07 janeiro, 2009

O Imagens e Poemas recebeu um prémio. Agradeço mas que vai inteirinho para o autor das imagens e para todos os poetas que nele figuram

Utopie calabresi, http://utopiecalabresi.blogspot.com/de Domenico Condito, um blogue que fala de arte, cultura e humanismo, e do qual tive conhecimento há ainda pouco tempo mas que considero do maior interesse e que por tal motivo “quase me obriga” a desenvolver os meus “modestos” conhecimentos da língua dos grandes mestres da cultura da Europa Renascentista, desde os grandes mestres da pintura, Literatura e desse tão incompreendido "Niccolò Machiavelli", homem de grande cultura e cujo livro “O Principe” é um dos meus livros de cabeceira, fez o favor de me presentear com o prémio Dardos.
O “Prémio Dardos” (sic) reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.
”Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:
a) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;
b) Linkar o blog pelo qual recebeu;
c) Exibir a distinta imagem
.
Aqui ficam os meus premiados:
1 – Charquinho -
http://charquinho.weblog.com.pt
2 – Cantigueiro - http://samuel-cantigueiro.blogspot.com
3 – Catrina -
http://bicatrina.blogspot.com
4 - Cantares Alentejanos - http://cantaresalentejanos.com.sapo.pt
5 - O Cheiro da Ilha -
http://ocheirodailha.blogspot.com
6 – Queridas Bibliotecas - http://queridasbibliotecas.blogspot.com
7 - Cântico da Beira -
http://canticosdabeira.blogs.sapo.pt
8 – O Parente do Refóias -
http://refoista.blogspot.com
9 – A Arca Velha - http://arcaz.blogspot.com
10 – Cila - http://escritadacila.blogspot.com
11 – Arvores Monumentais do Algarve e do Baixo Alentejo -
http://arvores-do-sul.blogspot.com
12 – Mar sem sal - http://marsemsal.blogspot.com
13 – O tempo das cerejas - http://tempodascerejas.blogspot.com
14 – Poesia de Vieira Calado -
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
15 – Luar da meia noite -
http://luardameianoite.blogspot.com
Um muito obigado a este amigo novo que é Domenico Condito, a quem envio um grande abraço

18 dezembro, 2008

261 - Feira de vaidades














































Foto: Charquinho

Eu, etiqueta

"Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de baptismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camisola, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu ténis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem — anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registadas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
Da sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
Ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou — vê lá — anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objecto pulsante mas objecto
que se oferece como signo de outros
objectos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome rectifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."



Carlos Drummond de Andrade

260 - Natal













































Foto: Charquinho

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira

14 dezembro, 2008

259 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Charquinho

A Ponte (o rio) Entre as Cidades

Rio de duas cidades
dividido entre tristezas
uma ponte assim as une
não de aço, de pobrezas
Álvaro Pacheco

10 dezembro, 2008

258 - Mulher com M Grande

Foto: Sharkinho

Avó e Neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!

Olavo Bilac

03 dezembro, 2008

257 - A rosa do meu jardim

Foto: Sharquinha

Poema da Rosa

Há uma rosa linda
No meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu
Quem cuidará de mim?

De manhã desabrochou
À tarde foi a escolhida
Pra de noite ser levada
De presente à minha amiga

Feliz de quem possui
Uma rosa em seu jardim
Minha amiga com certeza
Pensa agora só em mim.

Quando sopra o vento frio
E o Inverno gela o jardim.
Eu tenho calor em casa
E fico quentinho assim.

Feliz de quem tem um tecto
Para ajudar sua amiga
Fugir do vento ruim
Que deixa gelado o jardim
Berthold Brecht

02 dezembro, 2008

256 - Golfinhos em terra

Foto: Filha de Tubarão

AMIGO GOLFINHO

Tenho um golfinho amigo,
Ali para as águas do Sado
Ele andava perdido,
E por alguém foi encontrado
Por Bisnau foi baptizado
E muito feliz ficou
Por uns amigos ter encontrado,
Que por eles se apaixonou.

Ele é muito brincalhão,
Porque muitas partidas faz
Vocês acreditem ou não,
Do que este amiguinho é capaz
Então, não é que o Pescador,
Que ia na sua traineira
Naquele mar de primor,
Foi levado para a brincadeira.

Por este golfinho descarado,
Que a traineira fez balançar
Deixando o pescador todo molhado,
Que com ele não se foi zangar.

Ó golfinho brincalhão,
Diz o pescador, ao Bisnau
Ando com as redes neste mar chão,
A ver se apanho o carapau
E tu me deixas todo molhado,
neste mar tão salgado.

O golfinho, para as pazes fazer
Chamou os carapaus com rigor
Para uma bela pesca oferecer,
Ao seu querido amigo pescador.

Lá foram os dois muito contentes
Pelo Sado, devagar
Levando como presente,
Uma pesca de encantar
Bisnau e o Pescador,
Que no Sado muitos os vejam
Não dêem aos golfinhos dor,
que eles a nós nos beijam

30 novembro, 2008

255 - Amor é Amor

Foto: Filha de Tubarão

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo
Amor é estado de graça.
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionário
se a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade

28 novembro, 2008

254 - Montanhas e valados

Foto: Charquinho

Bucólica

Montanhas e valados do Senhor
Aonde nascem peregrinas flores
E onde se debuxam várias cores
Num concerto de luz fascinador

Em vós tecem enredos mil amores
Os poetas ingenuos e os pastores
Quem em suas alegrias suas dores
Hão-de sempre a beleza eterna pôr

Almas ingenuas melodioamente
elevam maravilhas amorosas
Nas palavras que formam seus cantares

E todo o poeta que ali esteve sente
Que os cânticos de amor são como rosas
Eternamente perfumando os ares...
Jayme Azancot

253 - Nem Tarde, nem Noite

Foto: Charquinho

Metade

Chega a noite. E o dia não passou
Inda todo p'ra lá, compreendido
Só metade das coisas faz sentido
E o resto é pouco, ou muito, ou não chegou.

O cerebro é pequeno, - ou desmedido,
Porque nada está lá como eu estou,
Há sempre alguma coisa que falhou
E é possivel até eu ter falido

A maior posse não existe.Pois
Não há desejo que não quebre em dois
Meu sonho que morre insatisfeito

E sendo isto uma volta sincopada
Sem mais outra certesa, sem mais nada
Pode-se lá saber o que é perfeito
Luiz Moita

25 novembro, 2008

252 - Trabalhadores

Foto: Charquinho

Os anõezinhos

Na padaria não faltava o pão,
embora o padeiro fosse um mandrião,
porque o padeiro e o moço ressonavam,
enquanto os anõezinhos trabalhavam:

uns carregavam sacos de farinha,
outros faziam pãozinho na cozinha.

Ricardo Alberty,

251 - Docinho gostooso

Foto: Charquinho

Bombom Bom

No recreio, eu ganhei um bombom.
Seu recheio era de amora.
Tinha um gosto tão bom,
que eu comeria a toda hora.

Seu gosto era delicioso,
parecia um manjar dos deuses.
Era envolvido num papel maravilhoso,
que eu admirei diversas vezes.

— Você me dá um bombom?
Só com um não vou me contentar,
pois o seu gosto é tão bom
e outro eu quero ganhar.

Bombom doce, doce bombom,
adoce a minha vida.
Traga-lhe tudo de bom,
torne-a doce de ser vivida.
Josete Maria Vichineski

250 - Noite de Amor


Noche de amor insomne
Noche arriba
los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las penas mías
momentos y palomas en cadenas.
Noche abajo
los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora
nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol
entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
mi corazón amortajado.
Garcia Lorca

23 novembro, 2008

249 - Ruinas

Foto: Charquinho

Ruinas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anciã; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sítios caros da infância.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dor oculta aos olhos;
— Dor que à face não vem, — medrosa e casta,
Íntima e funda; — e dos cerrados cílios
Se uma discreta muda
Lágrima cai, não murcha a flor do rosto;
Melancolia tácita e serena,
Que os ecos não acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepúsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu lânguido olhar um raio deixa;
— Raio quebrado e frio; — o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.
Conhecem-te estas pedras; das ruínas
Alma errante pareces condenada
A contemplar teus insepultos ossos.
Conhecem-te estas árvores. E eu mesmo
Sinto não sei que vaga e amortecida
Lembrança de teu rosto.”
de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vésper nos seus ombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas correram. No outro dia,
Quuando as vermelhas rosas do oriente
Ao já próximo sol a estrada ornavam
Das ruínas saíam lentamente
Duas pálidas sombras:

O Poeta da saudade
Machado de Assis, in 'Falenas'

21 novembro, 2008

248 - Madrugada

Foto: Charquinho





















No calor da madrugada

Quando chegar a madrugada
E o meu corpo em ti buscar o amor
Vou desenhar-me na tua pele
E antes que a manhã se revele
Sorverei o teu sabor
Seremos além de amantes
Comandados comandantes
A caça e o caçador

Quando chegar a madrugada
Vou salpicar de estrelas
Teu suor sobre o lençol
E em suave melodia

No encontro da noite com o dia
Serei a lua
E tu, o sol

09 novembro, 2008

247 - Linguagem poética

Foto: Charquinho

Passa-lhe ao lado a cidade

Passa-lhe ao lado a cidade
no contexto de uma realidade
que é só sua e de mais ninguém.

Não se sente mal
nem se sente bem,
não chora
mas não lhe dá para rir,
também dispensou
esse luxo que é sentir.

Abdicou da emoção
quando se percebeu incapaz
de lidar com as memórias
de tempos atrás.

E aprendeu que no futuro
de pouco lhe iriam valer,
essas lembranças
que fazem doer.

Cansou-se de enfrentar a reacção
desesperada
de cada pessoa amada
que tentava em vão
contrariar-lhe a decadência
e que depois ele sentia
como uma indecência
a sua presença perniciosa
nas vidas que lhe competia partilhar.

Um dia decidiu…

Quanto tempo não sabia,
que lhe restava e o que jazia
na masmorra fechada
num canto da sua mente anestesiada
à prova de emoções,
a alma afogada em alucinações…

Acreditava-se
com as rédeas da sua vida na mão,
independente,
mais livre
enquanto indigente
do que na pele controlada
por um papel a cumprir
numa vida tramada
para todos os que se deixavam arrastar
por uma maleita qualquer
que culmina no ensandecer…

Às vezes apetece-lhe sorrir,
mas descobre que é engano
quando o calor metropolitano
o lembra do frio interior
e é então que desliga o olhar,
pousado sem brilho
num ponto fixo da cidade
que lhe passa ao lado
enquanto rumina
em silêncio
a melhor solução
para a próxima refeição,
desatinado
por já nem conseguir lembrar-se
de como desenrascou a anterior.
"Charquinho"

07 novembro, 2008

246 - Canção antiga

Foto: Charquinho

O Meu cavalo

Montei meu cavalo
Que é meu companheiro
Em cada jornada
Que tinha galgado

em passa ligeiro
dez léguas de estrada.

Mas vamos ao resto
que às vezes casos
que dá alegria contá-los
passou por nós lesto
um grande automóvel
de trinta cavalos.

E o meu cavalinho
um pouco espantado
parou um instante
sem ver os cavalos
que iriam puxando
um carro tão lindo.

Mas ai numa curva
de estrada comprida
ao pé dum silvado
aquele automóvel
de tanta corrida
ficou empanado

E o meu cavalinho
pinchava imponente
de cauda aos estalos
a rir-se contente
daquele automóvel
de trinta cavalos!

06 novembro, 2008

245 - Pública ou Privada ?

Foto: Charquinho - julho 13, 2005

A Coisa Pública e a Privada

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.
Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?
O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?
— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.

Affonso Romano de Sant'Anna

244 - Mudanças...

Foto: Charquinho

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertold Brecht

243 - Curvas e contracurvas

Foto: Charquinho
Pinta-me a curva

Pinta-me a curva destes céus ... Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.

Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza túrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.

Pinta; mas vê de que maneira pintas ...
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:

— Tristeza sir-gular, estranha mágoa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos dágua ...
Olavo Bilac