16 agosto, 2007

24 - Solidão



Quantos dias
Sem amor eu já vivi...
Mesmo tendo a meu lado
Outro alguém!
Quantos dias de amor
Eu já perdi...
Quantas lágrimas sozinha
Eu chorei...
Quantas vezes
Para mim mesmo, menti.
Não quero amar, dizia:
Eu sou feliz assim.
Mas a minha alma
Disfarçando a dor
Morria a pouco e pouco
Sem amor.



Susete Evaristo
(foto: CHARQUINHO - 8 Julho 2007

23 - Quero

Quero
Quero ser como o sol
Para te aquecer;
Quero ser como a lua
Iluminando a escuridão;
Quero ser como o vento
Para afastar de ti
Essa solidão.
Quero ser Mulher
Para te amar
Quero ser como tu
O MEU SOL E O MEU LUAR !


Susete Evaristo (G)    
Foto: CHARQUINHO - Janeiro 2006

15 agosto, 2007

22 - Mulher

Foto: CHARQUINHO Setembro 2005

Ser Pessoa

Não quero ser
Esmagada, oprimida
Forçada, esquecida
Culpada, reprimida
Anulada, divina
Calada, dócil
Azeda, fingida
Empurrada, domesticada
Amargurada
Assomando só à porta
Não quero estando viva
Estar morta

Quero ser companheira igual
Quero ser mãe por escolha
Quero ser amante assumida
Quero poder escolher o certo e o errado
Quero ser regente da inha vida

Quero ser pessoa respeitada
Tirar a venda que me traz os olhos encobertos
Partir para a Vida... Plena
De braços abertos.

(Ana Abel)

14 agosto, 2007

21 - Era um barquinho pequenino pequenino....

Foto : CHARQUINHO - Julho 2007

Barco no rio

Lá vai o barco tão lindo
Pelo rio
Que está rindo !
Lá vai o barco a correr
Sobre a água
A estremecer!
O rio estremece e abre
O caminho
Para passar o barquinho
Sempre contente e cantante
Desde montante a jusante.
Mas o barco corre, corre
Num constante deslizar
Está quesa a chegar à foz.
Nos longes do nosso olhar
Parece casca se noz.
Pronto! Lá entrou no mar!
E calou-se a minha voz.

(Alice Gomes)

20 - Flores

Tantas flores

Tantas flores quietas,
Suspensas desde o tempo ido ...!

Aguardam o indefinido,
Através horas inuietas
Através horas sem sentido ...

E sofrem de agudas setas ...
O vago ramo prometido !

(Saul Dias)

Foto: CHARQUINHO - Janeiro 2007

19 - IN TEMPORAL


Nirvana

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vemali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso ...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais.

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Sóvê com tédio, em tudo quanto fira,
A ilusão e o vazio universais.

(Antero de Quental)
Foto: CHARQUINHO - Julho 2007

18 - Veleiro

Manhã cinzenta

Ai madrugada pálida e sombria
Em que deixei a casa dos meus pais...
E aquele adeus que a voz do mar trazia
Dum lenço branco, a acenar no cais...


O meu veleiro – era de espuma fria –
Levava-o o furor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais ?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
Nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta – mais nenhuma:
Na ilha que o passado envolve em bruma,
Um lenço branco que me acena ainda...

(Natália Correia)

Foto: CHARQUINHO

17 - Porquê ?

Porquê ?

Porque me deixas só de mãos vazias
Sobre meu peito
Em gesto desesperado ?
Porque não vens amor,
Encher meus dias
E com teus beijos
Envolver-me em doce encanto?

Porque persiste em mim
Esta agonia...
E no meu peito este meu choro,
Este meu pranto ?...

Cada dia que passa
É mais um dia,
Que a morte lentamente
Vem buscando.



Susete Evaristo

Foto: CHARQUINHO - Junho 2007

16 - (Lis)boa todos os dias

Foto: CHARQUINHO - Maio 2007

...................................

Sobre sete colinas construida,
É tão remota a sua antiguidade,
Que a crista d’uma estrela foi escolhida,
Talvez na paleolitica idade,
Para local qu deu inicio à vida,
Do núcleo originante da cidade.

Que fenicios e gregos habitaram
E mais povos antigos estimaram.

Do seu nome, a origem discutida,
Não hé certeza dónde é procedente:
Muitas vezes tem sido atribuida
,
De Noé a um terceiro descendente;
Outra versão também admitida,
Dos fenicios diz que é proveniente;
Mas é lenda no povo enraizada
Que Olissipo é de Ulisses derivada.

Quando a fortificaram os romanos
A velha Olissipo era já famosa,
E Felicitas Júlia, muitos anos,
Lhe chamaram; Que terra deleitosa!
As invasões, mais tarde, dos germanos
Lhe deram história incerta, duvidosa
.
E os mouros o seu nome corrompendo,
De então p’ra cá, Lisboa ficou sendo.

Do seu castelo, os muros reforçados
São, de valor da urbe, indicação:
Altaneiros, compridos, ameados,
Grã prespectiva história lhe dão.
E as paredes dos seus templos sagrados
Erguidas pelo nosso ardor cristão,

Dão segura imponência, sem igual
À terra que é rainha ocidental.
..................................

(F.B.O.)

14 - Alentejo

Alentejo

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Pátria que à força escolhi !
Quando cheguei, quiz-te mal,
Alentejo-ai-solidão...
Julguei eu que te quiz mal.
Chegava do vendaval
Tão cego que nem te vi !

Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Adro da melancolia!
Tua tristeza me pesa,
Alentejo-ai-solidão...
Quanto, às vezes, me não pesa!
Mas fora de essa tristeza,
Pesa-me toda a alegria.

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Meu Norte-Sul-Este-Oeste
Voltei ferido da guerra!
Alentejo,-ai-solidão...
Faminto voltei da guerra!
Mendiguei de terra em terra,
Esmola, só tu ma deste
.

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Oceano de ondas de oiro!
Tinha um tesoiro perdido
Alentejo-ai-solidão...
Que eu já dera por perdido!
Nos teus ermos escondido
Vim achar o meu Tesoiro.

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Convento do céu aberto !
Nos teus claustros me fiz monge,
Alentejo-ai-solidão...
Em ti por ti me fiz monge.
Perdeu-se-me a terra ao longe,
Chegou-se-me o céu mais perto.


Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Padre-nosso de infelizes!
Vim coberto de cadeias,
Alentejo-ai-solidão...
Coberto de vis cadeias !
Mas estas com que me enleias,
Deram-me asas e raizes.


(José Régio)

Foto: CHARQUINHO - Novembro 2007

13 - Desespero


DESESPERO

Dei de mim tudo o que tinha
Vida, Amor,
Paixão e Sorte,
Carrego a vida vazia,
A minha esperança é na
MORTE!

(Susete Evaristo)

Foto: CHARQUINHO - Maio 2006

12 - Senhora de Guadalupe

Foto: CHARQUINHO - Dezembro 2006



Procissão

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

(António Lopes Ribeiro)

11 - Ruínas

Foto:CHARQUINHO - Agosto 2007

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

13 agosto, 2007

10 - Palácio da Ventura

O Plalácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino de amor, busco anelante
O palácio encantado da ventura !

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura ...
E eis que subito o avisto, fulgurante,
Na sua pompa e aérea formusura !

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais !

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor ...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais !

( Antero de Quental)


Foto: CHARQUINHO - Maio 2006

9 - Idades

A UMA RAPARIGA

Somos assim aos dezassete
Sabemos lá que a Vida é ruim!
A tudo amamos, tudo cremos
Aos dezassete eu fui assim.

Depois, Acilda, os livros dizem,
Dizem os velhos, dizem todos:
«A Vida é triste. A Vida leva,
A um e um, todos os sonhos

Deixá-los lá falar os velhos
Deixá-los lá ... A Vida é ruim ?
Aos vinte e seis eu amo, eu creio.
Aos vinte e seis eu sou assim.

(
Sebastião da Gama)

Foto: CHARQUINHO

8 - Nuvens

Foto: CHARQUINHO

A nuvem veio e o sol parou
Foi vento ou ocasião que a trouxe ?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.

Às vezes, qundo a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.

(Fernando Pessoa)

7 - O arvoredo

O ARVOREDO
Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta Floresta, em este som me perco
E sózinho medito
Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz da vida, e a deixa, e a toma
E nada tem sentido – nem a alma
Com que penso sózinho.

(Ricardo Reis)



Foto: Shark - Novembro 2006

6 - Fundo do Mar

Foto:CHARQUINHO - Fevereiro 2007
FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

5 - Amor !






























Foto: CHARQUINHO - Março 2007

Eu cantarei

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente

Farei que a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente
.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte
!

(Luiz Vaz de Camões)

4 - Sintra

Foto: CHARQUINHO - Maio 2007


SINTRA, TERRA DE ENCANTOS !

SINTRA!
Terra de encanto e beleza,
Prodígio da Natureza
Que toda a gente aprecia!

SINTRA!
Por seres fina e delicada
No mundo és falada
Com enorme simpatia.

SINTRA!
Dos arvoredos e montes,
Palácios, jardins e fontes,
Tua serra e linda cena!

SINTRA!
Em dias de sol risonho
Teu panorama é de sonho
Do Castelo até à Pena.

És um jardim
Ó terra ideal,
Pois cá p’ra mim
Outra assim não há igual!
A tua fama
Que não tem par
É nova chama
Que jamais se há-de apagar.


SINTRA!
Sob o manto azul do céu,
És prenda que Deus nos deu,
Ó maravilhosa terra!

SINTRA!
À luz branca do luar
Fazes lembrar um altar
Numa grinalda de serra!

SINTRA!
Dos grandes antepassados
E artistas afamados
De cultura genial!

SINTRA!
Com paisagens tão bonitas
És a sala de visitas
Mais linda de Portugal!

(J. Fernandes Badajoz)
Poeta Popular
Mucifal - Sintra