foto: Charquinho

Eu, etiqueta

"Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de baptismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camisola, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu ténis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem — anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registadas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
Da sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
Ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou — vê lá — anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objecto pulsante mas objecto
que se oferece como signo de outros
objectos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome rectifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."



Carlos Drummond de Andrade

260 - Natal

Foto: Charquinho

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira

14 Dezembro, 2008

259 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Charquinho

A Ponte (o rio) Entre as Cidades

Rio de duas cidades
dividido entre tristezas
uma ponte assim as une
não de aço, de pobrezas
Álvaro Pacheco

10 Dezembro, 2008

258 - Mulher com M Grande

Foto: Sharkinho

Avó e Neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!

Olavo Bilac

03 Dezembro, 2008

257 - A rosa do meu jardim

Foto: Sharquinha

Poema da Rosa

Há uma rosa linda
No meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu
Quem cuidará de mim?

De manhã desabrochou
À tarde foi a escolhida
Pra de noite ser levada
De presente à minha amiga

Feliz de quem possui
Uma rosa em seu jardim
Minha amiga com certeza
Pensa agora só em mim.

Quando sopra o vento frio
E o Inverno gela o jardim.
Eu tenho calor em casa
E fico quentinho assim.

Feliz de quem tem um tecto
Para ajudar sua amiga
Fugir do vento ruim
Que deixa gelado o jardim
Berthold Brecht

02 Dezembro, 2008

256 - Golfinhos em terra

Foto: Filha de Tubarão

AMIGO GOLFINHO

Tenho um golfinho amigo,
Ali para as águas do Sado
Ele andava perdido,
E por alguém foi encontrado
Por Bisnau foi baptizado
E muito feliz ficou
Por uns amigos ter encontrado,
Que por eles se apaixonou.

Ele é muito brincalhão,
Porque muitas partidas faz
Vocês acreditem ou não,
Do que este amiguinho é capaz
Então, não é que o Pescador,
Que ia na sua traineira
Naquele mar de primor,
Foi levado para a brincadeira.

Por este golfinho descarado,
Que a traineira fez balançar
Deixando o pescador todo molhado,
Que com ele não se foi zangar.

Ó golfinho brincalhão,
Diz o pescador, ao Bisnau
Ando com as redes neste mar chão,
A ver se apanho o carapau
E tu me deixas todo molhado,
neste mar tão salgado.

O golfinho, para as pazes fazer
Chamou os carapaus com rigor
Para uma bela pesca oferecer,
Ao seu querido amigo pescador.

Lá foram os dois muito contentes
Pelo Sado, devagar
Levando como presente,
Uma pesca de encantar
Bisnau e o Pescador,
Que no Sado muitos os vejam
Não dêem aos golfinhos dor,
que eles a nós nos beijam

30 Novembro, 2008

255 - Amor é Amor

Foto: Filha de Tubarão

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo
Amor é estado de graça.
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionário
se a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade

28 Novembro, 2008

254 - Montanhas e valados

Foto: Charquinho

Bucólica

Montanhas e valados do Senhor
Aonde nascem peregrinas flores
E onde se debuxam várias cores
Num concerto de luz fascinador

Em vós tecem enredos mil amores
Os poetas ingenuos e os pastores
Quem em suas alegrias suas dores
Hão-de sempre a beleza eterna pôr

Almas ingenuas melodioamente
elevam maravilhas amorosas
Nas palavras que formam seus cantares

E todo o poeta que ali esteve sente
Que os cânticos de amor são como rosas
Eternamente perfumando os ares...
Jayme Azancot

253 - Nem Tarde, nem Noite

Foto: Charquinho

Metade

Chega a noite. E o dia não passou
Inda todo p'ra lá, compreendido
Só metade das coisas faz sentido
E o resto é pouco, ou muito, ou não chegou.

O cerebro é pequeno, - ou desmedido,
Porque nada está lá como eu estou,
Há sempre alguma coisa que falhou
E é possivel até eu ter falido

A maior posse não existe.Pois
Não há desejo que não quebre em dois
Meu sonho que morre insatisfeito

E sendo isto uma volta sincopada
Sem mais outra certesa, sem mais nada
Pode-se lá saber o que é perfeito
Luiz Moita

25 Novembro, 2008

252 - Trabalhadores

Foto: Charquinho

Os anõezinhos

Na padaria não faltava o pão,
embora o padeiro fosse um mandrião,
porque o padeiro e o moço ressonavam,
enquanto os anõezinhos trabalhavam:

uns carregavam sacos de farinha,
outros faziam pãozinho na cozinha.

Ricardo Alberty,

251 - Docinho gostooso

Foto: Charquinho

Bombom Bom

No recreio, eu ganhei um bombom.
Seu recheio era de amora.
Tinha um gosto tão bom,
que eu comeria a toda hora.

Seu gosto era delicioso,
parecia um manjar dos deuses.
Era envolvido num papel maravilhoso,
que eu admirei diversas vezes.

— Você me dá um bombom?
Só com um não vou me contentar,
pois o seu gosto é tão bom
e outro eu quero ganhar.

Bombom doce, doce bombom,
adoce a minha vida.
Traga-lhe tudo de bom,
torne-a doce de ser vivida.
Josete Maria Vichineski

250 - Noite de Amor


Noche de amor insomne
Noche arriba
los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las penas mías
momentos y palomas en cadenas.
Noche abajo
los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora
nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol
entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
mi corazón amortajado.
Garcia Lorca

23 Novembro, 2008

249 - Ruinas

Foto: Charquinho

Ruinas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anciã; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sítios caros da infância.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dor oculta aos olhos;
— Dor que à face não vem, — medrosa e casta,
Íntima e funda; — e dos cerrados cílios
Se uma discreta muda
Lágrima cai, não murcha a flor do rosto;
Melancolia tácita e serena,
Que os ecos não acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepúsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu lânguido olhar um raio deixa;
— Raio quebrado e frio; — o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.
Conhecem-te estas pedras; das ruínas
Alma errante pareces condenada
A contemplar teus insepultos ossos.
Conhecem-te estas árvores. E eu mesmo
Sinto não sei que vaga e amortecida
Lembrança de teu rosto.”
de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vésper nos seus ombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas correram. No outro dia,
Quuando as vermelhas rosas do oriente
Ao já próximo sol a estrada ornavam
Das ruínas saíam lentamente
Duas pálidas sombras:

O Poeta da saudade
Machado de Assis, in 'Falenas'

21 Novembro, 2008

248 - Madrugada

Foto: Charquinho

No calor da madrugada

Quando chegar a madrugada
E o meu corpo em ti buscar o amor
Vou desenhar-me na tua pele
E antes que a manhã se revele
Sorverei o teu sabor
Seremos além de amantes
Comandados comandantes
A caça e o caçador

Quando chegar a madrugada
Vou salpicar de estrelas
Teu suor sobre o lençol
E em suave melodia

No encontro da noite com o dia
Serei a lua
E tu, o sol

09 Novembro, 2008

247 - Linguagem poética

Foto: Charquinho

Passa-lhe ao lado a cidade

Passa-lhe ao lado a cidade
no contexto de uma realidade
que é só sua e de mais ninguém.

Não se sente mal
nem se sente bem,
não chora
mas não lhe dá para rir,
também dispensou
esse luxo que é sentir.

Abdicou da emoção
quando se percebeu incapaz
de lidar com as memórias
de tempos atrás.

E aprendeu que no futuro
de pouco lhe iriam valer,
essas lembranças
que fazem doer.

Cansou-se de enfrentar a reacção
desesperada
de cada pessoa amada
que tentava em vão
contrariar-lhe a decadência
e que depois ele sentia
como uma indecência
a sua presença perniciosa
nas vidas que lhe competia partilhar.

Um dia decidiu…

Quanto tempo não sabia,
que lhe restava e o que jazia
na masmorra fechada
num canto da sua mente anestesiada
à prova de emoções,
a alma afogada em alucinações…

Acreditava-se
com as rédeas da sua vida na mão,
independente,
mais livre
enquanto indigente
do que na pele controlada
por um papel a cumprir
numa vida tramada
para todos os que se deixavam arrastar
por uma maleita qualquer
que culmina no ensandecer…

Às vezes apetece-lhe sorrir,
mas descobre que é engano
quando o calor metropolitano
o lembra do frio interior
e é então que desliga o olhar,
pousado sem brilho
num ponto fixo da cidade
que lhe passa ao lado
enquanto rumina
em silêncio
a melhor solução
para a próxima refeição,
desatinado
por já nem conseguir lembrar-se
de como desenrascou a anterior.
"Charquinho"

07 Novembro, 2008

246 - Canção antiga

Foto: Charquinho

O Meu cavalo

Montei meu cavalo
Que é meu companheiro
Em cada jornada
Que tinha galgado

em passa ligeiro
dez léguas de estrada.

Mas vamos ao resto
que às vezes casos
que dá alegria contá-los
passou por nós lesto
um grande automóvel
de trinta cavalos.

E o meu cavalinho
um pouco espantado
parou um instante
sem ver os cavalos
que iriam puxando
um carro tão lindo.

Mas ai numa curva
de estrada comprida
ao pé dum silvado
aquele automóvel
de tanta corrida
ficou empanado

E o meu cavalinho
pinchava imponente
de cauda aos estalos
a rir-se contente
daquele automóvel
de trinta cavalos!

06 Novembro, 2008

245 - Pública ou Privada ?

Foto: Charquinho - julho 13, 2005

A Coisa Pública e a Privada

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.
Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?
O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?
— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.

Affonso Romano de Sant'Anna

244 - Mudanças...

Foto: Charquinho

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertold Brecht

243 - Curvas e contracurvas

Foto: Charquinho
Pinta-me a curva

Pinta-me a curva destes céus ... Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.

Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza túrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.

Pinta; mas vê de que maneira pintas ...
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:

— Tristeza sir-gular, estranha mágoa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos dágua ...
Olavo Bilac

05 Novembro, 2008

242 - A Ponte (amor de betão)

Foto: Shark

Talvez sonhasse, quando a vi

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a...Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando ...
Olavo Bilac

241 - Motociclista

Foto: Charquinho

MOTOCANDO
Loucura ou aventura,
pense lá o que quizer ...
Vão pela estrada, de moto,
o marido e a mulher.

Sensação de liberdade,
os pensamentos voando...
Fazem curvas, cortam retas,
seus destinos vão buscando.

À frente, se descortinam
céu e terra aos olhos seus,
mostrando toda beleza
da imensa obra de Deus.

A natureza desnuda:
campos, vales, serras, matas.
E o sol, dourando a folhagem,
dá luz e vida á paisagem.

O sol também nos aquece
do forte vento que vem
e esse contato mono
e de frescor nos faz bem.

E lá vão os dois rodando,
pensativos e silenciosos,
querendo reter na vida
momentos tão preciosos.

Tudo passa.... a paisagem
Que encantou e fica para trás.
Assim a vida é viagem:
o que foi não volta mais.
Maria Célia Cavalcanti Gonçalves

240 - Torre sineira

Foto: Charquinho

O Sino da minha Aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

239 - Viagens

Foto: Charquinho

Carne dos meus pensamentos

Não conhecer teu corpo
mas sabê-lo possível
passível a viagens
que não as minhas.
Como te dizer por exemplo:
Vem amiga; dar-te-ei a tua ceia
e a comida que acaso desejares
e algum poema que ilumine os ares...
se me olhas
simplesmente desinteressada
e num gesto muito teu
tiras da sacola Peg Pag
uma maçã dourada
que mordes
de estalo
e que deixa
entre os lábios e os dentes
um espaço de desejo
preenchido vorazmente
pela fruta
não pelo meu beijo?
Neide Archanjo

238 - Máquina do Tempo

Foto: Charquinho

Máquina do Tempo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
António Gedeão

18 Outubro, 2008

237 - O Morto

Foto: Charquinho

O Morto

Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!
Mario Quintana

12 Outubro, 2008

236 - As Armas e os Barões asinalados

Foto: Charquinho
Os Lusíadas
Canto I
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana
E em perigos e gurras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Canto VI
28/29
Que descuido foi este em que viveis?
Quem pode ser que tanto vos abrande
Os peitos, com razão endurecidos
Contra os humanos, fracos e atrevidos?
...............................................................
Vistes e ainda vemos cada dia
Soberbas e insolências tais, que temo
Que do Mar e do Céu, em poucos anos
Venham deuses a ser, e nós humanos.

Canto IV
104
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!
(Luiz Vaz de Camões)

07 Outubro, 2008

235 - Nuvens de Outono

Foto: Charquinho

Outono

Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome,
somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente
e tão avara
de alegria.
Eugénio de Andrade

22 Setembro, 2008

234 - Mosca Morta

Foto: Charquinho

Poema para uma mosca morta

Vendo a mosca morta assim
Estatelada
Morta mesmo
Sobre a fórmica branca
Limpinha
Patas pra cima
Olhos estáticos
Asinhas coladas ao chão
Pobrezinha
Me vem até certa comoção

Mas isso vendo-lhe assim,
Tão pequenina
Mas imaculada
Sem destroço
Nem nada
As duas asinhas meio tortas
Mas ainda coladas ao corpo
Caso contrário,
Sentiria só nojo

Percebo, assim
Que a cota
Do que me toca
É como você,
Pequenina

Morta assim
Inteirinha
Sem asa pra um lado
Nem sangue espalhado
Consegues pousar leve
Sobre a minha consciência
E se instalar
Nessa superfície branca
E insípida

Constato
Não sem horror,
Mas com certa alegria,
Que o meu estômago
E simpatia
Só respondem a uma certa quantia
De carne e de
Ou parentesco
Na escala evolutiva

Um bom exemplo,
A foto do elefante morto
Congelado, nas geleiras do Himalaia
Mesmo encontrado inteiro
Imaculado
Faltando na verdade somente a ponta do rabo
Isso sim
Me ojeriza
E tomba
Sobre a minha espinha

19 Setembro, 2008

233 - Aos Bombeiros

Foto: Charquinho

BOMBEIROS

Altas horas da madrugada
A sirene faz-se ouvir
Ela grita alarmada
Para o bombeiro acudir
Para o quartel se apressa
Sem saber o seu destino
De momento, nada lhe interessa
O fogo é o seu caminho
Chegado ao incêndio
O reconhecimento ele faz
Mandando avançar
Os meios que acha eficaz
Sozinho no denso arvoredo
Por entre o fumo e as chamas
Ele sente medo de não voltar
Para junto daqueles que ama
O fogo com a sua astúcia
Vai cercando o bombeiro
Que dentro de uma angústia
Quer fugir daquele braseiro
Sentindo a morte a aproximar
Ele pensa na sua família
Que jamais poderá amar
A partir daquele dia
Assim morreu o bombeiro
Na sua abnegação
Valente e altaneiro
Soube cumprir a sua missão
Desse homem valente
Apenas ficou a recordação
Mas só sua família sente
Grande mágoa no coração

Tu és bombeiro altaneiro
Homem de fé e valor
Não o és por dinheiro
Mas apenas por amor

232 - Quase com vida

Foto: Charquinho

Pedra Lioz

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Catanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.
Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca…truca…
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.
Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.
No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaro celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgaseados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.
Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca…truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.
No desmedido caixão,
grande sonhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

(António Gedeão)

231 - Arco-da-Velha

Foto: Charquinho

Arco-Iris

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Olegário Maria
(Poeta Brazileiro)

03 Setembro, 2008

230 - Poemas à Lua

Fotos: Charquinho

Ó Lua que vas tã alta,
redonda como o...
esses tés olhos menina

parecem rodas de um carro

Ó lua que vas tã alta
Redonda como um tamanco
Ó Maria traz cá as escadas
Q’eu nã lhe chego cum banco


Além naquele monti
Mandê fazer um castelo
P´ra depois dezer à Lua
Eu daqui te comtempélo


Do floclore português

01 Setembro, 2008

229 - O Tejo, sempre

Foto: Charquinho

"Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos"

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que
Fernando Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

Adolfo Casais Monteiro

27 Agosto, 2008

228 - Estrada

Foto: Charquinho

Estrada

Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
(Manuel da Fonseca)

227 - Sem segredos

Foto: Charquinho

O Segredo do Mar

A “Flor do Mar” avançando
Navegava, navegava,
Lá para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era tão grande, tão grande
Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora estão
Do que procurando vão!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
- Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.

Afonso Lopes Vieira, Obra Poética (séc. XX)

26 Agosto, 2008

226 - Meu Alentejo querido

Foto: Charquinho

Meu Alentejo fadista

Meu Alentejo fadista
De beleza inquietante
Para quem te sabe ver...
O teu perfil intimista
Tem a côr insinuante
Da mais bonita mulher

O teu sol acolhedor
Estrela de luz e côr
Tem sempre um calor real
E quando a noite acontece
O teu luar nos parece
Um poema natural

Meu Alentejo, meu berço
Eu apenas me conheço
Quando te canto num fado...
Ao compasso da saudade
Eu quero que a tua idade
Seja um poema encantado.


(José Fernandes Castro)

225 - O Parque Infantil

Foto: Charquinho

Memória da infância

É a memória a saborear o tempo
como se eu estivesse instalado num baloiço
e sentisse o chão da minha infância deslizar pelo corpo
a imagem que eu tenho para o tempo
é uma repetição do meu pensamento
um movimento de palavras que em nada se fixa
um regresso sempre a um ponto fixo
o nó para além das pontas que o realizam

se quero falar do tempo
tenho esta imagem do baloiço a partir da minha memória
consciência condenada a uma realização temporal

e o que eu compreendo é um rasto de viagem primitiva
o corpo que filma o próprio movimento esbate-se contra o solo
o baloiço é o desenho da minha existência.

25 Agosto, 2008

224 - Bolas de sabão

Foto: Charquinho

As Bolas de Sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.

São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
(Alberto Caeiro)

223 - Arte Portuguesa: Azulejos

Foto: Charquinho

Azulejo

Azulejos da cidade
numa parede ou num banco,
são ladrilhos da saudade
vestida de azul e branco
Bocados da minha vida
todos vidrados de mágoa,
azulejos, despedida
dos meus olhos, rasos de água.
À flor dum azulejo, uma menina;
do outro, um cão que ladra e um pastor.
Ai, moldura pequenina,
que és a banda desenhada
nas paredes do amor.
Azulejos desbotados
por quanto viram chorar.
Azulejos tão consados
por quantos viram passar.
Podem dizer-vos que não,
podem querer-vos maltratar:
de dentro do coração
ninguém vos pode arrancar.
À flor dum azulejo, um passarinho,
um cravo e um cavalo de brincar;
um coração com um espinho,
uma flor de azevinho
e uma cor azul luar.
À flor do azulejo, a cor do Tejo
e um barco antigo, ainda por largar.
Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.
(Ary dos Santos)

22 Agosto, 2008

222 - Rosas

Foto: Charquinho

As rosas

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas e eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos
(Ricardo Reis)

221 - A cor das borboletas

Foto: Sharkinho

Passa uma borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
(Alberto Caeiro)

220 - Regressar ao Paraíso

Foto: Sharkinho

Ser La Serpiente

Si pudiera regresar al Edén
A pesar de los ángeles y sus espadas de fuego
Y se me diera a escoger qué personaje encarnar en la tragedia,
Quisiera ser la serpiente.
Conocedora de los secretos de la fruta prohibida,

Lasciva en su mansa postura de espectadora del pecado,
Prefiero ser la serpiente,
Que amó a Eva en su prístina belleza,
A Adán en su tonta inocencia
Y probó a Aquel que no nos atrevemos a nombrar,
Que todos somos falibles,
Cuando hizo al hombre poseer el objeto de su deseo
Fundido a la medida de sus más umbrosas fantasías.
Quiero, sí, ser la sabia serpiente,

Porque sin ella no habría historia que contar,
Más allá de un jardín abúlico,
Semejante a una pecera de peces aburridos.
Sería, definitivamente, ese monstruo antiguo,
Retador del Divino Alquimista,
Que vio partir, cabizbajos, a los amantes,
Y a Dios marchar a su exilio, allá arriba,
Tratando de olvidar los labios de su Eva.
Porque, no sé si lo recuerdan- a
veces estos detalles pasan inadvertidos -:
Ella quedó, sonriente,
Viéndolos retirarse de la escena,
Eternamente invasora,
Propietaria definitiva,
Del Jardín que todos añoramos.
Marié Rojas Tamay

20 Agosto, 2008

219 - Lisboa de madrugada

Foto: Sharkinho


Madrugada em Alfama



Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a madrugada,
mas ela, de tão estouvada
nem sabe como se chama.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama
e que o sol primeiro inflama
quando acorda à madrugada.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama.
Nem mesmo na Madragoa
ninguém compete com ela,
que do alto da janela
tão cedo beija Lisboa.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa:
Madragoa não perdoa
que madruguem mais do que ela.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa.
Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a madrugada;
são mastros de luz doirada
os ferros da sua cama.
E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa,
é como a estátua de proa
que anuncia a caravela,
a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.

David Mourão-Ferreira

218 - O sorriso das crianças

Foto: Charquinho

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosada minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda

217 - Para além de tudo

Foto: Shark

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos! vamos conjugar o verbo fundamental
essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.
Carlos Drummond de Andrade

216 - Rio Sado

Foto: Sharkinho

O rio

Seja o tempo qual for,
é sempre novo,
nas margens livres
e entre os duros cais.
Na mata ou avançando pelas ruas,
tem boiantes pudores fluviais.
Nada mais de uma vez ele reflete,
deixando a coisa refletida atrás.
Tange a si mesmo o rio, pois de suas
águas nenhuma gota se repete.
Mauro Mota

215 - Companheiro Gato

Foto:Sharkinho

Companheiro

Quero deixar-me longe.
Separar-mede mim.
Abandonar-me.
Ser-me estranho.
Parto, mas, onde chego,
me reencontro.
Despeço-me de novo
e me acompanho.
(Mauro Mota)

214 - Aquela casa

Foto: Sharkinho

A casa

Debruço-me de fora
onde havia a janela.
Nuvem ou casa extinta?
Lá estou como eu era.
Que pássaro imigrante
Pousa na cumeeira?
Que neblina umedece
as paredes aéreas?
Quem me chama ou me leva
quando o espaço transponho?
Só verde das heras
sobre as vozes e o sonho.
Mauro Mota

213 - Sapatos velhos

Foto: Sharkinho

Os Sapatos

Nos cemitérios urbanos
vamos sepultando os passos,
passos jamais repetidos,
uns certos, outros em falso,
(todos diminuem a viagem,
que os roteiros diferentes
vão dar na mesma estalagem.)
Ó sapatos soluçantes
molhados (da água da chuva?)
dançamos no tempo gasto
a valsa lenta de abril,
defronte, as sandálias brancas,
mais brancas e imóveis hoje.
Recordo as noites distantes
quando pisáveis no oitão,
leve, leve, parecia
que nem tocáveis no chão,
vinha a moça de cabelos
soltos e abria o portão,
Dos longos caminhos dantes
só ficaram sete palmos.
Serei o moço calçado,
De olhos abertos, confiantes,
Em novos itinerários
Dos sapatos soluçantes.

(Mauro Mota)

212 - Mulher

Foto: Sharkinho

Canção de Mulher e Tempo

Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia
:sobejos de canto e falas
e o cheiro na ventania.
No verde morno do Janga
os rastros de espuma fria.
Bolem no azulejo as sombras
enxutas das mãos na pia.
(Jeito de corpo estremece
no lençol que te cobria.)
Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia.
Só não te acho a ti mesma
no mistério da agonia:
Sumidas cores e carnes
(camuflada autofagia).


Mauro Mota

19 Agosto, 2008

211 - Depois da ceifa

Foto: Charquinho

Restolho

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
....................................................................
Mafalda Veiga

210 - Margem esquerda

Foto: Charquinho

Margem Sul

Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Ó margem esquerda do Verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Urbano Tavares Rodrigues

209 - Como pássaros sobre o rio

Foto:Sharkinho

É estranho

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
Henriqueta Lisboa

208 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Sharkinho

Lisboa

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa

207 - Entre o Tejo e Odiana

Foto: Charquinho

Écloga de Jano e Franco

Dizem que havia um pastor
entre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per ua moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor, do Alentejo
era, e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
d’água e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano , para salvar
o gado que lhe ficou,
foi a esta terra buscar;
e um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou
com o seu gado e com o seu fato,
com tudo se agasalhou
em ua bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, a ribeira,
Joana acertou de ir ver,
que andava pela beirado
Tejo a flores colher.

Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava;
fermosa bem parecia
aos olhos de quem a olhava.
Jano , em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado;
Joana flores colhia
Jano colhia cuidado
Bernardim Ribeiro

18 Agosto, 2008

206 - O Mar

Foto:Sharkinho

A Ver o Mar

Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que os meus olhos se viram no seu olhar
Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar
Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar
Daria prá pintar todo azul do céu
Dava prá encher o universo da vida que eu quis prá mim
Tu...do que eu fiz foi me confessar
Escravo do teu amor, livre para amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar
Foi assim, como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Onda azul, todo azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Foi quando eu mergulhei no azul do mar
.......................................................................
Flávio Venturini e Ronaldo Bastos

205 - Pele Vermelha

Foto: Sharkinho

Ser Índio

É ter no sangue o amor
À sua raça
É não esconder a própria
Identidade
É ter um pedaço de terra
É pertencer a uma massa.
É não padecer na desgraça
É então sobreviver
É devolver ao seu povo a
Paz e a justiça, em meio às ameaças.
Ser índio
É preservar a natureza
Sem explorar a mãe-terra
É tentar conservar
Toda essa beleza!
Renilde Cavalcante Alves

204 - Azul sem fim

Foto : Sharkinho

Poema azul

O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia
Os cabelos do meu bem.
Que olhar o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra ao céu e à lua cheia
Um beijo meu.
- O mar sonoro, o mar sem fundo, o mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo, intimamente, a tua voz
segue o mais secreto bailar do meu sonho, que momentos há em
que eu suponho seres um milagre criado só pra mim.
Sérgio Ricardo

203 - Cacho de Uvas

Foto: Sharkinho


Sabedoria



Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!


Faze da tua realidade
uma obra de beleza


Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Ronald de Carvalho

202 - Na estrada

Foto: Sharkinho


Sou Camionista


Tenho muitos galhardetes, bonecos e bandeirinhas
Tenho muitos calendários com vaidades de maminhas
Tenho muitos amoletos p'ra que a estrada me ilumine
Tenho sonho, tenho cama, a minha casa é a cabine.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…


Tenho vinte e quatro rodas e cavalos p'ra puxar
Tenho um rolo de papel p'ra quando me quero assuar
Tenho duas tatuagens, muitas curvas por fazer
Uma diz amor de mãe, a outra diz talvez.


Tenho sono, tenho fome, mas nunca quero parar
Só não sei por que encosto quando vejo um polegar
Tenho braços bué da fortes que é p'ra agarrar no volante
Mas sinto logo uma fraqueza quando ligas o cantante.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…

Música ligeira portuguesa – Autor desconhecido

201 - Poema de Agostinho Neto

Foto: Sharkinho

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo
Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)


(Agostinho Neto)

200 - Pinba pumba, laranja, limão....

Foto: Shark inho
SALTO À CORDA

O cordão que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma
que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.
Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de pinhas
toque de campainhas?)
(Pedro Tamem, "Poemas a Isto")

16 Agosto, 2008

199 - A Flor do Aloendro

Foto: Charquinho

Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa,
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
Para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

Joaquim Pessoa

26 Julho, 2008

198 - Pastor do Alentejo

Foto: Shark

Pastor

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado

De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor
(Do folclore Alentejano)

24 Julho, 2008

197 - Rosas macias como malvas

Foto: Shark

Rosas

Rosas cujo perfume, em noites enluaradas,
é um sortilégio etéreo a transpor as rechãs;

rosas que á noite sois risonhas, flóreas fadas,
de cútis de veludo e tenras carnes sãs.

Sejais da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmãs,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretização dos risos das Manhãs!

Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
há nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêssego em sazão.

Daí que eu possa gozar, ao vosso colo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emoliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!
Gilka da Costa de Melo Machado
(Rio de Janeiro 1893 - 1980).