17 outubro, 2007

106 - Pôr do Sol

Foto: Shark inho

Pôr do Sol

É hora do sol-pôr;
É altura de gritar;
Pássaro, criança, flor,
Eis o que falta: Amar.

É hora do sol poente;
A terra reveste-se de verdade;
A humanidade está doente,
Onde está a felicidade ?

É aqui ao entardecer,
Que me sinto desfalecer …
Os homens são marotos

Brincam, desfazendo os laços quase rotos …
E é nesta hora ao anoitecer
Que eu sinto o quanto à p´ra fazer …

(Fernanda de Sampaio)

16 outubro, 2007

105 - Gaivota

Foto: Shark inho – Outubro 2007

Tu

Tu és uma gaivota,
Que voa com asas quebradas.
És grito oprimido,
Em lábios exitantes.
És sonho de calma,
Em mar revolto.
Tu,
Tu és tudo o que és,
E tudo o que eu gostaria que fosses.
Tu…
És tu, apenas.

(Fernanda de Sampaio)

104 - Mar

Foto: Shark inho

Mar

Belo…
Puro…
Calmo…
Violento …
Só tu.
Tu que me fascinas, com a tua grandeza.
Tu que deslumbras, com a tua imensidão.
Tu que me acalmas, com a tua calma.
Tu que me dás Páz, com a tua violência.
Tu que me embriagas, com o teu perfume.
Só tu.
Tu és beleza
És o indefinido definido.
És água fria,
Em contacto com sangue quente.
Só tu.
Fascinas-me !!...

(Fernanda de Sampaio)

23 setembro, 2007

103 - À cata do vento

Foto: Shark inho

À cata do vento

O cata-vento
Tem obrigações legais
Deve
Catar o vento
Portanto
Quando o vento passa
Diz-lhe logo atento
Espara aí
Preciso de te catar
Mas o vento
Sempre a passar
Tem outras coisas
Em que pensar
Não está para ser
Catado no ar
E vai passando
Desatento
Ao cata-vento
Sem se importar
Com o tristonho
Catador de vento
Obrigado legalmente
A catar o vento
Então
O cata-vento
Senta-se no telhado
Aporrinhado
E sem vento
Para legalizar
O seu direito
De ser elemento
Respeitado
Pelos elementos
Sentado no telhado
Queixa-se
Isto não é vida!

(Mário Henrique Leiria)

102 - Comparações !

Foto: Shark inho

Política

Que simpático rato !
Não tem nada de replente ou tétrico ou nojento.
E – para dizer tudo –
Há homens menos inofensivos.

(Raul de Carvalho)

21 setembro, 2007

101 - À visinha Andaluzia

Foto: Shark inho

Ares de Andaluzia

Ó formosa Andaluzia !
Terra de Nossa Senhora !
Ó formosa Andalluzia
Onde o luar parece dia
Onde aé dia a toda a hora !

Ai eu tenho sete musas
Quais délas prefiro eu ?
Ai eu tenho sete musas,
Três d’elas são Andaluzas
Porque as outras são do céu.
.........................
Ó meninas de Sevilha
Sou doente vinde amparar-me
Ó meninas de Sevilha
Deixai-me a vossa mantilha
Que eu não quero constipar-me !
.........................

(António Nobre)

100 - Santo António de Lisboa

Foto: Shark inho

Santos Populares

Em dia de Santo António
Uma prece eu fui rezar
Ao meu santo padroeiro
Para um amor encontrar.

Recebi um mangerico
Em noite de São João
Ao saltar uma fogueira
Perdi o meu coração.

E no dia de São Pedro
Dia de sol e calor
Vieram os Santos juntinhos
Consagrar o nosso amor

99 - Ciclo: Lis(boa)todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus Cheia de glória

Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas !
Ó Lisboa dos líricos pregões ...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos Prováveis de Camões !
Ó Lisboa de mármore, Lisboa !
Quem nunca te viu, não viu coisa boa ...

(António Nobre)

98 - Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus Cheia de glória

Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
Levanta-te dáí, meu dorminhoco !
Que falta fazes à Lisboa amena !
Anda ver Portugal ! parece louco ...
Que Pátria grande ! como está pequena !
E tu dormindo sempre aí no «choco»
Ah! como tu, dorme também a Arte ...
Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte !

(António Nobre)

20 setembro, 2007

97 - Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus cheia de glória

Ó Lisboa das ruas misteriosas !
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da India, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus ...)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

( António Nobre)

96 - Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus cheia de glória

Meiga Lisboa, mística cidade !
(Ao longe o sonho desse mar sem fim)
Que pena faz morrer na mocidade !
Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
Mandai meu corpo em grande velocidade,
Mandai meu corpo p’ra Lisboa, sim ?
Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
Meus Irmãos, daí-me ali a sepultura !

(António Nobre)

Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho



À Lisboa das Naus cheia de glória

Romântica Lisboa de Garrett!
Ó Garrett adorado das mulheres
Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
À tua linda casa dos Prazeres.
Mas qual seria a melhor hora, às sete,
Garrett, para tu me receberes ?
O teu porteiro disse-me, a sorrir,
Que tu passas os dias a dormir ...

(António Nobre)

94 - Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus cheia de glória

És tu a mesma de que fala a História ?
Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde ?
Não sei quem és, perdi-te de memória.
Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde ?
Ó Lisboa das Naus, cheia de glória.
Ó Lisboa das Crónicas, responde !
E carregadas vinham almadias
Com noz, pimenta e mais especiarias ...

( António Nobre)

93 - Ciclo: Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

À Lisboa das Naus cheia de Glória

Ó Lisboa vermelha das toiradas !
Nadam no ar amores e alegrias,
Vede os Capinhas, os gentis Espadas,

Cavaleiros, fazendo cortesias ...
Que graça ingénua! farpas enfeitadas !
O Povo, ao Sol, cheirando às maresias !
Vede a alegria que lhes vai nas almas !
Vede a branca Rainha, dando palmas !

( António Nobre)

18 setembro, 2007

92 - Velas

Foto: Shark inho - Maio 2006

Uma cantiga em vilancete

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo:
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Se a minha voz conseguisse
Dissuadir tua tristeza
E a tua boca sorrisse
Mas sóbria que a natureza
Não a posso renovar.

E o brilho vai-se perdendo...
- Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

(António Botto)

91 - Avestruz

Foto: Shark inho – Setembro 2007

PALAVRAS DE UM AVESTRUZ TODO GRIS

Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas,
A esses
Que sem piedade
Me roubam as penas que me cobrem;

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido ...

E elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas !
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.

Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

Mesmo que fosse pequena
E eu te visse pobre ou nua
- Ninguém ama a sua Pátria por ser grande,
Mas sim por ser sua !

(António Botto)

90 - Lição sobre a água

Foto: Shark inho – Setembro 2007

LIÇÃO SOBRE A ÁGUA

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora,insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

(António Gedeão)

17 setembro, 2007

89 - Evocação

Foto: Shark inho – Fevereiro de 2005

EVOCAÇÃO

Recordo a casa branca à beira-estrada,
Entre flores, vinhedos e livais,
Tendo ao lado, suspensa, uma latada,
Ao fundo uma figueira e milheirais.

Recordo os nossos tempos de criança,
As promessas d’amor que então juramos,
Os beijos inocentes que trocámos,
Tanta ilusão, meu Deus, tanta esperança !...

Tudo passou. O tempo, brutalmente,
Tudo desfez, impiedosamente ...
Como dói recordar que tudo finda !

Ilusões !... Esperanças !... Nada resta.
Da nossa meninice alegre, em festa,
Somente a casa lá se encontra ainda.


(João Velente - in Isto, aquilo e o resto)

88 - Canção da Morte

Foto: Shark inho – Janeiro de 2006

Canção da Morte

Morte implacável, morte inviolável,
Bendita morte !
Pragas de mágoa, pragas de mágoa...
Olhos de noiva rasos d’água,
Corpos de lua, ao vento norte ...

Morte cantante, morte ofegante
Fecunda morte !
Trevas e gelo, trevas e gelo ...
Quero habitar no sete-estrelo,
Pago, adobrar, meu passaporte...

Morte impasssível, morte invencivel,
Gloriosa morte !
Bocas de velhos, bocas de velhos ...
Calai os santos envangelhos,
Fatal, fatal, é a vossa sorte ...

Morte amorosa, morte piedosa,
Eterna morte !
Almas perdidas, almas vencidas ...
Coragem ! Vá, mãos de suicidas !
A glória e o amor, não nos importe ...

Morte violenta, morte sangrenta,
Heróica morte !
Peitos aflitos, peitos aflitos ...
Mendigos nus e reis proscritos
Não pagam nada p’lo transporte ...

(Duarte Viveiros)

12 setembro, 2007

87 - Amo-te

Foto: Shark inho
Amo-te
Gosto de ti !
Dizia eu, sem ser capaz
de dizer-te a palavra
mais correcta.
Amo-te !
Grita a minha alma
já liberta,
de preconceitos
que teimavam em ficar.
Quero viver este amor
que me ofereces,
não quero nem pensar
por quanto tempo.
E juro, juro amor
que hás-de ficar
para sempre dentro do meu peito.

Susete Evaristo