20 agosto, 2008

213 - Sapatos velhos

Foto: Sharkinho

Os Sapatos

Nos cemitérios urbanos
vamos sepultando os passos,
passos jamais repetidos,
uns certos, outros em falso,
(todos diminuem a viagem,
que os roteiros diferentes
vão dar na mesma estalagem.)
Ó sapatos soluçantes
molhados (da água da chuva?)
dançamos no tempo gasto
a valsa lenta de abril,
defronte, as sandálias brancas,
mais brancas e imóveis hoje.
Recordo as noites distantes
quando pisáveis no oitão,
leve, leve, parecia
que nem tocáveis no chão,
vinha a moça de cabelos
soltos e abria o portão,
Dos longos caminhos dantes
só ficaram sete palmos.
Serei o moço calçado,
De olhos abertos, confiantes,
Em novos itinerários
Dos sapatos soluçantes.

(Mauro Mota)

212 - Mulher

Foto: Sharkinho

Canção de Mulher e Tempo

Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia
:sobejos de canto e falas
e o cheiro na ventania.
No verde morno do Janga
os rastros de espuma fria.
Bolem no azulejo as sombras
enxutas das mãos na pia.
(Jeito de corpo estremece
no lençol que te cobria.)
Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia.
Só não te acho a ti mesma
no mistério da agonia:
Sumidas cores e carnes
(camuflada autofagia).


Mauro Mota

19 agosto, 2008

211 - Depois da ceifa

Foto: Charquinho

Restolho

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
....................................................................
Mafalda Veiga

210 - Margem esquerda

Foto: Charquinho

Margem Sul

Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Ó margem esquerda do Verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Urbano Tavares Rodrigues

209 - Como pássaros sobre o rio

Foto:Sharkinho

É estranho

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
Henriqueta Lisboa

208 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Sharkinho

Lisboa

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa

207 - Entre o Tejo e Odiana

Foto: Charquinho

Écloga de Jano e Franco

Dizem que havia um pastor
entre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per ua moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor, do Alentejo
era, e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
d’água e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano , para salvar
o gado que lhe ficou,
foi a esta terra buscar;
e um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou
com o seu gado e com o seu fato,
com tudo se agasalhou
em ua bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, a ribeira,
Joana acertou de ir ver,
que andava pela beirado
Tejo a flores colher.

Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava;
fermosa bem parecia
aos olhos de quem a olhava.
Jano , em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado;
Joana flores colhia
Jano colhia cuidado
Bernardim Ribeiro

18 agosto, 2008

206 - O Mar

Foto:Sharkinho

A Ver o Mar

Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que os meus olhos se viram no seu olhar
Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar
Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar
Daria prá pintar todo azul do céu
Dava prá encher o universo da vida que eu quis prá mim
Tu...do que eu fiz foi me confessar
Escravo do teu amor, livre para amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar
Foi assim, como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Onda azul, todo azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Foi quando eu mergulhei no azul do mar
.......................................................................
Flávio Venturini e Ronaldo Bastos

205 - Pele Vermelha

Foto: Sharkinho

Ser Índio

É ter no sangue o amor
À sua raça
É não esconder a própria
Identidade
É ter um pedaço de terra
É pertencer a uma massa.
É não padecer na desgraça
É então sobreviver
É devolver ao seu povo a
Paz e a justiça, em meio às ameaças.
Ser índio
É preservar a natureza
Sem explorar a mãe-terra
É tentar conservar
Toda essa beleza!
Renilde Cavalcante Alves

204 - Azul sem fim

Foto : Sharkinho

Poema azul

O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia
Os cabelos do meu bem.
Que olhar o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra ao céu e à lua cheia
Um beijo meu.
- O mar sonoro, o mar sem fundo, o mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo, intimamente, a tua voz
segue o mais secreto bailar do meu sonho, que momentos há em
que eu suponho seres um milagre criado só pra mim.
Sérgio Ricardo

203 - Cacho de Uvas

Foto: Sharkinho


Sabedoria



Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!


Faze da tua realidade
uma obra de beleza


Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Ronald de Carvalho

202 - Na estrada

Foto: Sharkinho


Sou Camionista


Tenho muitos galhardetes, bonecos e bandeirinhas
Tenho muitos calendários com vaidades de maminhas
Tenho muitos amoletos p'ra que a estrada me ilumine
Tenho sonho, tenho cama, a minha casa é a cabine.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…


Tenho vinte e quatro rodas e cavalos p'ra puxar
Tenho um rolo de papel p'ra quando me quero assuar
Tenho duas tatuagens, muitas curvas por fazer
Uma diz amor de mãe, a outra diz talvez.


Tenho sono, tenho fome, mas nunca quero parar
Só não sei por que encosto quando vejo um polegar
Tenho braços bué da fortes que é p'ra agarrar no volante
Mas sinto logo uma fraqueza quando ligas o cantante.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…

Música ligeira portuguesa – Autor desconhecido

201 - Poema de Agostinho Neto

Foto: Sharkinho

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo
Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)


(Agostinho Neto)

200 - Pinba pumba, laranja, limão....

Foto: Shark inho
SALTO À CORDA

O cordão que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma
que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.
Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de pinhas
toque de campainhas?)
(Pedro Tamem, "Poemas a Isto")

16 agosto, 2008

199 - A Flor do Aloendro

Foto: Charquinho

Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa,
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
Para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

Joaquim Pessoa

26 julho, 2008

198 - Pastor do Alentejo

Foto: Shark

Pastor

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado

De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor
(Do folclore Alentejano)

24 julho, 2008

197 - Rosas macias como malvas

Foto: Shark

Rosas

Rosas cujo perfume, em noites enluaradas,
é um sortilégio etéreo a transpor as rechãs;

rosas que á noite sois risonhas, flóreas fadas,
de cútis de veludo e tenras carnes sãs.

Sejais da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmãs,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretização dos risos das Manhãs!

Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
há nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêssego em sazão.

Daí que eu possa gozar, ao vosso colo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emoliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!
Gilka da Costa de Melo Machado
(Rio de Janeiro 1893 - 1980).

10 julho, 2008

196 - Degraus

Foto: Shark

DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo


(Mário Quintana)

29 junho, 2008

195 - Irresponsabilidades ecológicas

Foto: Shark
Meio Ambiente

Desde o início, tudo mudou
O meio ambiente, já se transformou,
Tapamos nossos olhos, para não ver
Tudo que está acontecendo

Não queremos perceber
Animais famintos, outros extintos
As florestas mudaram
Muitas árvores derrubaram.

O povo consumista, não quer saber
A natureza pede ajuda,
Sem ninguém pra socorrer

A mata está sufocada
As pessoas ficam caladas
Fábricas, fumaças...
Dinheiro sujo, só desgraça.

Temos que agir,
O mundo vai cair
Talvez caia em cima de nós
E ninguém escutará nossa voz.
Caroline M. Costa

28 junho, 2008

194 - A todas as MULHERES

Foto: Shark

São as Mulheres como tu
Que pela consciência,
encontram respostas para todas as perguntas
Que pela fraternidade, possuem
não só uma vida mas todas as vidas
Que pela dedicação,
transformam o cansaço numa esperança infinita
Que pelo pensamento,
ajudam a realizar o azul que há no dorso das manhãs Que pela emancipação,
fazem de nós mulheres e homens com a estaturada vida,
Capazes da beleza, da igualdade, da justiça e do amor
São as mulheres como tu
Que podem transformar o mundo

(Joaquim Pessoa)

27 junho, 2008

193 - Até os manjericos já são de papel

Foto: Shark

O vaso de manjerico

O vaso do manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.

(Fernando Pessoa)

192 - Rubras papoilas

Foto: Shark

De tarde

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma cousa simples bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoilas.

Pouco depois, em cima dos penhascos,
nós acampávamos, inda o sol se via;
e houve talhadas de melão, damascos,
e pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
dos teus dois seios como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoilas.
( Cesário Verde )

24 junho, 2008

191 - Professoras da minha infância

Foto: Shark

Os meus professores

Os meus professores
A quem muito amei,
Ensinaram-me tanto
Do que hoje eu sei!

Os meus professores
Eu muito respeitava,
Transmitiram-me valores
Fizeram muito do nada!

A os meus professores
Muito bem eu dediquei,
Ensinaram-me tanto
Jamis os esquecerei!

Os meus professores
De há longa data,
Em toda a minha vida
Lhes estou muito grata!

Aos meus professores
Deixo este poema,
Todo o meu carinho,
Todo o meu afecto ,
Toda a minha gratidão
E um muito obrigada
Do fundo do coração

Dos meus Professores
Assim e despeço,
Recordando a todos...
Nas rimas deste verso!

23 junho, 2008

190 - Cobra

Foto: Shark

A Cobra (extracto)

Passaste por mim na rua. Passaste, toda dengosa.
E eu fui olhando e pensando: que cobra mais sinuosa.
Dás nas vistas, acredita, talvez pelo teu vestir
mas, queria ver-te sem roupa, queria poder-te despir!
Laura B. Martins
(in Divagando)

19 junho, 2008

189 - Repasto

Foto:Charquinho

REPASTO

Comi de tudo, da vida fiz repasto.
Até daquilo que provei, mesmo nefasto,
fui recolhendo e amarrei num bouquet.
Viagens, fiz algumas; reparei,
do mar, ter um receio que só eu sei!...
Dos aviões nunca tiraria brevet (...)

Assim, me limitei aos pés na terra
porque é difícil viajar, (está tudo em guerra...
por todo o lado são países desavindos).
Reduzi o meu espaço ao meu país;
e hoje, faço aquilo que não fiz,
contando no bouquet ramos infindos.

De moça nova que era, namorei;
e alguns corações despedacei
mas, no correr dos anos, são fatais
as trocas. Que prefere o ser humano?
Quando a idade avança, o que é mundano
passa. A mim... ficaram-me os animais!
Laura B. Martins
Soc. Port. Autores n.º 20958

188 - Vulcões

Foto: Charquinho
Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

(Florbela Espanca)

15 junho, 2008

187 - Meu Alentejo imenso

Foto: Shark

Alentejo

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha

Sem chegar!...

(Miguel Torga)

14 junho, 2008

186 - As Cegonhas

Foto: Shark

Cegonhas

Olá cegonha gosto de ti!
Há quanto tempo, te não via por ai!
Nem teus ninhos nos telhados,
Nem as asas pelo céu!
Olá cegonha! Que aconteceu?
Ainda me lembro de ouvir-te dizer,
Que tu de longe os bebes vinhas trazer!
Mas os homens vão crescendo,
E as cegonhas a morrer!
Ainda me lembro... não pode ser!
Adeus cegonha, tu vais voar!
E a gente sonha...é bom sonhar!
No teu destino, por nos traçado!
Leva o menino, que é pequenino, toma cuidado!
Adeus cegonha, adeus lembranças...
A gente sonha, como crianças!
Faz outro ninho, no som dos céus!
Vai de mansinho, mas pelo caminho, diz-nos adeus!
Adeus cegonha, tu vais voar!
E a gente sonha... é bom sonhar!
No teu destino, por nós traçado...
Leva o menino que é pequenino, toma cuidado!
Leva o menino... mas tem cuidado!
(Carlos Paião)

13 junho, 2008

185 - Meu Alentejo ao pé do mar

Foto: Shark

Fui à Beira do Mar

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre

Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar

No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater

No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

(Zeca Afonso)

184 - MARAVILHA DE PAÍS O NOSSO

Foto: Shark

Minha Terra

Minha Terra embalada pelas ondas,
Lindo país de mouras encantadas,
Onde o amor tece lendas e onde as fadas
Em castelos de lua dançam rondas…

Oh meu Algarve, quero que me escondas…
Que na treva da morte haja alvoradas!
Hei-de sonhar com moiras encantadas,
Se eu dormir embalado pelas ondas…

Quando o sol emergir detrás da Serra,
Sempre será… da minha terra
A fecundar-me o chão da sepultura...

Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,
A morte será quase uma ventura,
A morte será quase como a vida…
Cândido Guerreiro

10 junho, 2008

183 - Pátria

Foto: Shark

Os Lusíadas
Canto III
21

Esta é a ditosa Pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
..................................................................
(Luiz Vaz de Camões)

09 junho, 2008

182 - Voar como os pássaros

Foto: Shark

Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste
Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.
E se o procurarmos?

Que não se desespere,
pois nunca o iremos encontrar.
Algum sentimento o terá deixado pousar,
partido com ele.
Estará o verso connosco?
Provavelmente apenas a parte que nos coube.
Aquietemo-nos.
Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.
(Eduardo White)

06 junho, 2008

181 - Nas asas da poesia

Foto: Shark

OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
(Mário Quintana)

05 junho, 2008

180 - Barco no mar

Foto: Shark

NAU SEM RUMO

Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.

Caminhar sobre a superfície do oceano,
pisando em pássaros submarinos,
tropeçando em ruínas de outras civilizações,
beijando cadáveres de náufragos,
até a definitiva conversão em água, sal e vento.

Sei que não tenho destino.
É o destino que me possui.
As correntezas traçam a rota
e as tempestades preparam o naufrágio.

O mar não precisa de caminhos,
tece na solidão as formas da morte,
enquanto o vento entoa cantos fúnebres
sobre os campos azuis do país marítimo.

O mar não precisa de navios,
precisa apenas de corpos.
(José António Cavalcanti)

01 junho, 2008

179 - Quem se vende?

Foto: Shark

Compra-se

Compram-se seres humanos
Calados, domesticados
Que não pensem, nem opinem
Ao serem questionados.
Que não vejam, nem escutem
Nem se sintam incomodados.

Compram-se seres humanos
Que sejam modernizados.
Que andem sempre na moda
Felizes, etiquetados
Que propaguem e que convençam
Até os conscientizados.

Compram-se seres humanos
Totalmente desligados
Que não gostem de política
E estejam sempre ocupados
Que não sejam de esquerda
E nem sindicalizados.


Compram-se seres humanos
Famintos, desempregados,
Indecisos, inseguros,
Descalços, descamisados,
Menores, analfabetos,
E até informatizados.

Compram-se seres humanos
Idosos, aposentados,
Jovens e adolescentes
De preferência, os drogados
Que se sumam, consumindo,
Em tempos globalizados!!!
de Prof. Zé Maria
Eldorado dos Carajás

31 maio, 2008

178 - Lavadeiras

Foto: Shark
Poema da Lavadeira

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perdeira talvez
Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
Fernando Pessoa, 15-9-1933

25 maio, 2008

177 - Teia de aranha

Foto: Shark

O AMOR

O amor, fio d'aranha quebradiço,
Um sopro o quebra e ninguém mais o reata.
Mas ai de nós! Rompeu-se e nem por isso
A dor que ele nos deixa se desata...

Num braço de corpos naufragados
Que os nossos prantos num só pranto unia,
Quedámos sucumbidos e prostrados
Até que já no céu luzia o dia

...Um dia pálido e deliquiscente

E a chuva caía,
Mais triste, mais fria,
Monotonamente ...

(Augusto Gil)

176 - Nascer do sol

Foto: Shark

Sol D'Agosto

Mesmo que um véu espesso de neblina
Toldasse o ar e o céu e tarde fosse,
Se a tua bôca fina
E purpurina
E doce
Para mim sorria,
Já não havia para mim sol posto:
Era... como se fôsse meio dia
- Um meio dia de abrasado agosto.
E trocávamos beijos sem ruído,
Desfalecidamente,
Num amor incendido,
Altissimo, purissimo, silente...
E nossos lábios, para se beijarem
Naquele enlêvo mudo e mudo encanto,
Eram dois rouxinóis que para voarem
E se encontrarem,
Interrompessem o mavioso canto...
Pois não diziam tudo,
Com esse beijo mudo,
Os meus lábios e os teus?
E nós nem saberíamos falar!
Quando o calor d'Agosto se abre aos céus
E inflama o ar
E morde a terra e a reduz a pó,
- Os rouxinóis não cantam
Voam só ...
(Augusto Gil)

16 maio, 2008

175 - Simbiose - Velho e novo

Foto: Shark
Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto... tão perto... tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

174 - Flores do campo

Foto: Shark inho

É Primavera agora, meu Amor!

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao saber

Da vida... não há bem que não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal !
Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


(Florbela Espanca)

13 maio, 2008

173 - Aonde andam as ondas?

Foto:Shark inho

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

(Manuel Bandeira)

11 maio, 2008

172 - Gosto de Gatos, pretos

Foto: Shark inho

O Gato

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné
..........................................
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga
(Vinicius de Morais)

09 maio, 2008

171 - Aquela cativa que o tem cativo

Foto: Shark inho

Endechas a Barbara Escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uã graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Luís de Camões

08 maio, 2008

170 - Uma janela florida

Foto: Shark inho

NÃO PEÇAS DEMAIS À VIDA
Não peças demais à vida,
Aceita o ela te deu
Uma JANELA FLORIDA
Mostra a cor de todo o céu.

Afinal a felicidade
Cabe num rosto a sorrir
Ai de quem sente a ansiedade
De viver sempre a pedir.

Não peças demais à vida,
Aceita o que ela te dá,
Porque a ambição desmedida
Faz-nos crer o que não há.

E não há sinceramente
Maneira de ser feliz
Para quem quer constantemente
Ser mais feliz do que quis.

Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der,
Às vezes, basta a guarida
Dum abraço de mulher.

Num sorriso de criança
Ou no sol quente a brilhar
Existe um tesouro de esperança
Que ninguém pode comprar.

Se afinal basta a guarida
Dum abraço de mulher,
Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der.
(Amália Rodrigues)

06 maio, 2008

169 - Jardim

Foto: Shark inho
Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
(Sphia de Mello Breyner Andresen)

168 - Sonhos

Foto: Shark inho

Sonhos

S'crevo meu livro à beira-mágua.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a dispertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras portuguez,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anceio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
(Fernando Pessoa)

05 maio, 2008

167 - Tomate também é fruto

Foto: Skark inho
Vamos falar sobre fruta - (extracto)

Vamos falar sobre fruta
que todos devem comer
chupar a sua carninha
ou o seu sumo beber.

A fruta é colorida,
cada fruta sua cor,
arredondada ou comprida
cada fruta, seu sabor.
...........................................

tomate, também é fruto
é vermelho e não é doce,
corta-se às rodelinhas
e come-se com a alface.
(Autor desconhecido)

04 maio, 2008

166 - Toda a rosa tem espinhos

Foto: Shark inho


PRIMAVERA

Entre rosas, bem lestinhos,
Vigiam duros espinhos;
E entre espinhos, bem vistosas,
Campeiam essas rainhas
Que têm o nome de rosas
De comum, de parecido,

Uns e outros nada têm;
Mas como se entendem bem!
Sendo frágeis e garbosas,

Por todos apetecidas,
Não serão esses espinhos
Os seguranças das rosas?
Só receio que os mortais,

Que mudam tantos destinos,
Um dia também consigam
Mudar rosas em espinhos.
Ao contrário, a natureza,

Quem tem leis maravilhosas,
Talvez um dia consiga
Dos espinhos fazer rosas.
(Abel Grilo)

165 - Marginal (um qualquer dia da semana)

Foto:Shark inho 1/12/2007

POEMINHA DO CONTRA

“E todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão...
Eu, passarinho!”

(Mário Quintana)

02 maio, 2008

164 - Olha uma nêspera e zás picou-a...

Foto: Shark inho


RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

(Mário Henrique Leiria)