20 agosto, 2008

213 - Sapatos velhos

Foto: Sharkinho

Os Sapatos

Nos cemitérios urbanos
vamos sepultando os passos,
passos jamais repetidos,
uns certos, outros em falso,
(todos diminuem a viagem,
que os roteiros diferentes
vão dar na mesma estalagem.)
Ó sapatos soluçantes
molhados (da água da chuva?)
dançamos no tempo gasto
a valsa lenta de abril,
defronte, as sandálias brancas,
mais brancas e imóveis hoje.
Recordo as noites distantes
quando pisáveis no oitão,
leve, leve, parecia
que nem tocáveis no chão,
vinha a moça de cabelos
soltos e abria o portão,
Dos longos caminhos dantes
só ficaram sete palmos.
Serei o moço calçado,
De olhos abertos, confiantes,
Em novos itinerários
Dos sapatos soluçantes.

(Mauro Mota)

212 - Mulher

Foto: Sharkinho

Canção de Mulher e Tempo

Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia
:sobejos de canto e falas
e o cheiro na ventania.
No verde morno do Janga
os rastros de espuma fria.
Bolem no azulejo as sombras
enxutas das mãos na pia.
(Jeito de corpo estremece
no lençol que te cobria.)
Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia.
Só não te acho a ti mesma
no mistério da agonia:
Sumidas cores e carnes
(camuflada autofagia).


Mauro Mota

19 agosto, 2008

211 - Depois da ceifa

Foto: Charquinho

Restolho

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
....................................................................
Mafalda Veiga

210 - Margem esquerda

Foto: Charquinho

Margem Sul

Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Ó margem esquerda do Verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Doce raiva em Baleizão

Urbano Tavares Rodrigues

209 - Como pássaros sobre o rio

Foto:Sharkinho

É estranho

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
Henriqueta Lisboa

208 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Sharkinho

Lisboa

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada,
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Joaquim Pessoa

207 - Entre o Tejo e Odiana

Foto: Charquinho

Écloga de Jano e Franco

Dizem que havia um pastor
entre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per ua moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor, do Alentejo
era, e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
d’água e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano , para salvar
o gado que lhe ficou,
foi a esta terra buscar;
e um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou
com o seu gado e com o seu fato,
com tudo se agasalhou
em ua bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, a ribeira,
Joana acertou de ir ver,
que andava pela beirado
Tejo a flores colher.

Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava;
fermosa bem parecia
aos olhos de quem a olhava.
Jano , em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado;
Joana flores colhia
Jano colhia cuidado
Bernardim Ribeiro

18 agosto, 2008

206 - O Mar

Foto:Sharkinho

A Ver o Mar

Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que os meus olhos se viram no seu olhar
Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar
Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar
Daria prá pintar todo azul do céu
Dava prá encher o universo da vida que eu quis prá mim
Tu...do que eu fiz foi me confessar
Escravo do teu amor, livre para amar
Quando eu mergulhei fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul, de todo azul do mar
Foi assim, como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Onda azul, todo azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Foi quando eu mergulhei no azul do mar
.......................................................................
Flávio Venturini e Ronaldo Bastos

205 - Pele Vermelha

Foto: Sharkinho

Ser Índio

É ter no sangue o amor
À sua raça
É não esconder a própria
Identidade
É ter um pedaço de terra
É pertencer a uma massa.
É não padecer na desgraça
É então sobreviver
É devolver ao seu povo a
Paz e a justiça, em meio às ameaças.
Ser índio
É preservar a natureza
Sem explorar a mãe-terra
É tentar conservar
Toda essa beleza!
Renilde Cavalcante Alves

204 - Azul sem fim

Foto : Sharkinho

Poema azul

O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia
Os cabelos do meu bem.
Que olhar o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra ao céu e à lua cheia
Um beijo meu.
- O mar sonoro, o mar sem fundo, o mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo, intimamente, a tua voz
segue o mais secreto bailar do meu sonho, que momentos há em
que eu suponho seres um milagre criado só pra mim.
Sérgio Ricardo

203 - Cacho de Uvas

Foto: Sharkinho


Sabedoria



Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!


Faze da tua realidade
uma obra de beleza


Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Ronald de Carvalho

202 - Na estrada

Foto: Sharkinho


Sou Camionista


Tenho muitos galhardetes, bonecos e bandeirinhas
Tenho muitos calendários com vaidades de maminhas
Tenho muitos amoletos p'ra que a estrada me ilumine
Tenho sonho, tenho cama, a minha casa é a cabine.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…


Tenho vinte e quatro rodas e cavalos p'ra puxar
Tenho um rolo de papel p'ra quando me quero assuar
Tenho duas tatuagens, muitas curvas por fazer
Uma diz amor de mãe, a outra diz talvez.


Tenho sono, tenho fome, mas nunca quero parar
Só não sei por que encosto quando vejo um polegar
Tenho braços bué da fortes que é p'ra agarrar no volante
Mas sinto logo uma fraqueza quando ligas o cantante.


Sou camionista, sou o maior
Sou camionista, sou o maior
Tenho a minha auto-pista
Onde sou rei e sou cantor…

Música ligeira portuguesa – Autor desconhecido

201 - Poema de Agostinho Neto

Foto: Sharkinho

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.
Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo
Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)


(Agostinho Neto)

200 - Pinba pumba, laranja, limão....

Foto: Shark inho
SALTO À CORDA

O cordão que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma
que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.
Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de pinhas
toque de campainhas?)
(Pedro Tamem, "Poemas a Isto")

16 agosto, 2008

199 - A Flor do Aloendro

Foto: Charquinho

Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa,
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
Para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

Joaquim Pessoa

26 julho, 2008

198 - Pastor do Alentejo

Foto: Shark

Pastor

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado

De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor
(Do folclore Alentejano)

24 julho, 2008

197 - Rosas macias como malvas

Foto: Shark

Rosas

Rosas cujo perfume, em noites enluaradas,
é um sortilégio etéreo a transpor as rechãs;

rosas que á noite sois risonhas, flóreas fadas,
de cútis de veludo e tenras carnes sãs.

Sejais da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmãs,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretização dos risos das Manhãs!

Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
há nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêssego em sazão.

Daí que eu possa gozar, ao vosso colo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emoliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!
Gilka da Costa de Melo Machado
(Rio de Janeiro 1893 - 1980).

10 julho, 2008

196 - Degraus

Foto: Shark

DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo


(Mário Quintana)

29 junho, 2008

195 - Irresponsabilidades ecológicas

Foto: Shark
Meio Ambiente

Desde o início, tudo mudou
O meio ambiente, já se transformou,
Tapamos nossos olhos, para não ver
Tudo que está acontecendo

Não queremos perceber
Animais famintos, outros extintos
As florestas mudaram
Muitas árvores derrubaram.

O povo consumista, não quer saber
A natureza pede ajuda,
Sem ninguém pra socorrer

A mata está sufocada
As pessoas ficam caladas
Fábricas, fumaças...
Dinheiro sujo, só desgraça.

Temos que agir,
O mundo vai cair
Talvez caia em cima de nós
E ninguém escutará nossa voz.
Caroline M. Costa

28 junho, 2008

194 - A todas as MULHERES

Foto: Shark

São as Mulheres como tu
Que pela consciência,
encontram respostas para todas as perguntas
Que pela fraternidade, possuem
não só uma vida mas todas as vidas
Que pela dedicação,
transformam o cansaço numa esperança infinita
Que pelo pensamento,
ajudam a realizar o azul que há no dorso das manhãs Que pela emancipação,
fazem de nós mulheres e homens com a estaturada vida,
Capazes da beleza, da igualdade, da justiça e do amor
São as mulheres como tu
Que podem transformar o mundo

(Joaquim Pessoa)