23 junho, 2009

304 - Como um pássaro sozinho

Foto: Charquinho

Desencanto

É triste o meu canto
E, no entanto, vou cantando
Que o canto me exuga o pranto
Que meus olhos vão chorando

Há quem chore por um Bem
Que a vida lhe recusou,
Mas eu choro pelo Alguém
Que quiz ser e que não sou,

Canto pois, e cantarei,
Que o canto me enxuga o pranto;
- Choro de um desencanto
Que toda a vida chorei

Coimbra Resende

303 - Sr. Lagarto

Foto: Shark

O Lagarto está chorando

O lagarto está chorando
A lagarta está chorando
O lagarto e a lagarta
Com aventaizinhos brancos
Hão perdido sem querer
Seu anel de casamento
Ai! Seu anelzinho de chumbo,
Ai, seu anelzinho chumbado
Um céu grande e sem gente
Monta em seu globo aos pássaros
O sol, capitão redondo
Leva um colete de raso
Olhem que velhos são!
Que velhos são os lagartos!
Ai como choram e choram,
Ai! Ai! Como estão chorando!
Garcia Lorca

22 junho, 2009

302 - Ainda e outra vez as pessoas

Foto: Shark

PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
É também água, terra, vento, fogo...

E sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão Ferreira

301 - Pessoas

Foto: Shark

LÚBRICA

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;

Como, da Ásia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.

Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;

Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,

Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predileto
No ambiente espalhava pouco antes...

Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

Que há de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;

Quero admirá-la, então, tranqüilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;

Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sózinha na alameda
Camilo Pessanha

300 - Pessoas

Foto: Shark

Poema kitsch

Tu és o meu veneno e o meu vício
uma forma de estar fora de mim
sem ti o que era espera faz-se ofício
a vontade de te ter noite sem fim
esse tu não estares, um breve indício
de flores morrendo no jardim.

Há um sítio em mim por habitar
casa para sempre em construção
há traves altos andaimes pelo ar
estaleiro abandonado junto ao chão
onde antes se julgava que era o mar
não há vagas nem marés nem barcos vão.

Se a hora de chegares fica esquecida
não mais posso esperar tua presença
o que antes era corpo tornou ferida
tudo o mais reduto de indiferença
pois onde agora a sombra estava a vida
onde antes a luz a noite imensa.

Bernardo Pinto de Almeida

20 junho, 2009

299 - Mar

Foto: Charquinho

MAR

Alto, como perdido,
o sol navega e deixa-se boiar...
A luz não cega
E o mar é só mar.

É água presa que não tem domínio
Ou gigante que morre em convulsões ...
É praia num beijo,
História antiga das embarcações.

É um destino ou gesto de partida,
sem haver esperança de chegar
É talvez uma vida...
- É apenas o Mar.
César Teixeira

298 - O Corvo

Foto: Charquinho

O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
"Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.
" Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais
,O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!
" Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!
" Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Edgar Poen

19 junho, 2009

297 - Lisboa ... poemas sem fim

Foto: Shark - 30/10/2007

LISBOA

Ó Lisboa de saia arregaçada
A sorrir e a palrar à beira Tejo,
E que o sol, mal desponta a madrugada,
Vem aloirar no cântico de um beijo!

Ó Lisboa! Ó girândola de cores
A estoirarem nas fúlgidas colinas!
Lisboa das fragatas e vapores,
Das nervosas e lépidas varinas!

Minha velha Lisboa das conquistas
- Clarão de fé nas hostes infiéis –
Lisboa maravilha dos artistas,
Berço e sonho de infantes e de reis!

Ó Lisboa a cheirar a maresia
Na gente sã e rija das vielas
- Almas do mar, herdeiras da energia
Que levou mundo além, as caravelas!

Ó Lisboa das marchas e cantares
- Aleluia de coros e balões.
Ó Lisboa dos Santos Populares,
Dos presépios que embalam corações!

Lisboa linda moça sem vaidade
Irmã do Sol, alegre e descuidosa!
Ai! Quem me dera a tua mocidade,
A tua vida simples, cor-de-rosa!...
Coimbra de Resende

05 junho, 2009

296 - D.José I

Foto: Charquinho

SONETO

América sujeita, Ásia vencida;
África escrava. Europa respeitosa;
Restaurada mais rica, e mais formosa
A fundação de Ulisses destruída

São a base, em que vemos ereguida
A Colossal estatua magestosa
Que D´ELREI á memória glorifica
Consagrou Lusitânia agradecida

Mas como a gloriado Monarca justo
É bem que àquele Herói se comunique,
Que a fama canta, que eterniza o Busto;

Pombal, junto a JOSÉ eterno fique,
Qual o famoso Agripa junto a Augusto,
Como Sully ao pé do grande Henrique.
Ignacio José de Alvarenga

295 - Passeio ao campo

Foto: Charquinho

Maio

Andam caprichos
Da madrugada
Na terra exausta
De mais não ser.

Amores lentos
De caravelas,
Precocidades,
Lúcidos ais.

Redemoinho
Que a noite vence,
Escadaria
De uma ascenção

Foi um dia longo
De corpos e flores.

César Teixeira

04 junho, 2009

294 - Flamingos no Tejo

Foto: Charquinho
Flamingo

O pescoço dobrou-se sobreo
corpo róseo

uma pata encolhida descansa noutra
transformada em estaca

o flamingo adormece em si o horizonte
como flor espetada no pântano
Júlio Carrilho

293 - Amanhã

Foto: Charqinho

Manhã

Venho das nuvens
E trouxe no meu peito a madrugada

Fonte de sonho na manhã deserta,
Com estrelas pairando sobre o mar.

Acordo neste dia transparente,
Que se dilui nas praias do além,
Onde a brisa dormiu o onde nasce
O crepúsculo vivo entre as marés …

César Teixeira

03 junho, 2009

292 - Farol

Foto: Charquinho

O Farol

Na amplidão do mar alto entre as vagas se apruma
O vulto do farol como uma sentinela;

Estardalhaça o vento, e a rugir se encapela
A água negra do mar em turbilhões de espuma.

Enche a trágica noite, atroa e se avoluma
Um insano clamor nas asas da procela:
É a morte! E ao temporal que as vagas atropela
Rodopiam as naus na escuridão da bruma.

Mas, súbito um clarão a espessa treva inflama,
Acende o mar bravio, ilumina os escolhos,
E guia o rumo às naus contra os parcéis da morte...

É a vida! É o farol que escancarando os olhos,
Vira e revira em torno as órbitas de chama,
Ora ao Norte, ora ao Sul, ora ao Sul, ora ao Norte...




Victor Silva

02 junho, 2009

291 - Gaivota

Foto: Shark

Perspectiva

Uma gaivota deslizando ao longo
De um grito de ternura macerada

Surgem magias, rápidos encantos,
Quando a noite se perde na raiz.

Sem que um sorriso volte do passado,
Enegressem as rosas da manhã

No horizonte as nuvens são de prata,
Vislumbres de fantásticos navios.
César Teixeira

290 - Saudade



































Foto: Shark

SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

António Patrício

01 junho, 2009

289 - Entardecer

Foto: Charquinho

Sombras

Nas horas de silêncio, quando a noite
Guardou um sonho que não teve
E nem o mudo som de um leve açoite
Vem da folhagem, onde a brisa esteve.

Eu falo às sombras, embrião do nada,
Através do passado e do futuro,
Até surgir a luz da madrugada
No limite distante em que as procuro.

Falo convosco, Sombras… Pensamento
Que vai perder-se, vago, na distância…
Temos agora o mesmo comprimento
De onda, e sonhamos nesta concordância…

Dizeis segredos que nenhuma voz
Humana deste mundo jamais disse
E ficamos tão lúcido e sós,
Como se a nossa vida se extinguisse.

Nesta paisagem onde existe o sonho
Que vai morrer assim que nasce o dia
Da luz do sol, que vejo mais risonho
Sobre o mar furioso em agonia.


César Teixeira

288 - Bailarinas

Foto: Charquinho

Dança

Rifão da morte, deltas e baladas
Palavras que modelam a cintura.

Para onde vamos se não há moradas ?

Onde nasce o momento que perdura?
Bailarinas de formas compassadas

Viajam sem perderem a ternura
César Teixeira

287 - Outra vez o Mar

Foto: Charquinho
E o Homens não compreendem

Encostei aos meus ouvidos
Dois búzios e, em seu cantar,
Ouvi as notas da mesma
Canção longínqua do mar.

Canção distante que vem
Desde quando o mundo era
Só agua, fogo, atmosfera
E a voz do homem ninguém.

Ora foi essa canção
Que os búzios quando nasceram
Escutaram em silêncio
E nunca mais esqueceram

E, assim, ficaram irmãos,
Irmãos pelo mesmo canto,
Que na areia dão as mãos
E humanamente se entendem…

Entretanto os búzios cantam
E os homens não compreendem
.

Coimbra de Resende

31 maio, 2009

286 - Luzes da ribalta

Foto: Shark

Aplausos para o Actor

O actor acende a boca.
Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeçade búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila,
o que arde destacadamente na noite, é o actor,
com uma voz pura monotonamente
batida pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira o adjectivo da coisa,
a subtileza da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã
com sua divagação de maçã.
Fabrica peixes
mergulhados na própria labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor
contra a face de Deus.
Ornamenta Deus
com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave
que atravessa a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro.
Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio
que ramificou de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente do Nome.
Nome que se murmura em si,e agita, e enlouquece.
O actor é o grande Nomecheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção da transformação.
Solidifica-se.
Gaseifica-se.
Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas, as ruas - o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça.
Em compacto estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.

Herberto Helder

18 maio, 2009

285 - Pinguins

Foto: Charquinho

PINGUIM

Bom dia, pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca
Quando você caminha
Parece o Chacrinha
Lelé da caixola
E um velho senhor
Que foi meu professor
No meu tempo de escola
Pingüim, meu amigo
Não zangue comigo
Nem perca a estribeira
Não pergunte por quê
Mas todos põem você
Em cima da geladeira
Vinicius de Morais

16 maio, 2009

284 - Parabéns

Foto: Charquinho

Dia de anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!
João de Deus

283 - Alentejo ... sempre

Foto: Charquinho

A Alma do Ganhão

Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma do ganhão
Cheia de horizonte, cãntico de fonte
Catedral de trigo, azeite e pão

Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma da cegonha
Que sobe no vento e ouve o lamento
Do homem que ao sul, trabalha e sonha

Alentejo das casas de cal
Alentejo do sobo e do sal
Alentejo poejo, alecrim
Alentejo das terras sem fim

Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma do sobreiro
Estática, selvagem, dona da paisagem
Afrontadando o tempo a corpo inteiro
Rosa Lobato Faria

282 - Sonhos

Foto: Charquinho

Sonho Tropical
Num paraíso onde a sonhar vivi

Não tinha trono, mas eu era rei
Feliz ditoso por viver p'ra ti
Se era na terra, se no céu, não sei

Era uma ilha tropical, daquelas
Onde o amor tem um sabor diferente
Á beira mar, sob um lençol de estrelas
Numa cubata, tu e eu somente

Os dois ao luar num pedacito de tela
E as águas do mar calmas como a noite bela
Perto, os rouxinóis cantavam em serenata
E os teus olhos negros
Eram dois faróis riscando as águas de prata

Mas quando á noite a brisa é calma e quente
Leva o barquito, rumo de aventura
As nossas bocas num delírio ardente
Quase se esmagam, loucas de ternura

Ao acordar, como fiquei tristonho
E acredita, que senti saudade
Daquela ilha tropical de sonho
Que ás vezes sonho na realidade

António Vilar da Costa /
Casimiro Ramos

12 maio, 2009

281 - Cores da Natureza

Foto: Charquinho


Todas as Cores

Todas cores
que tenho na mente
lembram o verde
vermelho-corante
azul-cintilante
branco que se vê longe
perto de um oxidante
laranja-vibrante.
Preto que te leva dentro
de um vazio
perto do mais longe
que se vê distante
quase no horizonte
de um arco-íris
solto flutuante
que se busca ver
tudo que se esconde.
Paulo Tarso Aquarone

280 - O Gato II

Foto: Charquinho

O Gato

De seu pêlo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite, ao mimá-lo, fui
Por seu aroma embalsamado.

É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?

Se nesse gato que me é caro,
Como por ímãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E ali comigo me deparo,

Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde.
Charles Baudelaire

11 maio, 2009

279 - O Gato

Foto: Charquinho

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Tu tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
FERNANDO PESSOA

10 maio, 2009

278 - Mar

Foto: Charquinho

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

30 abril, 2009

277 - Ao longe

Foto: Charquinho

Visão

Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n'um nimbo pardacento...
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços...

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes...
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Antero de Quental

23 abril, 2009

276 - Malmequer diz-me a verdade

Foto: Shark

Eu levo a vida cantando

Eu levo a vida cantando
Eu levo a vida a cantar
Quem leva a vida cantando
Não lhe custa trabalhar

Malmequer criado no campo
Delírio da mocidade
Pelas tuas brancas folhas
Malmequer diz-me a verdade

Malmequer diz-me a verdade
E guarda-me o meu segredo
Pelas tuas brancas folhas
Malmequer não tenhas medo

Desfolhando o malmequer
Lembrei-me de ti um dia
Malmequer, bem me quer
Era o que a flor dizia
Do cante Alentejano
autor desconhecido

22 abril, 2009

275 - Poema de Outono

Foto: Shark

Poema de Outono

O vento soprou
Tão doce e sereno
Tocou-me ao de leve
Girou sentimentos
Dormentes, silentes
Que em voo rasante
Tocaram o chão
O fundo da alma
Fez-se de cor de ouro
Castanho ou laranja
Deu frutos já secos
De um doce amargo
Surgiu o Outono
No meu coração.

18 abril, 2009

274 - Morangos

Foto: Charquinho

MORANGOS

Nunca houve morangos
como os que tivemos
naquela tarde tórrida
sentados nos degraus
da porta-janela aberta
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em açúcar
olhando um para o outro
sem apressar a festa
para chegar ao fim
os pratos vazios
deitados sobre a pedra juntos
com os dois garfos cruzados
e me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta
deixe-me amá-lo
deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relâmpago de verão
nas colinas de Kilpatrick
deixe a tempestade lavar os pratos.

08 abril, 2009

273 - Giestas

Foto: Charquinho

Canção com lágrimasEu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

Adriano Correia de Oliveira
A minha Homenagem a Adriano que amanhã 9 de Abril faria 67 anos

07 abril, 2009

272 - Lodo














































Foto: CharquinhoLamaçal
As minhas botas estão negras
Negras e pesadas desta lama,
Absurda tentação
De chafurdar neste imenso lodo
Onde crianças nuas de barrigas gordas
Me agarram as calças.

Quero apressar o passo
Atrasar-me o espanto,
Espanto de ver nomes
Que o deviam ser
Caminhar curvados,
Braços estendidos
À procura do caminho,
Outros já cansados
Imitam a sombra no chão.

Mais alem
Onde a luz do Sol se reflecte
No sangue negro de um soldado,
Um cão vadio
Leva ao mendigo
O pão seco que ele não vê.

Quero apressar o passo
Mas a lama engrossa mais,
Tanto como o meu espanto,
Porque ao lado
No passeio mais acima
Longe dos ratos que tudo aproveitam
Caminha uma dama de vestes brancas
A que peço ajuda
Mas não vê.

Quero apressar o passo
Mas o frio tolhe-me os músculos,
O frio desta terra
Onde o calor da vida
Há muito se extinguiu.

06 abril, 2009

271 - Contrastes

Foto: Charquinho

Contrários

Em lágrimas e rios se define
a dialéctica da esperança
nas lágrimas que são o espanto e o frio
nos rios, a torrente que não cansa

De contrários se faz toda a harmonia
e nascem as crisálidas, nas casas,
entre o sonho e o preço da alegria
no desenho do voo antes das asas

Assim meus versos noutros explicados,
contradições, crisálidas, bolor,
me levassem à fonte donde corre ,
a harmonia do canto libertado.
Carlos de Oliveira

270 - Namoro


Foto: Charquinho

Desejo a você…

Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Crônica de Rubem Braga
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Uma tarde amena
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu
Carlos Drumond de Andrade

05 abril, 2009

269 - A Ponte

Foto: Shark

A PONTE


Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
de pedra e de aço
onde não permaneço
— p a s s o.

Zila Mamede

268 - A POSTA COM SENTIDO

Foto: Charquinho 22/Dez/2005

NADA FICA DE NADA

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

14/02/1933(Odes de Ricardo Reis)

04 abril, 2009

267 - Os Descobrimentos

Foto: Charquinho
Mensagem

"Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."
Fernando Pessoa

266 - Colóquios dos Simples e Drogas da India

Seguro livro meu, da qui te parte,
Que com huma causa justa me consolo,
De verte oferecer ho inculto colo,
Ao cutello mordás, em toda a parte.
E esta he, que da qui mando examinarte,
Por hum Senhór, que de hum ao outro polo,
Sò nelle tem mostrado ho douto Apollo
Ter competencia igual có duro Marte.
Ali acharás defensa verdadeira
Com força de razoens, ou de Osadia,
Que huma virtude a outra não derrogua.
Mas na sua fronte há Palma, e há Oliveira,
Te dirão que elle só, de igual valia
Fez co sanguineo arnez, ha branca Togua.

Garcia de Orta
O autor falando do seu livro
(português arcaico)

25 março, 2009

265 - Um outro olhar sobre a cidade - Lisboa

Foto:Charquinho

Tempo dividido
........................................................
Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens
Face erguida
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem
...................................................
…………………………………………………
Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdões os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros
No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

16 março, 2009

264 - Bailia do Rio Douro

Foto: Shark
BAILIA DO RIO DOURO
Ó rio corre contente
de Castela a Portugal
vem reinar na lusa gente
rumo ao porto em arraial.
Traz à dança da rabela
o rabelo e vai feliz
arrais ao vento e à vela
buscar a arcaica matriz

Baila rio d’ouro
com essa riqueza
que eu guardo o tesouro
de tanta beleza!
Baila assim dourado
num bago de vinho
que eu brindo a teu lado
a um fado marinho!

Aperta no longo abraço
o Portugal maila Espanha
e concerta-os a compasso
no laço que mais convenha.
Vai afogar os desejos
além-ribas sobre o vale
nesse mar enche-o de beijos
de ouro de sol e de sal...

Fernando Pinto Ribeiro In: Colectânea Poética “Correntes… – Louvor aos rios”, lavra…Editorial, 2003

263 - Novo Dia

Foto: Charquinho

AO NOVO DIA
Rebenta dos abismos às montanhas
o sangue que incendeia a madrugada
E um novo dia irrompe das entranhas
da terra finalmente fecundada

Foices malhos enxadas e gadanhas
e punhos semeando-se em rajada
contra lobos ocultos entre as brenhas
alevantam pendões de tudo-ou-nada

Acorda o novo dia. E desta vez
o sol nasce nas mãos do camponês
e põe-se na tigela do operário

Multiplicado o pão por quem o fez
não mais há-de ser hóstia que o burguês
consagre dando a fome por salário

Fernando Pinto Ribeiro

15 março, 2009

262 - Pedra

Foto: Charquinho

Pedra

Hoje sou pedra
nada me move
me incomoda
ou me comove.
Duro granito
parado algures
ténue limite
entre o horizonte
e o infinito.
Digo: sou pedra
e espero o ventos
obre as arestas
sopro de gelo
um corte lento.
Direi: sou pedra
e sei que minto
um toque leve
mesmo de acaso
tudo desfaz.
Restam partículas
um ser difuso
a visão breve
da dor que sinto.

07 janeiro, 2009

O Imagens e Poemas recebeu um prémio. Agradeço mas que vai inteirinho para o autor das imagens e para todos os poetas que nele figuram

Utopie calabresi, http://utopiecalabresi.blogspot.com/de Domenico Condito, um blogue que fala de arte, cultura e humanismo, e do qual tive conhecimento há ainda pouco tempo mas que considero do maior interesse e que por tal motivo “quase me obriga” a desenvolver os meus “modestos” conhecimentos da língua dos grandes mestres da cultura da Europa Renascentista, desde os grandes mestres da pintura, Literatura e desse tão incompreendido "Niccolò Machiavelli", homem de grande cultura e cujo livro “O Principe” é um dos meus livros de cabeceira, fez o favor de me presentear com o prémio Dardos.
O “Prémio Dardos” (sic) reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.
”Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:
a) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;
b) Linkar o blog pelo qual recebeu;
c) Exibir a distinta imagem
.
Aqui ficam os meus premiados:
1 – Charquinho -
http://charquinho.weblog.com.pt
2 – Cantigueiro - http://samuel-cantigueiro.blogspot.com
3 – Catrina -
http://bicatrina.blogspot.com
4 - Cantares Alentejanos - http://cantaresalentejanos.com.sapo.pt
5 - O Cheiro da Ilha -
http://ocheirodailha.blogspot.com
6 – Queridas Bibliotecas - http://queridasbibliotecas.blogspot.com
7 - Cântico da Beira -
http://canticosdabeira.blogs.sapo.pt
8 – O Parente do Refóias -
http://refoista.blogspot.com
9 – A Arca Velha - http://arcaz.blogspot.com
10 – Cila - http://escritadacila.blogspot.com
11 – Arvores Monumentais do Algarve e do Baixo Alentejo -
http://arvores-do-sul.blogspot.com
12 – Mar sem sal - http://marsemsal.blogspot.com
13 – O tempo das cerejas - http://tempodascerejas.blogspot.com
14 – Poesia de Vieira Calado -
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
15 – Luar da meia noite -
http://luardameianoite.blogspot.com
Um muito obigado a este amigo novo que é Domenico Condito, a quem envio um grande abraço

18 dezembro, 2008

261 - Feira de vaidades














































Foto: Charquinho

Eu, etiqueta

"Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de baptismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camisola, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu ténis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem — anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registadas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
Da sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
Ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou — vê lá — anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objecto pulsante mas objecto
que se oferece como signo de outros
objectos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome rectifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."



Carlos Drummond de Andrade

260 - Natal













































Foto: Charquinho

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira

14 dezembro, 2008

259 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Charquinho

A Ponte (o rio) Entre as Cidades

Rio de duas cidades
dividido entre tristezas
uma ponte assim as une
não de aço, de pobrezas
Álvaro Pacheco

10 dezembro, 2008

258 - Mulher com M Grande

Foto: Sharkinho

Avó e Neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!

Olavo Bilac

03 dezembro, 2008

257 - A rosa do meu jardim

Foto: Sharquinha

Poema da Rosa

Há uma rosa linda
No meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu
Quem cuidará de mim?

De manhã desabrochou
À tarde foi a escolhida
Pra de noite ser levada
De presente à minha amiga

Feliz de quem possui
Uma rosa em seu jardim
Minha amiga com certeza
Pensa agora só em mim.

Quando sopra o vento frio
E o Inverno gela o jardim.
Eu tenho calor em casa
E fico quentinho assim.

Feliz de quem tem um tecto
Para ajudar sua amiga
Fugir do vento ruim
Que deixa gelado o jardim
Berthold Brecht

02 dezembro, 2008

256 - Golfinhos em terra

Foto: Filha de Tubarão

AMIGO GOLFINHO

Tenho um golfinho amigo,
Ali para as águas do Sado
Ele andava perdido,
E por alguém foi encontrado
Por Bisnau foi baptizado
E muito feliz ficou
Por uns amigos ter encontrado,
Que por eles se apaixonou.

Ele é muito brincalhão,
Porque muitas partidas faz
Vocês acreditem ou não,
Do que este amiguinho é capaz
Então, não é que o Pescador,
Que ia na sua traineira
Naquele mar de primor,
Foi levado para a brincadeira.

Por este golfinho descarado,
Que a traineira fez balançar
Deixando o pescador todo molhado,
Que com ele não se foi zangar.

Ó golfinho brincalhão,
Diz o pescador, ao Bisnau
Ando com as redes neste mar chão,
A ver se apanho o carapau
E tu me deixas todo molhado,
neste mar tão salgado.

O golfinho, para as pazes fazer
Chamou os carapaus com rigor
Para uma bela pesca oferecer,
Ao seu querido amigo pescador.

Lá foram os dois muito contentes
Pelo Sado, devagar
Levando como presente,
Uma pesca de encantar
Bisnau e o Pescador,
Que no Sado muitos os vejam
Não dêem aos golfinhos dor,
que eles a nós nos beijam