12 março, 2014

376 - O Porquinho


O Porquinho 
Vinicius de Moraes
 

Muito prazer, sou o porquinho
Eu te alimento também
Meu couro bem tostadinho
Quem é que não sabe o sabor que tem
Se você cresce um pouquinho
O mérito, eu sei
Cabe a mim também

Se quiser, me chame
Te darei salame
E a mortadela
Branca, rosa e bela
Num pãozinho quente
Continuando o assunto
Te darei presunto
E na feijoada
Mesmo requentada
Agrado a toda gente

Sendo um porquinho informado
O meu destino bem sei
Depois de estar bem tostado
 
Fritinho ou assado
 
Eu partirei
 
Com a tia vaca do lado
 
Vestido de anjinho
 
Pro céu voarei

Do rabo ao focinho
 
Sou todo toicinho
 
Bota malagueta
 
Em minha costeleta
 
Numa gordurinha
 
Que coisa maluca
 
Minha pururuca
 
É uma beleza
 
Minha calabresa
 
No azeite fritinha
Letras de Vinicius de Moraes


31 dezembro, 2012

375 - Há sem duvida quem ame o infinito

Foto Shark


Há sem dúvida quem ame o infinito
Há sem dúvida quem deseje o impossível
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles:
Porque eu amo o infinitamente finito
Porque desejo impossivelmente o possível
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser
Ou até se não puder ser.
Álvaro de Campos

28 dezembro, 2012

374 - Crepúsculo


Foto: Shark

CREPÚSCULO

A luz do dia empalidece,
O Sol mergulha no ocidente!
- Momento amargo para quem padece
E busca alivio ao coração doente!
Penas de amor são um tormento,
Mágoas somente o amor encerra,,,
- Um grande amor e um grande sofrimento
Vão sempre de mãos dadas pela terra!
Mas já de mil milhões de estrelas
O céu de Deus todo se abrasa...
- Vou esconder a mais brilhante delas
E edificar sobre ela a minha casa!
António Feijó

373 - Vaidosa

Foto; Shark

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida
Seria acompanhar-me ao cemitério

Chamam-te bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológico
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente de um relógio,

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor ... muito amor próprio.
Cesário Verde 

372 - POST - SCRIPTUM

Foto: Shark

Quando eu morrer, abram-me o peito
E, desta jaula onde houve um leão,
Tirem, o cárcere era estreito,
Meu velho e altivo coração.

Depois, sem dó e sem respeito,
Sem um murmúrio de oração,
Lancem-no assim, vai satisfeito,
À vala obscura, à podridão.

Para que durma e se desfaça
no lodo amargo da Desgraça
Por quem bateu continuamente,

Como um tambor que entre a metralha
Estoira ao fim de uma batalha,
Rouco, furioso, ansioso, ardente!
Guerra Junqueiro

371 - Está o Lascivo e doce passainho


Foto Shark

Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando;
O verso sem medida, alegre e brando,
Despedindo no rústico raminho.

O cruel caçador, que do caminho
Se vem calado e manso desviando
Com pronta vista e seta endireitando
lhe dá no estígio lago eterno ninho

Destarte o coração, que livre andava
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia foi ferido,

Porque o Frecheiro cego me esperava,
Para que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.
Luiz de Camões

19 dezembro, 2012

370 - A Portuguesa (original e completo)


Foto: Shark

I
Herois do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memoria,
Oh patria ergue-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira,
À luz viva do teu céo!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o teu sólo jucundo
O Oceano, a rugir de amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!

III
Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do resurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injurias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!


Henrique Lopes de Mendonça

369 - Hino da Maria da Fonte


Viva a Maria da Fonte 
Com as pistolas na mão 
Para matar os cabrais 
Que são falsos à nação 

É avante Portugueses 
É avante sem temer 
Pela santa Liberdade 
Triunfar ou perecer 

Viva a Maria da Fonte 
A cavalo e sem cair 
Com as pistolas à cinta 
A tocar a reunir 

Já raiou a liberdade 
Que a nação há-de aditar 
Glória ao Minho que primeiro 
O seu grito fez soar

368 - Já não se encantarãoos meus olhos nos teus olhos




Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
Já não adoçará junto de ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
E para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
Uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, 
Daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
…Do teu coração me diz adeus uma criança
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda


06 novembro, 2012

367 - Estátua


Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei-o, a debatê-lo,
Como a onda Crista de um rochedo

Segredos dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo,

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entre aberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado
Sereno como um pégalo quieto.

Camilo Pessanha



21 outubro, 2012

366 - Madrugada

Foto: Shark

Madrugada

Chegou num abraço a madrugada
Envolta em languidez tamanha
Trazendo, vinda não sei de onde
A cadência de uma sinfonia estranha

O brilho das estrelas reluzindo
Desce do céu em doce companhia
Sendo os teus olhos, a luz que alumia
Que aquece e incendeia, a minha poesia

Esta amizade que entre nós flutua
Cúmplices, vivendo de um amor antigo
Eternamente presos a uma só verdade

Embora longe sinto, estás comigo
Quero-te tanto mesmo não sendo tua
Meu terno amor, minha infeliz saudade

Susete Evaristo

365 - Manhã de Primavera




Manhã de primavera

Quando eu partir
Não quero:
Olhos chorosos nem flores na sepultura
Quando eu partir
Não quero:
Palavras embargadas nas gargantas
Quando eu partir
Que o sol brilhe em todo o seu esplendor
Quando eu partir
Que floresçam os campos e os caminhos
Quando eu partir
Que seja uma radiante manhã de primavera

Susete Evaristo

364 - Alentejo




Alentejo

Meu coração, acalma o alvoroço
Vê se sossegas um pouco no meu peito
Voltar ao Alentejo é doce encantamento
E o caminho como um mar imenso

Passado o Tejo ficamos bem mais perto
Desce já a paz dos campos sobre mim
E alegra-se o olhar quando depara
O rubro das papoilas… um jardim

Estar longe de ti um sofrimento
Que a vida me impôs, pecados meus
Saudade que me traz em desalento

Esta ânsia de rever-te terra minha
Faz-me acreditar que existe Deus
E regressar é sonho que acalento

Susete Evaristo

26 - Desejo


Desejo

Eu sinto a vida chegar
Em cada um dos teus beijos
Fale quem quizer falar
Que a vida só é vivida
Quando se morre em desejos.


Susete Evaristo
Foto: SHARK - Maio 2007

363 - Epílogo


















Julguei que na distância te esquecia…
Sem dor, sem qualquer ressentimento
Mas no tempo que passa dia, a dia
Nunca tu me sais do pensamento.

Não tenho mais prazer, ou alegria
Nem a luz do sol me dá algum alento
E o meu olhar que sempre te sorria
Só tem nos dias de hoje sofrimento 

Sempre que  lembro o jeito do teu ser
E a ternura que tinhas ao me ver
E o doce reluzir do teu olhar …

Amargo a minha desventura
Fecharam-se as portas da ventura 
Que a vida tem  só tristeza p’ra me dar.


Susete Evaristo

19 outubro, 2012

362 - A nossa casa











A nossa casa

A nossa casa amor, a nossa casa

Onde está ela amor, que a não vejo
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a num instante, o meu desejo

Onde está ela amor, a nossa casa

O bem que neste mundo mais invejo ?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos

Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Um país de ilusão que nunca vi

E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu ó meu amor, dentro de mim


Florbela Espanca

23 maio, 2012

361 - A Dança

Foto: Shark

A DANÇA

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


Pablo Neruda

360 - Bençãos

Foto: Shark

Bênçãos

Bem hajas, ó luz do sol
Dos órfãos gasalho e manto,
Imenso eterno farol
Deste mar largo de pranto

Bem hajas, água da fonte,
Que não desprezas ninguém:
Bem-haja a urze do monte,
Que é lenha de quem não tem.

Bem hajam rios e relvas,
Paraíso dos pastores!
Bem hajam aves das selvas,
Musica dos lavradores!

Bem haja o cheiro da flor
Que alegra o lidar campestre;
E o regalo do pastor,
A negra amora silvestre!

Bem haja o repouso à sexta
Do lavrador e da enxada:
E a madressilva modesta
Que espreita à beira da estrada!

Triste de quem der um ai
Sem achar eco em ninguém!
Felizes os que tem pai,
Mimosos os que tem mãe!
Tomás Ribeiro





359 - Água corrente

Foto: Shark

ÁGUA CORRENTE

Água clara da corrente
Que vais tu a lamentar?
São lembranças da nascente
Ou pressa de ir ter ao mar?

Correndo, correndo,
Sem nunca parar,
Em busca do rio,
Caminho do mar,
De noite e de dia,
A água a correr,
ao rio irá dar,
Ao mar há-de ir ter.

Que dizes tu ribeirinho?
Que dizes, que eu não te entendo?
Não te cansas no caminho,
A toda a hora correndo?

Lava roupa à lavadeira,
Põe a azenha a trabalhar,
Não vás assim de carreira,
Tens tempo de ver o mar…

In Livro de leitura da 4ª. classe edição 1931

22 maio, 2012

358 - Pregões de Lisboa


Foto: Shark

Pregões de Lisboa


Manhã cedo. O sol dourado
A tudo vai dando cor:
Há já vida na cidade
Já nela se ouve rumor

Vendedores ambulantes
Começam a aparecer
Vamos lá ver, ó fregueses
O que trazem p’ra vender

Oito horas. À nossa porta
Passa agora a tia Chica
Com sua voz compassada
Apregoa: «Fava rica»

Lá vem também a peixeira
Com seu trajo pitoresco,
Dizendo: «Oh! Viva da Costa»
Ou então «Carapau fresco»

E agora, de toda a parte
Se ouve gente que apregoa,
Gritando: «Quem quer laranja,
Quem compra laranja boa?...

«Merca o cabaz de morangos…»
«Século. Noticias. Voz…»
Oh! Boa amora da horta…»
«Quem quer ameijoas p’ra arroz?»

«Erre, erre, mexilhão…»
«Oh! Pescadinha marmota…»
«Compra o raminho de flores…»
«Oh! Figos de capa rota…»

E com a lata no braço
Fresquinha qual fresco arroio,
Passa linda vendedeira,
Cantando: Oh! Queijo saloio…»

E tudo lá vão deixando,
P’la cidade, os vendedores.
Mas, para ganhar a vida
Que canseiras, que suores!

“Pregões de Lisboa”, autor anónimo in Livro de leitura da 3ª classe 1950/51