31 maio, 2008

178 - Lavadeiras

Foto: Shark
Poema da Lavadeira

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perdeira talvez
Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
Fernando Pessoa, 15-9-1933

25 maio, 2008

177 - Teia de aranha

Foto: Shark

O AMOR

O amor, fio d'aranha quebradiço,
Um sopro o quebra e ninguém mais o reata.
Mas ai de nós! Rompeu-se e nem por isso
A dor que ele nos deixa se desata...

Num braço de corpos naufragados
Que os nossos prantos num só pranto unia,
Quedámos sucumbidos e prostrados
Até que já no céu luzia o dia

...Um dia pálido e deliquiscente

E a chuva caía,
Mais triste, mais fria,
Monotonamente ...

(Augusto Gil)

176 - Nascer do sol

Foto: Shark

Sol D'Agosto

Mesmo que um véu espesso de neblina
Toldasse o ar e o céu e tarde fosse,
Se a tua bôca fina
E purpurina
E doce
Para mim sorria,
Já não havia para mim sol posto:
Era... como se fôsse meio dia
- Um meio dia de abrasado agosto.
E trocávamos beijos sem ruído,
Desfalecidamente,
Num amor incendido,
Altissimo, purissimo, silente...
E nossos lábios, para se beijarem
Naquele enlêvo mudo e mudo encanto,
Eram dois rouxinóis que para voarem
E se encontrarem,
Interrompessem o mavioso canto...
Pois não diziam tudo,
Com esse beijo mudo,
Os meus lábios e os teus?
E nós nem saberíamos falar!
Quando o calor d'Agosto se abre aos céus
E inflama o ar
E morde a terra e a reduz a pó,
- Os rouxinóis não cantam
Voam só ...
(Augusto Gil)

16 maio, 2008

175 - Simbiose - Velho e novo

Foto: Shark
Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto... tão perto... tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

174 - Flores do campo

Foto: Shark inho

É Primavera agora, meu Amor!

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao saber

Da vida... não há bem que não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal !
Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


(Florbela Espanca)

13 maio, 2008

173 - Aonde andam as ondas?

Foto:Shark inho

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

(Manuel Bandeira)

11 maio, 2008

172 - Gosto de Gatos, pretos

Foto: Shark inho

O Gato

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné
..........................................
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga
(Vinicius de Morais)

09 maio, 2008

171 - Aquela cativa que o tem cativo

Foto: Shark inho

Endechas a Barbara Escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uã graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Luís de Camões

08 maio, 2008

170 - Uma janela florida

Foto: Shark inho

NÃO PEÇAS DEMAIS À VIDA
Não peças demais à vida,
Aceita o ela te deu
Uma JANELA FLORIDA
Mostra a cor de todo o céu.

Afinal a felicidade
Cabe num rosto a sorrir
Ai de quem sente a ansiedade
De viver sempre a pedir.

Não peças demais à vida,
Aceita o que ela te dá,
Porque a ambição desmedida
Faz-nos crer o que não há.

E não há sinceramente
Maneira de ser feliz
Para quem quer constantemente
Ser mais feliz do que quis.

Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der,
Às vezes, basta a guarida
Dum abraço de mulher.

Num sorriso de criança
Ou no sol quente a brilhar
Existe um tesouro de esperança
Que ninguém pode comprar.

Se afinal basta a guarida
Dum abraço de mulher,
Não peças demais à vida,
E aceita o que ela te der.
(Amália Rodrigues)

06 maio, 2008

169 - Jardim

Foto: Shark inho
Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
(Sphia de Mello Breyner Andresen)

168 - Sonhos

Foto: Shark inho

Sonhos

S'crevo meu livro à beira-mágua.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a dispertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras portuguez,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anceio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
(Fernando Pessoa)

05 maio, 2008

167 - Tomate também é fruto

Foto: Skark inho
Vamos falar sobre fruta - (extracto)

Vamos falar sobre fruta
que todos devem comer
chupar a sua carninha
ou o seu sumo beber.

A fruta é colorida,
cada fruta sua cor,
arredondada ou comprida
cada fruta, seu sabor.
...........................................

tomate, também é fruto
é vermelho e não é doce,
corta-se às rodelinhas
e come-se com a alface.
(Autor desconhecido)

04 maio, 2008

166 - Toda a rosa tem espinhos

Foto: Shark inho


PRIMAVERA

Entre rosas, bem lestinhos,
Vigiam duros espinhos;
E entre espinhos, bem vistosas,
Campeiam essas rainhas
Que têm o nome de rosas
De comum, de parecido,

Uns e outros nada têm;
Mas como se entendem bem!
Sendo frágeis e garbosas,

Por todos apetecidas,
Não serão esses espinhos
Os seguranças das rosas?
Só receio que os mortais,

Que mudam tantos destinos,
Um dia também consigam
Mudar rosas em espinhos.
Ao contrário, a natureza,

Quem tem leis maravilhosas,
Talvez um dia consiga
Dos espinhos fazer rosas.
(Abel Grilo)

165 - Marginal (um qualquer dia da semana)

Foto:Shark inho 1/12/2007

POEMINHA DO CONTRA

“E todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão...
Eu, passarinho!”

(Mário Quintana)

02 maio, 2008

164 - Olha uma nêspera e zás picou-a...

Foto: Shark inho


RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

(Mário Henrique Leiria)

28 abril, 2008

163 - Barcos no Tejo

Foto: Shark inho
Tenho uma janela

Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrela
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.

(Mário Castrim)

162 - Sardinheiras

Foto: Shark inho
AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folha
se margens lisas ou recortadas
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

(Jorge Sousa Braga)

161 - Lis(boa) todos os dias

Foto: Shark inho

Aurora Boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto,
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,

todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

(António Gedeão)

27 abril, 2008

160 - Barcos no Tejo

Foto: Shark inho

Barcos no Tejo

Cá no alto do castelo
Está S. Jorge a dominar
Olha o Tejo com desvelo
A vê-lo correr pró mar
Vejo as velas tão branquinhas
Barquinhos a deslizar
Os barcos são alfacinhas, e não vão
Não vão pró mar
Barcos do Tejo
P’lo rio afora
Eu bem os vejo
Namorar Lisboa
Iguais as velas
Que deram fama
Às caravelas
De Vasco da Gama
Barcos do Tejo
A navegar
Que eu bem os vejo
Olhando pró mar
Barcos do Tejo
Velas à vela
São filigrana de Lisboa
Nobre e tão bela
Destas muralhas com glória
Cá no alto do castelo
Deito os olhos pró Restelo
E oiço falar a história
Velas ao vento
Tal qual as que vês lá em Belém
Mostraram ao mundo quem
E o valor de Portugal

23 abril, 2008

159 - Um rio

Foto: Shark inho

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira