30 agosto, 2007

75 - Máquina fotográfica

Foto: Shark inho – Setembro 2005

A MÁQUINA FOTOGRÁFICA
É na câmara escura dos teus olhos
Que se revela a água

Água imagem
Água nítida e fixa
Água paisagem
Boca naiz cabelos e cintura
Terra sem nome
Rosto sem figura
Água móvel nos rios
Parada nos retratos
Água escorrida e pura
Água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
O tempo de onze meses de ordenado;
Por isso, meu amor, viajo e nado
Não por ser português mal empregado
Mas por sofrar dos pés
E estar desidratado.

Chego.
Mudo de fato. Calço a idade
Que melhor quadra à minha solidão
E saio a procurar-te na cidade
Contrastada violenta negativa
Tu única sombra murmurada
Única rua mal iluminada
Única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei. É na distância
Onde chego de taxi.
Sou turista
Com trinta e seis hipóteses no rolo;
Venho ao teu miradouro ver a vista
Trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
Revelo-te retoco-te repito-te
Compro um frasco de tédio e um aparo
Nas tuas costas ponho uma estampilha
E escrevo aos meus amigos que estão longe
Charmant pays
the sun is shinning
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
Assino-te destino-te comando-te
És o lugar concreto onde procuro
A noite de passagem o abrigo seguro
A hora de acordar que se diz ao porteiro
O tempo que não segue o tempo em que não duro
Senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
Surges letra por letra, película sonora,
Do sentido à vogal do tema à consoante
Sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
A cãibria do gagarejo o erro do sextante
O acaso a maré o mapa a descoberta
Dum novo continente itinerante.

(José Carlos Ary dos Santos)

29 agosto, 2007

74 - Casa abandonada

Foto: Shark inho

Abandonada

A velha casa onde eu morei outrora
E que de há muito está desabitada,
Silenciosa envolveu-me, ao ver-me agora,
Num triste olhar de amante abandonada.

Com que amargor no íntimo lhe chora
Uma alma sensitiva e ignorada
Que não tem voz para queixar-se, embora
Se veja só, de todos olvidada !

Casa deserta e fria que envelheces
Ao desamparo, sem uma afeição,
Bem sinto que me vês, que me conheces

E relembras os dias que lá vão ...
Eu esqueci-te, amiga, e tu pareces
Toda magoada dessa ingratidão ...

(Roberto de Mesquita)

73 - Ruínas

Foto: Shark inho

RUÍNAS

Como sois tristes, casas derrocadas,
Com vegetais daninhos por mobílias,
Esquecidas de todos, desoladas,
Sem o vivo bulício das familias !

Enquanto os transeutes vos encaram
Como cousas inertes e banais,
Com que amargura saudade vós cismais
Nos que em remotos dias vos amaram !

No vosso seio, esqueletos carcomidos,
Como um velho doente e olvidado,
Geme asilada a alma do Passado,
Mas raros são os que ouvem seus gemidos.

(Roberto de Mesquita)

72 - Quadras soltas

Foto: Shark inho

SOLTAS

Meu coração é moinho,
E tu, amor, a moleira.
As velas são saudades
Moendo-me a vida inteira.
........................................

(Augusto Pires)

28 agosto, 2007

71 - Toada de Portalegre

Foto: Shark inho – Maio 2007

Toada de Portalegre
(versão integral)

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela ...
Cheia de bons e maus cheiros
De casas que têm história,
Cheia de ténue, mas viva, obsidiante memória,
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncio e de espantos,
- Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimada,
(Lá vem o vento soão !,
Que enche o sono de pavores,
faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão ...)

Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morara nela,
Tinha então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante duma janela.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda e ciranda
De redor da minha casa,

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela !
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despa,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longinquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
De aquele silêncio imenso,
Eu sentia o chão fugir-me,
- se abriam diante dela,
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Na casa em que morei, velha,
Cheia de bons e maus cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos, cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos
À quel quis como se fra
Tão feita ao gosto de outrora
como ao do meu aconchego ...

Ora agora,
Que havia o vento soão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento soão
De se lembrar de fazer ?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento soão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela
O testemunho maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer ?
Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus ...
E, louvado seja Deus !
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a ceta cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela ...
Como é que o vento soão
Que enche o sono de pavares,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me truxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz ?
Coisas que tereis pidor
De contar seja a quem for
Me davam então tam vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
Coisas que tereis pidor
De contar seja a quem for
Me davam então tam vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Me davam então tal vida
- Não vivoida! Mas morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão –
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do vento soão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados ...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Confia uma sementinha
Perdida entre a terra e céus,
E o vento a traz à varanda
Daquela
Minha janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morara nela !
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acáciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu, dom de Deus !
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus
Como dedos apontados
De gigantes enterrados ...
Quem desespera dos homens
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar dos animais,
De humanizar coisas brutas,
Tais e tantas,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for.

O amor, a amizade, e quantos
Sonhos de cristal sonhara,
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixado só, nulo, atónito,
A mim, que tanto esparara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que a morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver ...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos penhascos, oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncio e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão ! obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava !
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura ! ... mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

(José Régio)

70 - Bairro do Charquinho (Benfica)

Foto: Shark inho – Maio 2007

Fadistas da Velha Guarda

Em tempos que já lá vão,
O fadista era gingão,
alcunhado de rufia ...
De calça estreita e samarra,
Chapéu largo e uma guitarra
Era alguém na Mouraria

Gostava de ir ao Charquinho,
Aonde havia bom vinho
E fresca sardinha assada ...
Outros mais para lá iam
E todos se divertiam
Em fados à desgarrada

Ia ao Ferro d’Engomar,
Muitas vezes petiscar,
Ou mesmo ao Senhor Roubado ...
E sempre de farra em farra,
Entre mãos uma guitarra,
O corrido era seu fado.

Agora tudo mudou,
A Mouraria passou
Para a tela dos artistas ...
No seu lugar uma praça,
Por onde o fado não passa,
Nem já lá param fadistas.

Agora não há gingões,
Quem canta, canta canções,
Direito, bem aprumado ...
E a alcunha do fadista,
Passou a ser a de artista
Que ao swing, chama fado.

Um apelo, agora, faço
Vai com ele o meu abraço
Para o fado que cobiço:
Que os novos que o palco tem,
Passem a cantar, também,
O nosso fado castiço.

(Luciano Marques)

27 agosto, 2007

69 - O Calceteiro

Foto: Shark inho – Junho 2007

A minha profissão

Fui calceteiro, aliás
Muitos anos trabalhei
Muitas léguas caminhei
Andando só para trás
Mas hoje, não sou capaz
De tal arte trabalhar
Não me posso corcovar
E andar como o caranguejo
Nesse trabalho desejo
Que eu sabia executar.

No tempo em que trabalhava
Portanto, a fazer clçada,
Era uma coisa engraçada,
Que amíude eu escutava,
Quando alguém comparava
O alceteiro ao Doutor
Dando-vos igual valor,
Se a memória não me escapa
De que é a terra que tapa
Nossos erros de maior.

Que digam que o calceteiro
Tapa os sus erros com terra
Isso ainda se tolera,
Tem muito de verdadeiro.
Eu porém, sou o primeiro
A repor esta verdade
Não pode haver igualdade
Entre o Doutor e aquele
Que ao Doutor, os erros dele
São doutra profundidade.

(João Augusto Mendes)

68 - O caracol

Foto: Shark inho – Junho 2007

O Caracol

Pode a noite ir já distante
Eo sol arder como brasa:
Mais atrás ou adiante,
Eu paro, e cheguei a casa.

A ave de volta ao ninho,
Rasgua o ar com sua asa,
Que eu, devagar, no caminho,
Direi já que estou em casa.

Todo o tempo me sobeja,
No monte ou na campina rasa,
Em qualquer lado onde eu seja.
Se paro, cheguei a casa

(Cabral do Nascimento)

26 agosto, 2007

67 - Amigos e cerveja

Foto : Shark inho

Mesa de café

Amigos e cerveja é a minha tarde
A noite alinha-me os ossos
Não fica, de tudo o que arde,
Mais do que uns tantos destroços.

Alguém pintaria a mesa:
Eu prefiro levantar-me
A minha vida está presa
A outra espécie de charme.

(Vitorino Nemésio)

66 - Caminhos

Foto: Shark inho – Agosto 2007

Caminhos

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sózinho.

E longe, é muito longe, há muito espinho !
Paraste a repousar, eu descancei !...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

E no monte escabroso, solitário.
Cirta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como areia !... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

(Camilo Pessanha)

65 - Janelas Fechadas

Foto :Shark inho
(Nota: Janela de uma rua de Serpa)

Janelas de Estremoz

Janela fechada,
Cortina corrida ...
Nem flor a perfuma.
Nem moça a enfeita.
-: Ninguém se lhe assoma.
Janela tão triste,
Nem ao Sol aberta ...

Em toda a cidade
se repete a história
Mil vezes; mil vezes,
Se olhares a janela
Ou desta ou daquela
Casinha caida,
A vez divorciada
Do Sol e de tudo
Que graça lhe dera.

Há vinte janelas
Na casa da esquina ?
- Na rua de cá
Dez estão fechadas;
Outras dez, fechadas
Na rua de lá.
Ah! tão retraídas !
Ah! tão agressivas !

Que pessoas vivas
Foi que as condenaram ?

Ó Janelas mudas
Pobres prisioneiras !
Que pessoas vivas,
Por que expiação,
vivem na prisão
em que vos meteram ?

- sem sol que as aquente ...
Sem flor que as alegre ...

Janela serrada
Cortina descida
Mocinha escondida
Por trás da janela
- quanto mais não vale
A rosa encarnada
Que a rosa amarela !...

(Sebastião da Gama)

64 - O Galo

Foto: Shark inho – Janeiro 2006

Có-Có-Ró-Có-Có

Já vem rompendo a aurora
Festiva, criadora ...
No céu uma estrelinha
Inda se vê reluzir
À luz que se adivinha.

É hora de acordar,
E de principiar
O homem seu labor;
Hora bendita e santa
De que depende tanta
Honra, ventura, amor.

E então o galo altivo,
Alegre e sempre tão vivo,
Olhando céu e terra
Atento e vigilante,
Levanta a voz vibrante
Como um clarim de guerra,

E ou em coro, ou só
Canta:
Có-Có-Ró-Có-Có
.................................

Meio-dia. O Sol intenso
Requeima o plaino imenso ...
Sob o calor do Verão
O homem sua trabalhos
E pesam mais os malhos
Na debulha do grão.


Co’a força do calor,
Sentem certo topor
As almas fatigadas ...
Na torre da igreja
Que lá ao longe alveja
Dão doze badaladas ...

E o galo, em coro, ou só
Canta:
Có-Có-Ró-Có-Có
................................
O Sol vai pôr-se agora ...
À mata acolhedora
Recolhem passarinhos;
E em busca do curral
Já rabanho e zagal
Vão seguindo os caminhos.

Nessa hora de harmonias
Em que as Ave-Marias
Soam nos campanários,
A tarde cai amena;
Surgem estrelas na arena
Do céu, quais lampanários ...


E o galo, em coro, ou só
Canta :
Có-Có-Ró-Có-Có
..................................
Na aldeia tudo dorme;
E sob o céu informe
Dessa noite avança,
Em torno do casa,
O silêncio geral
É grato a quem descansa.

Nesse momento grave
Só o pio de alguma ave
quebra a monotonia ...
É meis-noite agora;
Soa na torre a hora
Vai entrar novo dia ...

E então o galo altivo,
Alegre e sempre vivo,
Olhando o céu e terra
Atento e vigilante,
Levanta a voz vibrante,
Como um clerim de guerra,
E em coro, ou só,
Canta:
Có-Có-Ró-Có-Có

(autor desconhecido 1952)

63 - Poemas de Deus e do Diabo

Foto: Shark inho – Agosto 2007

CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui” !
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali ...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade !
Não acompanhar ninguém.
- Que vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não não vou por aí ! Só vou por onde
Me levam meus próprios passaos ...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: “vem por aqui” ?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí ...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada !
O mais que faço não vale nada.

Como, pois,sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos ? ...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil !
Eu amo o Longe e a Miragem.
Amo os abismos, as torrentes, os desertos ...

Ide ! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios ...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosos intenções !
Ninguém me peça definições !
Ninguém me diga: “vem por aqui” !
A minh vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou ...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí !

(José Régio)

62 - Candeeiro de petróleo

Foto: Shark inho

A NOSSA CASA

A luz acesa
(petróleo débil)
E tu inquieta, feliz, à minha espera.
Cismam livros e versos sobre a mesa.
Sonolentos, os cravos na varanda
Cabeceiam nos vidros.

Ando lá fora.
(Lá fora, a ventania,
A noite, o frio dos astros,
A Poesia decerto...)

À luz débil, insistes no bordado.
Os nossos filhos dormem
(levantaste-te agora para vê-los ...)

Irónica, a Poesia
Sabe que ando lá fora a procurá-la,
Indiferente ao vento e à noite fria.

(Sebastião da Gama)

25 agosto, 2007

61 - Carnaval

Foto: Shark inho - Fevereiro 2006

Máscara de Carnaval

Como te quero e admiro
Máscara de Carnaval ...
Máscara querida,
Porque não és fingida ...
Tu não mentes,
Dizes o que sentes,
És o que és ...
Fica conosco
O ano inteiro;
Ensina o homem
A ser verdadeiro;
Tapa-lhe a cara
De máscara disfarçada,
Que faz do mundo actual,
Um terrivel
E constante Carnaval.


(Maria Alice Fonseca)

60 - O cata-vento

Foto : Shark inho – Junho 2005

O cata-vento

Viva lá, senhor galo cata-vento !
Fale à gente, não seja malcriado !
Lá por ter o poleiro no telhado,
Não suponha que está no firmamento !

Como percebe de onde sopra o vento
E sabe de equilibrio o seu bocado,
Já se imagina bacharel formado,
Julga que tem carradas de talento !

Vaidade ! Pedantismo sem mistura !
No fundo, duas tretas, bagatela,
Que só entre patetas faz figura.

O que você, amigo, não revela,
É que antes de ser galo, nessa altura,
Foi uma reles tampa de panela !

(Belmiro)
Livro de Leitura da 3ª classe de 1938)

59 - LIS(BOA) a Antiga

Foto: Shark inho – Outubro 2006

Pregões de Lisboa

Manhã cedo. O Sol dourado
A tudo vai dando cor;
Há já vida na cidade,
Já nela se ouve rumor

Vendedores ambulantes
Começam a aparecer.
Vamos lá ver, ó freguesas,
O que trazem p’ra vender

Oito horas. À nossa porta
Passa agora a tia Chica.
Com sua voz compassada
Apregoa: “Fava rica”.

Lá vem também a peixeira
Com seu trajo pitoresco,
Dizendo: “Oh ! vida da costa”
Ou então: “Carapau fresco”.

E agora, de toda a parte
Se ouve gente que apregoa,
Gritando : “Quem quer laranja,
Quem compra laranja boa ?”

“Merca o cabaz de morangos ...”
“Século. Noticias. Voz ...”
“Oh ! boa amora da horta ... “
“Quem quer amêijoas p´ra arroz ? “

“Erre,Erre, mexilhão ...”
“Oh! Pescadinha marmota ...”
“Compra raminho de flores ...”
“Oh ! figos de capa rota ...”

E com a lata no braço,
Fresquinha qual fresco arroio,
Passa a linda vendedeira,
Cantando : Oh ! queijo saloio ...”

E tudo lá vão deixando,
P’la cidade, os vendedores.
Mas, para ganhar a vida
Que canseiras, que suores !


(autor anónimo)

58 - O sapo

Foto: Shark inho – Maio 2006

O sapo

- Olha um sapo! Ih ! que feio! ...
Vou matá-lo num instante
E traçar de meio a meio
Animal tão repugnante.

Eu não sei para que medra
Bicho tão feio e tão mau:
Vou esmagá-lo co’uma pedra
E depois cravar-lhe um pau.

- Não o mates. Porque odeias
O inofensivo animal,
E matá-lo tanto anseias ?
Acaso já te fez mal ?

- A mim não: mas, porventura,
Não sabes que os desta raça
Fazem muita desventura
E causam muita desgraça ?

- Pobre do sapo, coitado,
Que não faz mal a ninguém !
Porque há-de ser odiado,
Se afinal só nos faz bem ?

- Lança veneno a distância
E de cegar é capaz ...
- Revela ignorância
Quem to disse, meu rapaz.

- É feio não gosto dele;
Repara que boca enorme !
Não vês as rugas da pele
Como o tornam tão disforme ?

- Em tudo quanto tens dito
Há somente esta verdade:
“o sapo não é bonito”
Tudo o mais é falsidade.

É feio, sim: mas que importa
Que seja o pobre animal,
Se limpa o jardim, a horta
Sem nos causar nenhum mal ?

O prejuizo que evita
Sabes lá a quanto monta ?
Destrói, no campo que habita,
Bichinhos vários sem conta.


Vermes, caracóis, insectos,
Alguns bastante daninhos,
De que os campos são repletos
Come-os como passarinhos.

Merece-nos, pois, respeito
E as melhores atenções.
Ser feio só é defeito,
Se s~so feias as acções.

É feio ? Sim, na verdade,
Não tem o talho perfeito:
Mas que tem a fealdade ?
É o ser feio um defeito ?

Não julgues as criaturas
Somente pelas feições:
Vê se são dignas e puras,
Julga-as por suas acções.

(Do livro de leitura da 3ª classe de 1951)

57 - A neve

Foto: Shark inho – Março 2006

A Neve

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim ...
Será chuva ? Será gente ?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim ...

É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na queita melancolia
Dos pinheiros do caminho ...

Quem bate assim levemente
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente ?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria ...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu !

Olho-a atravez da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça,
Na brancura do caminho ...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que evança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
De uns pézitos de criança ...

E descalcinhos, doridos ...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro bem definidos,
- depois em sulcos compridos ,
Porque não podia erguê-los ! ...

Quem já é pecador
Sofra tormentos ... enfim !
Mas as crianças, Senhor
Porque lhes dais tanta dor ?!...
Porque padecem assim ?!

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza ...
- e cai no meu coração.

(Augusto Gil)

24 agosto, 2007

56 - Cinco horas

Foto: Shark - Julho 2005

Cinco Horas

Minha mesa no Café
Quero-lhe tanto ... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber ...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada
Buscando pela ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
- Pois há um ano que fumo –
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beija-la, claramente).

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca se desloca

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
A destes vislumbres são
As minhas maiores saudades ...

(Que história de oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou ...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo
- Não me faz nenhum castigo
Que o tempo passa em corrida
.
Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
P’ra mim não há melhor festa,
Nem mais nada cho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje – que galardão! –
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

(Mário Sá Carneiro)