01 abril, 2008

153 - Menina estás à janela

Foto: Shark inho

Menina estás à Janela

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela
(Do cancioneiro Popular)

30 março, 2008

152 - Poema de Amor

Foto:Shark inho

Poema de Amor

Quero um bosque de Eucaliptos
Perfumando a brisa
Forrando tudo com folhagem macia
Um pomar e um riacho
Uma rede estendida
Para poder,
Ao sussurro das árvores,
Ao canto das águas,
Com o aroma da natureza,
Escrever um POEMA DE AMOR !

(autor desconhecido)

21 março, 2008

151 - A Lua

Foto: Shark inho
Lua

Entre a terra e os astros, flor intensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.

Sophia de Mello Breyner Andresem

150 - 21 de Março - Dia Mundial da Árvore

Foto: Shark inho
ORGIA NA FLORESTA.

Sinal verde. Hoje é dia de festa.
Sapo Cururu rufou tambores.
A lagoa toda se alagou.
Boto Tucuxí que não é bobo.
Refestelou-se na madrugada.
As Estrelas lascivas e envergonhadas
Mergulharam no azul do céu.

17 março, 2008

149 - Olhando o Mar

Foto: Shark inho
Olhando o mar, sonho sem ter de quê

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

Fernando Pessoa

148 - Horizonte

Foto: Shark inho

Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério'
Splendia sobre sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa ---
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o
Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte ---
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

147 - O Melhor do Mundo São as Crianças

Foto: Shark inho
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre,bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor,quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa

16 março, 2008

146 - Rainha das Pontes !

Foto: Shark inho
Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar,
também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!
No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.
Só tua alma sem ti
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu.
Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.
(Autor desconhecido)

145 - Outra vez o Tejo

Foto: Shark inho

O Tejo

As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gememcom as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas.
É forteo cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.Respirando.
Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido.
Não seio que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil

Herberto Helder

144 - Tardes em Lisboa

Foto: Shark inho

Tardes em Lisboa

Nesta última tarde em que respiro
a justa luz que nasce das palavras
e no largo horizonte se dissipa
quantos segredos únicos, precisos,
e que altiva promessa fica ardendo
na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
senão em cada gesto e pensamento
e dentro destes vagos vãos poemas;
e já todos me ensinam em linguagem simples
que somos mera fábula, obscuramente
inventada na rima de um qualquer
cantor sem voz batendo no teclado;
desta falta de tempo, sorte, e jeito,
se faz noutro futuro o nosso encontro.
E como, em noite parda, esse escritor demente
descobre no papel as formas do seu fim,
sem desistir de ti, ainda que as água cubram
de escamas a mansa pele,
ao meu delgado corpo de ar sonoro
acto em nova aliança o antigo canto.

(António Franco Alexandre)

14 março, 2008

143 - Lisboa... desbotada

Foto:Shark inho

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz?Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...
-Eu falhei-me entr os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi
...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro

12 março, 2008

142 - Eternidade

Foto: Shark inho

Eternidade

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

(Rimbaud)

09 março, 2008

141 - Não há mulheres feias

Foto: Shark inho

Não há mulher que não tenha um encanto,
todas são belas seja no que for;
a alma, por mais oculta, em qualquer canto
há-de romper, e dar a sua flor.


Mas quando nada dê, temos, no entanto,
em nós, poder de tudo lhe supor,
desde a pureza, se esse amor é santo,
ao mais, se o nosso amor é bem amor.

Entre as surpresas de que nos rodeia
a vida, pode uma alma ser perdida?
criatura de amor, que seja feia?

Sonho que eu vivo, e por que, há tanto, chamo!
Quem me dera, através da minha vida,
encontrar, afinal, a que eu não amo!...
(Fausto Guedes Teixeira)

07 março, 2008

140 - Pássaro à janela

Foto: Shark inho

Acorda cedo como os passarinhos
e vem logo direita à minha cama;
sacode-me com jeito, por mim chama
e abre-me os olhos com os seus dedinhos.

Estremunhado, zango-me. - "Beijinhos,
não quer beijinhos?" - com voz de ouro exclama.
Da minha ira empalidece a chama,
e, acarinhando-a, pago os seus carinhos.

Senhor! Que amor de filha tu me deste!
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
dá-lhe a Virtude por amparo e guia!

e destina também, ó Pai celeste,
que a mão com que ela agora me abre os olhos,
seja a que há-de fecharmos algum dia!

Eugénio de Castro

139 - O Gato

Foto: Shark inho
O Gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá ruacheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quado abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri,
com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados,
em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,rosna, deliquescente,
abraça-mee adoremece.
Eu não tenho gato,
mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

(António Gedeão)

02 março, 2008

138 - Nuvens

Foto: Shark inho

Nuvens

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
(Natália Correia)

137 - Nem tudo o que parece... é!

Foto: Shark inho

A minha Janela pequena

Tenho na minha casinha
Uma pequena janela
Que engana quantos passam
Quando olham para ela!

É que da minha janela
Vejo mais que o horizonte:
Vejo as estrelas do céu,
As árvores, o rio e o monte

Pela minha janelinha
Entra a luz do sol a rodos,
Entra o luar à noitinha
E as canções do vento em sopros

E quando vem o Inverno,
Bate a chuva miudinha
Não entra, porque a não deixa,
A janela pequenina

Susete Evaristo

01 março, 2008

136 - Lição de civismo

Foto: Shar inho
Rap Ecológico

Devemos cuidar
Do meio ambiente
Afinal de contas
É a casa da gente.
O nosso projeto
É uma beleza
Ensina a gente
A cuidar da natureza
Como é que vamos
Cuidar do meio ambiente?
Do jeito que está
Vai ficar permanente
Olha só meu amigo
Quanta poluição
Vamos já procurar
Uma boa solução
Já conheço uma
Que é bem legal
Reciclar papel
É fundamental
Separar o lixo
Não é nada difícil
Se você pensar
Logo vai notar
Esse é o rap
Do projeto ecologia
Venha conosco
Mergulhar nessa magia

Poema escrito por: Artur Gehlen Adams
jovem brasileiro de 9 anos

28 fevereiro, 2008

135 - Gaivotas no rio

Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!
Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!
Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam voo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a VIDA!...
Maria Mamede"Pelas Letras do Alfabeto"

07 fevereiro, 2008

134 - Castelos e Mouras encantadas

Foto: Shark inho

Meia noite além ressoa
cerca das aribas do mar
meia noite já é dada
e o povo inda a folgar

Em meio de tal folguedo
todos quedam sem falar.

Voltam olhos ao Castelo
para ver, para avistar
a linda moura encantada
que está triste a suspirar

Quem se atreve
quem se atreve,
ao castelo a trepar
Para vencer o encanto
Que tanto sabe encantar?

Ai que linda formosura!
Quem a pudera salvar!
o alvor do seu vestido
tem mais brilho que o luar

Doces tão doces suspiros
Onde ouvi-los suspirar?

Assim um bom cavaleiro
só se estava a deleitar
em amor lhe ardia o peito
em desejo o seu olhar

Três horas eram passadas
neste contínuo ansiar
nada importa a D.Raimundo
mais que a moura conquistar

Vai subindo muro acima
sente os pés a resvalar
ai que é passada a hora
de a poder desencantar

Já lá vem a estrela d’alva
com seus brilhos a raiar
no mais alto do castelo
já mal se via alvejar
a fina roupagem branca
da linda filha de Agar

Ao romper do dia claro
para bem mais se pasmar
sobre o castelo uma nuvem
era apenas a pairar

Jurava o povo jurava
e teimava em afirmar
que dentro daquela nuvem
vira a Donzela entrar

D. Raimundo d’enraivado
de não lhe poder chagar
por fim ganha o Castelo
mas... sem Moura para amar


(In romanceiro do Algarve de Estácio da Veiga - 1870)

05 fevereiro, 2008

133 - Noites de Amor

Foto: Shark inho

Horas Rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras
(Florbela Espanca)

17 janeiro, 2008

132 - Tarde no mar

Foto: Shark inho

Tarde no mar

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a Vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com frágil graça de menino

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar…

E sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São asas do sol, agonizantes…

(Sonetos - Florbela Espanca)
in clássicos da lingua Portuguesa

08 janeiro, 2008

131 - Era uma vez o MAR

Foto: Sark inho
(Extracto do poema de “As Naus de verde pinho”

De um lado o chão e a raiz
do outro o mar e o seu cântico.
Era uma vez um país
entre a Espanha e o Atlântico.
Tinha por rei D. Dinis
que gostava de cantar.
Mas o reino era tão pouco
que se pôs a perguntar:
-- E se o mar fosse um caminho
deste lado para o outro?
E da flor de verde pinho
das trovas do seu trovar
mandou plantar um pinhal.
Depois a flor foi navio.
E lá se foi Portugal
caravela a navegar.

(Manuel Alegre)

07 janeiro, 2008

130 - Ciprestes

Foto: Shark inho










Triste, a paisagem tem ciprestes só

Triste, a paisagem tem ciprestes só.
Órbitas cegas, de chorar por água,
Os tanques estancam sua sede em pó
E o seu silêncio enche o jardim de mágoa.

Ao buxo, há muito que ninguém dá norma,
Só répteis amam, no caramanchel.
E o velho fauno branco, hoje sem forma,
Envolto d'hera, toma a cor do fel.

Galgos, cisnes, pavões, festivas flores,
Tudo se foi. No vácuo, o tempo escorre.
Folha arrastada aos vergéis exteriores,
Transposto o muro, inda que verde morre.

(Reinaldo Ferreira)

05 janeiro, 2008

129 - Eu gosto de animais

Foto: Shark inho

O Cavalo

Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?
Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar.
(Natália Correia)

03 janeiro, 2008

128 - Tempestade

Foto: Shark inho

CHOVE!

Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é o destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

(José Gomes Ferreira)

127 - Sob o teu olhar Lisboa - LIS(BOA) Todos os dias

Foto: Shar inho
O Teu Olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-te tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

(Florbela Espanca)

02 janeiro, 2008

126 - A Bebedeira

Foto: Shark inho

Poema Bêbado

Prá curar sua paixão, beba pinga com limão;
prá curar sua amargura, beba pinga sem mistura;
contra dor de cotovelo, beba cachaça com gelo;
contra falta de carinho: cachaça, cerveja e vinho!

Se brigar com a namorada, beba pinga misturada;
se brigar com a mulher, beba pinga na colher;
quem dá amor e não recebe, mistura todas e bebe;
e se alguém lhe faz sofrer, beba para esquecer!!!

Prá curar seu sofrimento, beba pinga com fermento;
prá esquecer um falso amor, beba pinga com licor;
prá acalmar seu coração, beba até cair no chão;
e se a vida não tem graça, encha a cara de cachaça!!!

Pra você ganhar no bicho, beba uma no capricho;
pra ganhar na loteria, beba pinga na bacia;
pra viver sempre feliz, beba pinga com raiz;
e se você não tem sorte... beba pinga até a morte!!!

(autor desconhecido)

28 dezembro, 2007

125 - Solidão

Foto: Shark inho

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

António Gedeão

27 dezembro, 2007

124 - Olhos de água

Foto: Shark inho - Jan.2007



Menina dos olhos de Água

Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
aprendi na "Fanga" com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar

(Pedro Barroso)

123 - H2O

Foto: Shark inho

Poema da Água

A água também nasce pequenina -
nasce gota de orvalho ou de neblina...
A água também tem a sua infância - quando apenas riacho cantarola
brinca de roda nos redemoinhos
salta os seixos que encontra
e faz apostas de corrida - travessa -
por entre as grotas e peraus
e arranca as flores que a marginam
para engrinaldar a cabeleira solta
sobre o leito revolto das areias...
A água também tem adolescência -
sonha lagos românticos à lua
fitando os astros namorados dela
embevecida em seus olhos de ouro...
e assim sempre amorosa e sonhadora
vai tecendo e bordando - dia e noite
o seu vestido de noiva nas montanhas
e o seu véu de noivado nas cascatas...
A água também tem maturidade -
fica serena e grave em rios fundos
e num destino generoso e amigo
espalha a vida que em si mesma encerra
semeia bençãos para o grão de trigo
abre caminhos líquidos da terra
e enlaça os povos através dos mares...
A água também tem sua velhice
e de ver-lhe os cabelos muitos brancos
onda lenta de espuma destrinçada em neve, nos ares flutuando...
A água também sofre...
e quando sofre se faz divina e vem brilhar em lágrimas
ou se reflete a dor da natureza
geme no vento trnasformada em chuva.
A água também morre...e quando seca
- e a sua morte entristece tudo :
choram-lhe, enfim na desolação,
todos os seres vivos que a rodeiam
porque ela é o seio maternal da vida
e de tal maneira ama seus filhos rudes
que muitas vezes para os salvar se deixa
ficar sem o murmúrio de uma queixa
prisioneira de poços e açudes...

Bendita seja, pois, água divina
que fecunda, consola, dessedenta, purifica,
e que, desde pequenina,
feita gota de orvalho,
mata a sede das plantas entreabertas
e prepara o festivo esplendor da primavera...
e que, nascida em píncaros da serra ter
um fim de planície e de humildade
até perder, na última renúncia,
o nome de batismo de seus rios
para ficar anônima nos mares.

(Raul Machado) (Brasil)

22 dezembro, 2007

122 - O MEU RIO CHAMA-SE TEJO

Foto: Shark inho

Hino ao Tejo

Ó Tejo das asas largas
Pássaro lindo que se ouve em todas as ruas de Lisboa
Ó coroa duma cidade maravilhosa
Ó manto célebre nas cortes do mundo inteiro
Faixa antiga duma cidade mourisca
Fênix astro caravela liquida
Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer
Deslizar sem desastres sem fado sem presságio
Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas
Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti
E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas
Meu irmão mais velho
(Alberto de Lacerda)

19 dezembro, 2007

121 - Arre Burrinho

Foto: Shark inho
A Moleirinha

Pela estrada plana, toque, toque, toque
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toque, toque, toque
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toque, toque, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toque, toque, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toque, toque, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toque, toque, toque, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toque, toque, toque, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toque, toque, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toque, toque, toque, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toque, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...

Toque, toque, toque, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toque, toque, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...

Toque, toque, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toque, toque, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...

Toque, toque, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!

(Guerra Junqueiro)

13 dezembro, 2007

120 - Anoitecer

Foto: Shark inho

Anoitecer

A luz desmaia num fulgor de aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, soa mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos de amor p’ra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente,
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

Florbela Espanca, 1923

119 - LIS(BOA) TODOS OS DIAS - Ponte Vasco da Gama

Foto: Shark inho

Lisboa

Digo: "Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen

05 dezembro, 2007

118 - O Nevoeiro

Foto: Shark inho

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer
- Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

(Fernando Pessoa)

04 dezembro, 2007

117 - LIS(BOA) todos os dias

Foto: Shark inho

A Cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas
A palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
A palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco. Um pulmão que respira
Pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que respira
Pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem ruas de palavras abertas
Como estátuas mandadas apear.
A cidade tem praças de palavras desertas
Como jardins mandados arrancar.

A palavra esperança é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa-chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
Não há rua de sons que a palavra não corra
À procura da sombra duma luz que não há.

(José Carlos Ary dos Santos)

03 dezembro, 2007

116 - LIS(BOA) todos os dias

Foto: Shark inho

A CIDADE

Em Lisboa não morro mas espero
O Tejo a água a ponte e o Rossio.
Em Lisboa não morro mas espero
Um pouco menos Tejo menos frio.

Em Lisboa vendendo a minha fruta
De azeite e mel de ódio e de saudade.
É dentro de mim próprio que eu tropeço
Num degrau de ternura da cidade.

Em Lisboa gaivota que navega
No Terreiro do paço por acaso
Eu encontro a dimensão da minha entrega
No aterro, onde me enterro a curto prazo.

Limoeiro, limo do mar da Palha
Palha podre de tédio rio surpresa
Desta Lisboa de água que só falha
Quando do céu azul sobra tristeza.

Lisboa meu amor, minha aventura
Em cada beco só uma saída
Alfama, meu mirante de lonjura
Má fama que a nós todo dás guarida

Mas esta angustia que eu canto
Lisboa, Lisboa, não vem ao caso!...

(José Carlos Ary dos Santos)

115 - As mãos

Foto: Shark inho

Os cinco dedos da mão

Nós temos em cada mão
Cinco dedos desiguais:
um maior dois mais pequenos
E outros dois ainda mais.

É vê-los em seu trabalho
Que harmonia e perfeição!
Mexe um ? logo os outros todos
O seu auxílio lhe dão.

E quando o indicador
Mostra aos outros o caminho,
- Vamos – diz o pai de todos,
E lá vai tudo unidinho

Mais fidalgo, o anelar
Quase sempre anda enfeitado.
Mas ai do pobre meiminho,
Se não lhe andasse encostado!

Porém o mais cuidadoso
É o dedo polegar.
Nada os outros fazem, nada,
Que os não vá logo ajudar.

- Mas, porque razão, (pergunta
A Laurinha um dia à mãe)
Sendo todos tão diferentes,
Se dão entre si tão bem?

_ Minha filha, diz-lhe a mãe,
É para nos ensinar
Que uns aos outros, neste mundo,
Nos devemos ajudar.

E que bem feliz seria
Certamente a humanidade
Se por toda a gente fosse
Praticada esta verdade


(Extraído do livro de Leitura da 3ª classe de 1950)

114 - Fim de Tarde

Foto: Shark inho

SEMPRE

Não! Não me deixes fazer nada,
Não me deixes já ir-me,
Lua
Branca!
Nada mais fazer do que este encanto;
esta quieta viagem clara e alta!
Não, não me deixes
fazer nada;
não me deixes já indo,
Lua
pálida!
O pé enamorado, não mo deixes...
Doba todas as sendas e as estradas!
E estas mãos, minhas mãos transidas,
Ata-mas!
Craveja-mas de estrelas,
Lua
errática!...

(Jorge Amorim)

113 - A LUA

Foto: Shark inho

MAGNIFICAT!

A lua
molha os pés no mar.
Suas mãos
cantam, leves de espuma!
A lua
ascende, alva, do mar.
Suas mãos
cantam, altas de graça!
A lua
exulta, sobre o mar.
A onda
clama: - Excelsa!
Eleita!...

(Jorge Amorim)

112 - Azul


Foto:Shark inho

NADA-AZUL

Nada, é azul! Como os imensos
Céus vazios...
Nada, é azul: antes de tudo,
ou a essência de tudo,
e os anelos.
Nada, é azul: onde florescem
Os anjos e os zénites
Mais perfeitos.
Nada, é azul: como a minha alma
e o nome, perfeitíssimo,
de Deus...
Negras, são as coisas. E as mãos.
Mas nada, é azul.
E o azul
Reina,
Celeste, incontestável!...

(Jorge de Amorim)

02 dezembro, 2007

111 - Lis(boa) Todos os dias

Foto: Shark inho

Havia na cidade (extracto)

Havia na cidade arranha-céus, colmeias
De abelhas racionais acomodadas em quartel
Vivendo as vidas próprias como alheias
Fabricando o seu fel.

Em cada arranha-céus havia trinta andares,
Em cada andar uns tantos furos,
E, lá por cima, o céu, fora de todos os olhares,
Não chega a ser céu entre esses muros

(José Régio)

110 - Lis(boa) todos os dias

Fado das mulheres de vida fácil

Certas das ruas mais tortas,
Mais sujas, ou mais sombrias,
De qualquer pobre cidade
Tem certas velhas portas,
Janelas com gelosias,
Um ar de cumplicidade…

Qualquer centro superfino
Casas tem bem semelhantes,
Mas de bem mais aparato,
Que atraem bons visitantes
Com seu grande ar clandestino
De vício rico e recato

Ali fuma, bebem, comem,
Dormem rebanhos de estrelas
A que chão caídas hoje!
Quem lá vai…, - prova que é homem:
Prova-o servindo-se de elas;
Serve-se, paga-lhes, foge…

E homens há de toda a sorte,
Doentes de todo o mal,
Tarados de todo o vício,
Que naquele amor venal,
Filho do crime e da morte
Vão buscar gosto ou flágício.

Amor …?! Nem amor nem nada,
O mais que lá vão quaisquer
Buscar a tais labirintos
É carne martirizada
Quem nem quizeram sequer
Se lá não foram famintos.

Pois que amor darão, aquelas
Com quem nos vamos deitar
Mas mal olhamos na rua?

(José Régio)

109 - O Meu rio chama-se TEJO

Foto: Shark inho

O Tejo

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(Alberto Caeiro)

30 novembro, 2007

108 - Rosas Bravas

Foto: Shark

Rosas Bravas
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha

107 - Outono

Foto: Shark

Dia Cinzento de Outono

Sentado à minha janela
Olho através da vidraça
E vejo as folhas que caiem
E toda a gente que passa.
Baloiçando-se pelos ares,
Tombam as folhas aos pares
Sobre as pedras da calçada
Já foram verdes viçosas,
Deram força à nossa vida
E vida às próprias rosas
Agora, murchas, sem cor
Jazem no chão desprezadas.
Pois mesmo assim já calcadas
Nos transmitem seu amor,
Vão dar alento à terra
P´ra termos vida melhor
Este Outono tão cinzento
Traz-me triste cá por dentro
Também um dia a terra
Que me deu o meu sustento
Me consome e me transforma
No seu próprio alimento.
E esta dança da vida
Num constante movimento
Nunca mais chega ao fim
É isto mesmo que eu penso
Neste dia tão cinzento

(Luís Coelho Albernaz)

17 outubro, 2007

106 - Pôr do Sol

Foto: Shark inho

Pôr do Sol

É hora do sol-pôr;
É altura de gritar;
Pássaro, criança, flor,
Eis o que falta: Amar.

É hora do sol poente;
A terra reveste-se de verdade;
A humanidade está doente,
Onde está a felicidade ?

É aqui ao entardecer,
Que me sinto desfalecer …
Os homens são marotos

Brincam, desfazendo os laços quase rotos …
E é nesta hora ao anoitecer
Que eu sinto o quanto à p´ra fazer …

(Fernanda de Sampaio)

16 outubro, 2007

105 - Gaivota

Foto: Shark inho – Outubro 2007

Tu

Tu és uma gaivota,
Que voa com asas quebradas.
És grito oprimido,
Em lábios exitantes.
És sonho de calma,
Em mar revolto.
Tu,
Tu és tudo o que és,
E tudo o que eu gostaria que fosses.
Tu…
És tu, apenas.

(Fernanda de Sampaio)

104 - Mar

Foto: Shark inho

Mar

Belo…
Puro…
Calmo…
Violento …
Só tu.
Tu que me fascinas, com a tua grandeza.
Tu que deslumbras, com a tua imensidão.
Tu que me acalmas, com a tua calma.
Tu que me dás Páz, com a tua violência.
Tu que me embriagas, com o teu perfume.
Só tu.
Tu és beleza
És o indefinido definido.
És água fria,
Em contacto com sangue quente.
Só tu.
Fascinas-me !!...

(Fernanda de Sampaio)